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Em protesto contra Boris Jonhson, parlamentar conservador vira casaca e entra no Partido Trabalhista

Christian Wakeford faz parte do grupo de jovens conservadores eleitos pela primeira vez em 2019, ala de maior resistência ao primeiro-ministro

Por FolhaPress 19/01/2022 9h23

Um parlamentar deixou nesta quarta (19) o Partido Conservador, o mesmo do premiê Boris Johnson, e entrou no opositor Partido Trabalhista, em protesto contra o que chamou de comportamento vergonhoso do líder britânico, alvo de pedidos de renúncia por festas de seu gabinete no período de lockdown no país.

Christian Wakeford faz parte do grupo de jovens conservadores eleitos pela primeira vez em 2019, ala de maior resistência ao primeiro-ministro. Ao menos 20 parlamentares desse grupo afirmam que vão entregar uma moção de desconfiança ao partido, gesto que pode abrir espaço para a saída de Boris do poder.

“Não posso mais apoiar um governo que se mostrou consistentemente desconectado com o povo trabalhador de Bury South [distrito que elegeu o parlamentar] e do país como um todo”, disse Wakeford.

A mudança de lado se deu pouco antes de Boris voltar ao Parlamento para, pela segunda vez, dar explicações sobre as festas realizadas na residência oficial no período em que restrições contra a Covid-19 estavam em vigor e na véspera do funeral do príncipe Philip, período de luto oficial no país.

Na sede do Legislativo britânico, Boris reagiu à deserção e negou que vá renunciar. “O Partido Conservador venceu [no distrito de] Bury South pela primeira vez em gerações sob o governo de um premiê com uma agenda de união”, afirmou. “E vai ganhar de novo a próxima eleição em Bury South sob este premiê.”

A fritura de Boris vem crescendo. Nesta quarta, o ex-ministro David Davis, que comandou entre 2016 e 2018 as ações do governo para deixar a União Europeia, pediu de forma dramática a renúncia do primeiro-ministro, retomando discurso de 1653 do lorde Oliver Cromwell para condenar o Parlamento da época.

“Vou lembrá-lo de uma citação muito familiar a ele. ‘Em nome de Deus, vá [embora]'”, disse. “Espero que meus líderes assumam a responsabilidade pelas ações que tomam”, afirmou Davis a Boris.

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Para que seja aberto um processo para tirar o premiê do cargo, é necessário que ao menos 54 dos 360 parlamentares da legenda escrevam uma moção de desconfiança a um órgão do partido chamado Comitê de 1922. No documento, eles devem expressar dúvidas de que Boris pode se manter no cargo. Segundo o jornal The Telegraph, 11 parlamentares conservadores já enviaram suas cartas na manhã desta quarta.

O governo tem apostado numa agenda positiva para ofuscar a crise, e Boris anunciou nesta quarta o fim de medidas de restrição impostas para conter o avanço da ômicron, responsável por novos picos de casos de Covid no país. Após bater recordes no começo de janeiro, a curva de infecções começou a cair, mas ainda está em cerca de 100 mil novas contaminações por dia, número muito acima do registrado em ondas anteriores. Já a cifra de mortes diárias atingiu o maior nível em quase um ano.

Entre as medidas anunciadas por Boris estão o fim da obrigatoriedade do uso de máscaras e dos passaportes vacinais, em aceno ao eleitorado conservador, além da liberação da volta do trabalho presencial. Outras decisões de impacto também foram divulgadas nos últimos dias para tentar desviar a atenção da fritura que domina o noticiário, como o fim do financiamento público à rede britânica BBC.

Há desconfiança, porém, se esses anúncios serão suficientes para salvar o premiê, em um momento em que o Partido Conservador já estuda quem poderia substituí-lo. Há dois nomes entre os mais cotados. Um deles é o do ministro das Finanças, Rishi Sunak, cofundador de uma corretora de investimentos, que entrou para o governo em 2018 como subsecretário parlamentar para Habitação, Comunidades e Governo Local. Antes de ocupar o cargo atual, havia sido também secretário-chefe do Tesouro.

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A outra aposta é a secretária de Relações Exteriores, Liz Truss. Formada em filosofia, política e economia pela Universidade de Oxford, ela foi eleita para o Parlamento em 2010. Em 2019, recebeu o cargo de ministra para Mulheres e Igualdades e passou a cuidar da chancelaria em setembro.

Ajudou a piorar o cenário para Boris a publicação de um texto de Dominic Cummings, seu antigo conselheiro, em um blog na segunda-feira (17), no qual afirmava que o premiê estava ciente da festa na residência oficial e deu aval para que o evento acontecesse.

A alegação contraria o que Boris apresentou ao Parlamento. Em sua versão, ele alegou ter pensado que o encontro era uma reunião de trabalho, já que o jardim da residência oficial funciona, segundo ele, como uma extensão do escritório

O premiê disse que lá permaneceu por 25 minutos para agradecer aos funcionários e, depois, voltou ao seu gabinete.

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Pesquisa do jornal The Independent aponta que 65% dos eleitores diz não acreditar na desculpa -o número se mantém alto mesmo quando a sondagem considera apenas eleitores conservadores, com 54%.








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