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Mundo

Jornalista francês morre na Síria, onde a violência só aumenta

Arquivo Geral

11/01/2012 17h34

Mais de 20 pessoas, entre elas o jornalista francês Gilles Jacquier, morreram nesta quarta-feira (11) na cidade de Homs, na Síria, onde os combates e a repressão se intensificaram desde a chegada, dias atrás, dos observadores da Liga Árabe.

Jacquier, enviado especial da televisão pública francesa “France 2”, fazia parte de um dos dois grupos de repórteres que o regime sírio guiou nesta quarta-feira até a cidade para tentar convencer de que a rotina reina no local e induzir à ideia de que os incidentes armados são ações esporádicas de grupos terroristas.

A percepção, no entanto, é muito distinta após avistar os arredores da cidade, antigo cruzamento de diferentes rotas e atualmente sede da escola de oficiais mais prestigiada do Exército sírio. Homs, local onde repousa o túmulo do guerreiro islâmico Khalid Ibn al Walid, que no ano 636 arrancou a então próspera província de Shams do Império bizantino, é agora uma cidade dividida, que o regime parece não controlar em sua totalidade e na qual apenas de pisar nas ruas já se encontra o medo e a fatalidade.

Postos de vigilância e inspeção das Forças Armadas condicionam o trânsito em todas as estradas circundantes, e centenas de sacos de terra protegem os principais edifícios governamentais. Grupos de soldados e homens armados, a pé ou em caminhonetes, percorrem praças, avenidas e becos, acompanhados de uma legião de agentes vestidos à paisana, que deslizam em cada canto como uma sombra permanente infestada de olhos.

“O Exército está aqui para nos proteger dos grupos terroristas que atacam a cidade. Estamos acostumados, vivemos muitas guerras e nesta também venceremos”, argumenta Rabie Ahmad, um jovem de 25 anos, vendedor em um dos bairros leais ao presidente sírio, Bashar al Assad. “São agentes enviados pela Arábia Saudita e o xeque Hamad (clérigo estabelecido no Catar) para desestabilizar a Síria com a ajuda de mercenários sírios e drogados”, acrescenta o apoiador do Governo.

“Entram pela fronteira libanesa e pela Turquia, que está muito perto”, acrescenta seu companheiro, Ahmad Shaqi, 24 horas depois da “denúncia” de um complô internacional feita pelo presidente em declaração à nação.

A aparente campanha de propaganda do regime foi denunciada nesta terça-feira (10) por Anwar Maliki, um dos observadores da criticada delegação da Liga Árabe, que em entrevista à televisão por satélite Al Jazeera classificou sua missão como “pantomima”.

“Eu me retirei porque, de repente, me vi como um servidor do regime. De que maneira? Oferecendo uma oportunidade de ouro para que continue com os assassinatos e me sentindo impotente para impedir”, argumentou Maliki. “O mais importante é ter sentimentos de humanidade. Passei mais de 15 dias em Homs. Vi cenas de horror, cadáveres carbonizados”, acrescentou o analista argelino.

Algumas dessas cenas puderam ser observadas da mesma forma pelos dois primeiros grupos de jornalistas que o regime sírio transferiu a Homs, apesar de, alegando razões de segurança, as autoridades terem impedido que os profissionais se aproximassem das regiões mais conflituosas.

Mesmo assim, o repórter francês, o câmera que o acompanhava, Christophe Kenck, e um colega belga – ambos feridos – sofreram essa violência enquanto visitavam um hospital localizado em uma das áreas ainda sob controle das forças leais a al Assad. Uma fonte da comitiva explicou à Agência Efe que os repórteres foram vítimas de um ataque com morteiros no qual também morreram outras sete pessoas e dezenas ficaram feridas com diferentes gravidades.

Em conversa telefônica com a Efe, o dirigente opositor sírio, Omar Edelbe, responsabilizou o regime pela morte de Jacquier, o primeiro jornalista estrangeiro que perde a vida na Síria desde a explosão da sublevação popular contra o regime de al Assad em 2011.

A Federação Internacional de Jornalistas condenou nesta quarta-feira a morte do jornalista francês na Síria e pediu às autoridades do país que informem as medidas tomadas para proteger os profissionais que sofreram o ataque. A Efe foi testemunha em Homs de que os combates das últimas horas em diferentes regiões da cidade e nos arredores causaram ferimentos de bala em pelo menos seis membros das forças de segurança.

Um deles é um homem que no começo da manhã ingressou no hospital militar de Homs em estado crítico com um ferimento de projétil na parte posterior da cabeça.

“É esta a liberdade, é isto o que pretendem os terroristas? Não são mais que um bando de assassinos que querem destruir a Síria”, gritava entre soluços uma das enfermeiras antes de ingressar na sala de cirurgia.

Os grupos de oposição denunciaram a morte, nesta quarta-feira, de pelo menos outras 19 pessoas em diferentes incidentes armados no país.

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