Menu
Mundo

 Insegurança e soberania energéticas marcam abertura de conferência sobre combustíveis fósseis

A plenária marca o início, de fato, do alto nível da conferência, com presença de ministros e outras autoridades de governos dos 56 países esperados no evento, que ocorre desde a última sexta-feira

Redação Jornal de Brasília

28/04/2026 18h59

conferencia taff, santa marta, colombia1 convertido de webp

Foto: Mark Hertsgaard

PHILLIPPE WATANABE
FOLHAPRESS

A plenária de abertura da conferência Taff (sigla em inglês para “Transitioning away from fossil fuels”, algo como transição para longe dos combustíveis fósseis), nesta terça-feira (28), foi marcada por declarações sobre dependência de petróleo, soberania energética e segurança -além de agradecimentos ao Brasil pelo papel recente na discussão.

A plenária marca o início, de fato, do alto nível da conferência, com presença de ministros e outras autoridades de governos dos 56 países esperados no evento, que ocorre desde a última sexta-feira (24), em Santa Marta, na Colômbia. Os Países Baixos copresidem o evento.

A representante do Brasil na conferência em Santa Marta, Ana Toni, relembrou partes do discurso do presidente Lula (PT) durante a COP30, em Belém, no Pará, e afirmou que a guerra no Irã mostrou até para céticos que o abandono dos combustíveis fósseis é vital não somente para a questão climática, mas para a segurança econômica e para a paz.

O conflito armado tem causado forte flutuação de preço e riscos no abastecimento de países.

Jules Kortenhorst, copresidente da Comissão de Transição Energética, coalizão global de líderes de todo o setor energético, disse que o mundo é viciado em petróleo e esquece que se trata de uma forma de energia ineficiente. “O que vimos nos últimos dois meses é que os combustíveis fósseis não só ineficientes, mas inerentemente instáveis e inseguros”, disse. “A maioria dos países depende de combustíveis fósseis que eles não controlam, preços de mercado que eles não influenciam e, portanto, vulneráveis a choques que eles não podem prevenir.”

Na mesma linha, Wopke Hoekstra, comissário para o Clima, Neutralidade Carbônica e Crescimento Limpo da União Europeia, afirmou que a Europa já tinha a ação climática como motivo para abandonar os combustíveis fósseis, mas que agora tem também razões econômicas e de independência. “A crise energética é uma realidade. Na Europa, estamos perdendo meio bilhão de euros por dia que essa guerra [no Irã] continua.”

A crise energética gerada pela guerra no Irã também foi lembrada por Rachel Kyte, representante especial para o clima do Reino Unido. “Seria irresponsável ignorar a segunda crise dos combustíveis fósseis em cinco anos. Uma crise que prova, de uma vez por todas, que a instabilidade e a insegurança que vêm da nossa dependência dos combustíveis fósseis precisam acabar.”

Brasil elogiado e pedidos por tratado vinculante

Stientje van Veldhoven, ministra de Clima e Desenvolvimento Verde dos Países Baixos, uma das primeiras a falar -logo após a abertura de Irene Vélez-Torres, ministra de Meio Ambiente da Colômbia- agradeceu ao Brasil, especialmente a Ana Toni, diretora-executiva da COP30.

“Pela sua perseverança em buscar progresso. Nosso objetivo é apoiar seus esforços”, disse Veldhoven, em menção à Ana Toni, que está na plenária.

Vélez-Torres falou que a conferência em Santa Marta é a expressão da contradição dos tempos atuais, com belezas naturais e, ao mesmo tempo, local de um relevante porto exportador de carvão, uma fonte de energia suja. A Colômbia, como um todo, é consideravelmente dependente de combustíveis fósseis.

A ministra colombiana afirmou que deveria se celebrar pelos países presentes na conferência, e não se distrair pelos que não estão. A fala está relacionada a uma questão que se repete em Santa Marta: a ausência no evento dos principais países poluidores no mundo, EUA e China, além de outro relevante ator petroleiro, a Rússia.

A ideia de um tratado vinculante pelo fim dos combustíveis fósseis foi mencionada em mais de um discurso na plenária. É uma ideia que tem sido ouvida por Santa Marta, partindo de alguns membros da sociedade civil.

Esse tipo de tratado é um resultado possível em COPs (as conferências da ONU sobre mudanças climáticas) e se mostra uma realidade aparentemente distante da Taff. Em diversos momentos do encontro em Santa Marta, a ministra ambiental dos Países Baixos deixou claro que os países não estão no evento para negociar, mas para discutir soluções.

A primeira a mencionar a ideia -que apareceu em, pelo menos, mais uma vez– em discurso na plenária foi Yuvelis Morales, 25, ambientalista que recebeu, na última semana, o prêmio ambiental Goldman. “Que dessa conferência saia um instrumento vinculante que assegura às comunidades e aos territórios a fazer uma transição energética justa, territorial e comunitária. Por isso convido vocês que essa ferramenta se consolide em um tratado sobre combustíveis fósseis”, disse. “Hoje convoco vocês não só a falar e dialogar, mas a gerar ações concretas.”

Discurso brasileiro


Além da questão da insegurança enérgica, Ana Toni também relembrou de como o evento em Santa Marta, de certa forma, teve um dedo de Brasil.

“Ele [Lula] disse: ‘A Terra não suporta mais um modelo de desenvolvimento baseado no uso intensivo de combustíveis fósseis. O mundo precisa de um mapa do caminho claro para acabar com a dependência dos combustíveis fósseis”, afirmou a secretária-executiva da COP30. “E a semente que a ministra Marina Silva [agora ex-ministra] e o presidente Lula plantaram já resultou em frutos maravilhosos.”

A nova conferência foi anunciada ao fim da COP30, que teve o seu encerramento marcado por um forte posicionamento colombiano pela inclusão de combustíveis fósseis na declaração final do encontro -o que não ocorreu.

A Taff também aparece em busca da construção de bases para a realização dos chamados “mapas do caminho”, que buscam apontar os movimentos e estratégias necessários para o abandono dos combustíveis fósseis.

Ana Toni, por fim, afirmou que a ideia de Marina e Lula resultou em discussões na própria COP30 e na iniciativa liderada por André Corrêa do Lago, presidente da conferência em Belém, de apresentar um mapa do caminho. “E agora estamos aqui”, disse Ana Toni.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado