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Egito comemora mudanças militares mas receia poder absoluto de Mursi

Arquivo Geral

13/08/2012 14h50

As forças políticas deram as boas-vindas nesta segunda-feira às mudanças na cúpula militar anunciadas pelo presidente egípcio, Mohammed Mursi, embora muitos tenham mostrado receio diante da concentração de poder que o líder passa a ter. Em um movimento que surpreendeu todo o país, Mursi remodelou no domingo a cúpula militar com a retirada do ministro da Defesa, Hussein Tantawi, e do chefe do Estado-Maior, Sami Anan, ao mesmo tempo em que anulou as emendas constitucionais que reservavam autoridade legislativa às Forças Armadas.

 Desta forma, o presidente reúne agora todo o poder executivo e legislativo, pois o Parlamento foi dissolvido por uma ordem judicial, além de ganhar capacidade de designar uma nova Assembleia Constituinte se a atual “tiver algum impedimento” para completar seus trabalhos, isto é, redigir uma nova Carta Magna. Naturalmente, os mais entusiastas com os movimentos de Mursi foram seus antigos correligionários no Partido Liberdade e Justiça (PLJ), braço político da Irmandade Muçulmana e liderado pelo presidente até sua eleição em junho.

 O atual presidente da formação, Esam el Arian, informou que as ordens do líder são “decisões corajosas que ajudarão a conseguir os objetivos da revolução”. Em comunicado divulgado na web, Arian disse que Mursi exerceu “seu dever soberano”, e que seus decretos contribuíram para “frustrar os complôs contrarrevolucionários”, em alusão às prerrogativas que os militares assumiram com as emendas constitucionais agora canceladas.

 Além de Arian, o Conselho Supremo das Forças Armadas do Egito qualificou de “normal” a remodelação da cúpula militar ordenada pelo presidente Mohammed Mursi. Em comunicado divulgado no Facebook nesta segunda-feira, a Junta Militar afirmou que as mudanças no órgão são normais porque se trata de “uma transferência da responsabilidade a uma nova geração de egípcios que protegerá o país”.

 Também expressou seu apoio a Mursi o segundo maior bloco no Parlamento dissolvido, os salafistas de Al Nur (A Luz). Segundo disse à agência Efe seu porta-voz, Mohammed Nur, “as decisões de Mursi estão no caminho correto, porque, como presidente, exerce seus poderes normais”. “Quando Mursi foi nomeado presidente, pedimos que tivesse poderes completos e respondeu aos pedidos do povo. Não é preciso que a instituição militar intervenha agora no poder, porque o estado de emergência acabou e a situação voltou à normalidade”, acrescentou.

 De acordo com este argumento, Nur alertou que seu partido participará de manifestações de apoio ao presidente caso necessário. Muito menos entusiasta foi a porta-voz do Partido Social-Democrata, um dos que formam a oposição laica, Hala Mustafa, que disse à Efe que o grupo decidiu “não reagir nem de forma positiva nem negativa até que se esclareçam as consequências” dos últimos movimentos.

 “Não queremos nos precipitar, porque tememos que as decisões de Mursi sejam apenas em favor da Irmandade Muçulmana e não para o bem do país”, assinalou Hala, que por isso decidiu “esperar para ver o que há por trás”. O prêmio nobel da Paz Mohamed ElBaradei qualificou no Twitter os movimentos como um “passo na direção correta”, embora tenha alertado sobre os “poderes imperiais” que tem agora o presidente.

 Em uma linha similar se expressou o porta-voz dos Egípcios Livres, também do bloco secular, Ahmed Hairi, que defendeu o direito de Mursi de tomar essas decisões porque com elas “põe um fim no duplo poder civil e militar”. No entanto, acrescentou que seu partido mantém reservas pelo fato de que o poder legislativo e toda autoridade estejam agora nas mãos do presidente. “Temos medo das tentativas de transformar o Estado em um território da Irmandade Muçulmana e que ela substitua o Partido Nacional Democrático” do ex-presidente Hosni Mubarak, explicou Hairi.

 Por outro lado, o Movimento 6 de Abril, origem da revolução que acabou com o mandato de Mubarak, não só felicitou Mursi por ter afastado Tantawi e Anan, como também pediu que eles fossem julgados pelos supostos crimes cometidos à frente da Junta Militar durante a transição. “O poder legislativo que agora acumula Mursi pode ser discutido, mas a aposentadoria de Tantawi e Anan é uma excelente medida”, disse à Efe Mahmoud Afifi, porta-voz do grupo.

 Para explicar os motivos por trás deste movimento, não faltaram teorias da conspiração. Uma das mais ouvidas é que a cúpula militar preparava um golpe de Estado junto com uma manifestação no dia 24 de agosto contra Mursi. Por isso, em conivência com outros altos comandantes, o presidente executou as mudanças de maneira urgente, como defende em seu blog o jornalista e analista Wael Iskander.

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