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Decisão da Nasa de não usar cápsula da Boeing para buscar astronautas é mais um problema

A Nasa decidiu que é mais seguro manter os astronautas no espaço até fevereiro do que arriscar usar a cápsula Boeing Starliner

Redação Jornal de Brasília

06/09/2024 23h32

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Foto: Divulgação / Nasa

O anúncio da Nasa, no mês passado, de que não irá mais usar uma cápsula defeituosa da Boeing para trazer de volta para a Terra dois astronautas que ficaram isolados, é mais um revés para a empresa, que passa por dificuldades, embora o prejuízo financeiro provavelmente seja menor do que o dano à sua reputação.

A Boeing já foi um símbolo da engenharia e da capacidade tecnológica dos EUA, mas sua reputação vem sendo abalada desde que duas aeronaves 737 Max caíram em 2018 e 2019, matando 346 pessoas. A segurança de seus produtos voltou a ser examinada com atenção depois que um painel de uma aeronave Max estourou durante um voo em janeiro.

E agora a Nasa decidiu que é mais seguro manter os astronautas no espaço até fevereiro do que arriscar usar a cápsula Boeing Starliner que os levou até a estação espacial internacional. A cápsula enfrentou muitos problemas com seu sistema de propulsão

Bill Nelson, administrador da Nasa, diz que a decisão de enviar a cápsula da Boeing de volta à Terra sem tripulação “é o resultado de um compromisso com a segurança”. A Boeing vinha insistindo que a Starliner era segura, com base em testes recentes dos propulsores, tanto no espaço, quanto em terra.

O programa da cápsula especial representa apenas uma pequena fração do faturamento da Boeing, mas transportar astronautas é um trabalho de grande destaque, assim como a atuação da Boeing na construção dos aviões presidenciais americanos Air Force One

“A situação toda é mais um baque” para a Boeing, segundo o analista aeroespacial Richard Aboulafia. “Vai doer um pouco mais, mas nada que eles já não tenham enfrentado antes.”

A Boeing já perdeu mais de 25 bilhões de dólares (140 bilhões de reais) desde 2018: os acidentes fizeram despencar seu negócio de fabricação de aeronaves. Por algum tempo, o departamento espacial e bélico da empresa ofereceu uma proteção parcial, registrando grandes lucros e faturamento estável até 2021.

Desde 2022, no entanto, o departamento espacial e bélico da Boeing começou a tropeçar também, perdendo 6 bilhões de dólares (33 bilhões de reais), pouco mais do que o setor de aviões da empresa no mesmo período.

Os resultados foram prejudicados por vários contratos de preço fixo com a Nasa e o Pentágono, inclusive um acordo para construir os novos aviões presidenciais Air Force One. A Boeing se viu em apuros, porque os custos desses projetos aumentaram muito além das estimativas anteriores.

Só no segundo trimestre, a empresa registrou um prejuízo de 1 bilhão de dólares (5,6 bilhões de reais) nos contratos públicos de preço fixo, mas o problema não é recente.

“Temos alguns programas de desenvolvimento a preço fixo que precisamos apenas encerrar e nunca mais fazer”, disse no ano passado o então CEO, David Calhoun. “Nunca mais fazer.”

Em 2014, a Nasa concedeu à Boeing um contrato de preço fixo de 4,2 bilhões de dólares (23,6 bilhões de reais) para transportar astronautas à Estação Espacial Internacional após a aposentadoria dos ônibus espaciais, em paralelo a um contrato de 2,6 bilhões de dólares (14,6 bilhões de dólares) com a SpaceX.

A Boeing, com mais de um século de experiência na construção de aeronaves e décadas como fornecedora da Nasa, era considerada a favorita. Mas a Starliner sofreu contratempos técnicos que a obrigaram a cancelar alguns lançamentos de teste, atrasar o cronograma e estourar o orçamento. A SpaceX venceu a corrida para transportar astronautas à EEI, o que realizou em 2020.

A Boeing finalmente estava em condições de levar os astronautas este ano, e Butch Wilmore e Suni Williams embarcaram na Starliner no início de junho para uma missão no espaço que deveria durar 8 dias. Mas falhas nos propulsores e vazamentos de hélio levaram a Nasa a estacionar o veículo na estação espacial enquanto os engenheiros debatiam como levá-los de volta à Terra

Em um documento regulatório, a empresa declarou que o último problema com a Starliner havia causado um prejuízo de 125 milhões de dólares (700 milhões de reais) até 30 de junho, o que elevou o excesso de custo acumulado do programa para mais de 1,5 bilhão de dólares (8,4 bilhões de reais). “Ainda permanece o risco de que possamos registrar prejuízos adicionais em períodos futuros”, afirma a Boeing.

Aboulafia diz que o impacto da Starliner sobre os negócios e as finanças da Boeing será restrito, “não vai realmente mudar as coisas”. Até mesmo o contrato de 4,2 bilhões de dólares e o prazo de vários anos com a Nasa é uma parte relativamente pequena do faturamento da Boeing, que registrou 78 bilhões de dólares (440 bilhões de reais) em vendas no ano passado.

Aboulafia acredita que a Boeing usufruirá de um período de boa vontade de clientes, como o governo, agora que está sob nova liderança, reduzindo o risco de que perca contratos grandes. Nelson, o administrador da Nasa, disse no sábado que estava 100% confiante de que a Starliner voaria com uma tripulação novamente

Robert “Kelly” Ortberg entrou no lugar de Calhoun como CEO no mês passado. Ao contrário dos últimos CEOs da empresa, Ortberg veio de fora. Ele já esteve à frente da fabricante de aeronaves Rockwell Collins, onde construiu a reputação de andar entre os trabalhadores no chão de fábrica e formar vínculos com clientes públicos e companhias aéreas.

“Eles estão passando por uma transição, de uma das piores lideranças executivas para uma das melhores”, diz Aboulafia. “Dada a mudança de regime em curso, acho que as pessoas devem pegar leve com eles.”

O departamento bélico da Boeing recentemente firmou alguns contratos enormes. Ela está preparada para fornecer helicópteros Apache para governos estrangeiros, vender 50 jatos F-15 para Israel como parte principal de um contrato de 20 bilhões de dólares (112 bilhões de reais), e construir protótipos de aviões de vigilância para a Força Aérea dos EUA em um contrato de 2,56 bilhões de dólares (14,5 bilhões de reais).

“São ventos favoráveis, mas vai demorar um pouco até que eles (o departamento espacial e bélico da Boeing) voltem a dar lucro”, diz Aboulafia.

Estadão Conteúdo

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