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Bombardeio israelense sem precedentes reduz a escombros Rimal, o coração de Gaza

Israel já havia atingido Rimal, que também é sede dos ministérios do governo do Hamas, na guerra de 2021, mas nunca dessa forma

Redação Jornal de Brasília

27/10/2023 23h42

Foto: Mahmud Hams/AFP

Prédios desmoronados, infraestrutura destruída, ruas transformadas em amontoados de escombros.

Cenas de violência e destruição na Faixa de Gaza, há muito tempo alvo de bloqueio, já ocuparam as ondas de rádio de todo o mundo ao longo de quatro guerras e incontáveis rodadas de hostilidades entre Israel e os militantes do Hamas. Mas os palestinos dizem que este conflito é diferente.

Na terça-feira, 10, após uma noite de bombardeio intenso, os moradores tiveram dificuldade de apreender a imensa extensão dos danos causados ao bairro nobre de Rimal, na Cidade de Gaza, com seus shoppings, restaurantes, edifícios residenciais e escritórios de grupos humanitários e imprensa internacional, longe das cidades na fronteira do território, duramente atingidas, e os empobrecidos campos de refugiados.

Israel já havia atingido Rimal, que também é sede dos ministérios do governo do Hamas, na guerra de 2021, mas nunca dessa forma.

As bombas israelenses explodiram paredes e arrancaram telhados de torres de apartamentos de alto padrão. Elas derrubaram árvores que ladeavam as calçadas. Destruíram ruas que fervilhavam com executivos correndo para o trabalho e vendedores anunciando castanhas torradas. Reduziram a pó mesquitas e prédios de universidades, e derrubaram arranha-céus com escritórios de empresas e organizações como a principal fornecedora de telecomunicações de Gaza e a Ordem dos Advogados

Em meio àquelas avenidas largas cheias de salões de beleza, lojas de falafel e pizzarias, pulsava o coração da Cidade de Gaza. Para muitos, a magnitude da destruição, que atingiu as classes média e alta do território, teve um significado simbólico.

“Israel destruiu o centro de tudo”, diz o empresário palestino Ali al-Hiyak, em sua casa, perto de Rimal. “É o espaço da nossa vida pública, da nossa comunidade.”

“Eles estão quebrando a gente”, acrescenta.

Depois que o Hamas, que governa Gaza, realizou o ataque mais letal contra Israel em décadas, matando mais de mil pessoas e fazendo dezenas de reféns em uma ofensiva de várias frentes, Israel iniciou uma campanha de bombardeios que os moradores de Gaza descrevem como a mais intensa de que se lembram, com centenas de ataques aéreos na noite de segunda-feira.

“Esses sons são diferentes”, escreveu em uma mensagem de texto Saman Ashour, de 30 anos, na Cidade de Gaza, enquanto permanecia acordada em um bairro ao norte de Rimal, ouvindo o estrondo das explosões. “É o som da vingança.”

Os moradores relatam que as forças armadas israelenses atingiram alguns edifícios sem disparar antes os mísseis de alerta como precaução. O número de mortes de civis vem aumentando rapidamente. No total, as autoridades de saúde de Gaza relataram que os ataques aéreos já mataram mais de 7.000 pessoas e feriram outras milhares. Israel também cortou o abastecimento de água e eletricidade de Gaza, agravando as condições humanitárias do território, já lastimáveis.

O porta-voz em árabe as forças armadas israelenses, Avichay Adraee, diz que Israel estava tentando “evacuar populações civis de áreas onde o Hamas tem presença militar” antes de iniciar “a forte destruição”.

Essa tática fica evidente com as assustadoras imagens de drone que mostram extensas áreas do centro da Cidade de Gaza reduzidas apenas a crateras de pó e ruínas de prédios demolidos.

Mas a maioria dos civis palestinos não fez a evacuação. Não há abrigos antiaéreos. Israel e o Egito têm rígido controle das fronteiras do enclave e não deixaram ninguém sair. Os abrigos da ONU estão se enchendo rapidamente.

Depois do ataque sem precedentes do grupo militante contra civis e soldados israelenses, que surpreendeu e aterrorizou um país há muito tempo considerado invencível, para os analistas parecia claro que o grupo estava apostando todas as fichas sem se preocupar com as consequências. Israel agora está travando uma guerra não para repelir o Hamas, como em rodadas anteriores, mas para destruí-lo.

“A perspectiva estratégica é aniquilar, destruir e demolir a capacidade militar do Hamas”, diz Kobi Michael, pesquisador sênior do Instituto de Estudos de Segurança Nacional, um centro de pesquisas israelense. “O Hamas trouxe isso para os habitantes de Gaza.”

“Se Israel não usar agressividade suficiente”, acrescenta, “isso apenas nos arrastará para outra frente e outro conflito.”

Os palestinos em Gaza, porém, veem a ira dos militares israelenses como uma punição coletiva.

“Estamos falando de danos a hospitais que não conseguem nem funcionar sem combustível, da demolição total de casas e infraestrutura”, diz Iyad Bozum, porta-voz do Ministério do Interior de Gaza. “Quando isso terminar, não haverá mais nada para sequer reconstruir. Será impossível viver aqui.”

Os ataques a Rimal na manhã de terça-feira mataram moradores comuns, como lojistas e jornalistas locais, e destruíram dezenas de casas.

Issa Abu Salim, de 60 anos, estava furioso em meio aos destroços de sua casa, as roupas imundas pela poeira da destruição.

“Nosso dinheiro acabou. Minhas carteiras de identidade se perderam. A casa inteira, todos os quatro andares, se foi”, diz. “A região mais bonita, eles destruíram.”

Estadão Conteúdo

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