IGOR GIELOW
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Enquanto lida com uma perigosa escassez de mísseis para defesa antiaérea contra as forças de Vladimir Putin, a Ucrânia expandiu sua guerra assimétrica com ataques de longo alcance na Rússia para a gigante do comércio online do vizinho, a Wildberries.
Nesta quarta-feira (29), mais um centro logístico da empresa foi atingido por drones, desta vez em Riazan, 215 km a sudeste de Moscou e a 500 km da fronteira ucraniana. O ataque fez parte de uma onda em diversos pontos do país, que atingiram também refinarias, além de uma base na Crimeia anexada.
Ao menos três pessoas morreram nos ataques. Em Riazan, seis funcionários da Wildberries foram feridos e a unidade está em chamas. Desde o fim de semana retrasado, a Ucrânia atacou 11 centros da gigante.
Segundo sua direção, cerca de 10% da capacidade de distribuição da empresa foi perdida, e os prejuízos são estimados entre o equivalente a R$ 10 bilhões e R$ 14 bilhões em produtos -fora instalações. Nesta quarta, o jornal econômico Kommersant disse que Wildberries está procurando galpões para operar a partir do Cazaquistão.
A alegação de Volodimir Zelenski para o ataque a alvo civil é que a Wildberries ajudaria na distribuição de componentes para drones russos. Pode ser, mas o objetivo político é outro: minar a credibilidade de Putin.
O problema para o russo está na classe média urbana, que faz grande uso dos serviços da empresa, dona de 45% do e-commerce russo, com a também local Ozon em segundo lugar, com 30%.
O Kremlin disse que não teria como ajudar a empresa a compensar seus clientes, pois no começo do mês ela havia mudado seu estatuto definindo isenção de ressarcimento em caso de ataques externos.
Houve uma compensação inicial anunciada de meros R$ 2,6 milhões a consumidores da sofisticada São Petersburgo, mas a fundadora da empresa, Tatiana Kim, disse nesta semana que não haverá dinheiro para atender a todos que perderam dinheiro.
Uma dessas pessoas é Mikhail, um jornalista de Moscou que pede para não divulgar o sobrenome. Ele havia comprado o equivalente a R$ 300 em roupas para a sua filha recém-nascida, mas o produto foi destruído no ataque ao depósito de Elektrostal, nos arredores da capital, sábado retrasado (18).
“Eu sei que é pouco dinheiro no contexto da guerra, mas é um absurdo a empresa não nos pagar e o governo não fazer nada”, afirmou, por mensagem de texto. Apoiador relutante da guerra de Putin, Mikhail afirma que o Kremlin precisa fazer mais.
Já há grande irritação com as filas em postos de combustível e majoração de preços decorrentes da campanha ucraniana contra refinarias, que atingiu mais duas instalações nesta quarta. A fase mais aguda da crise parece ter passado após o governo implantar medidas como o veto à exportação de diesel e gasolina, mas os ataques prosseguem.
O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, disse que a Wildberries não é obrigada legalmente a ressarcir ninguém, mas elogiou a iniciativa da empresa –que, para clientes como Mikhail, é apenas uma figuração.
Por ora, a medida mais concreta veio do Banco Central russo, que emitiu uma ordem para que nenhuma falência seja pedida por bancos de empresas em dificuldades devido à guerra. Segundo a diretriz, as instituições têm de buscar primeiro reestruturação de dívidas e ampliar linhas de crédito.
O maior banco russo, o Sberbank, disse nesta quarta que considera medidas devido ao temor de perda de musculatura financeira da Wildberries. “Estamos considerando aumentar as provisões [contra calotes]? Sim, estamos”, afirmou o executivo Taras Skvortsov, que listou 300 empresas na fila de ajuste de dívidas.
Lentamente, o mau-humor se reflete em pesquisas de opinião. O insuspeito Centro Levada, principal instituto independente e colocado na lista do Kremlin de “agentes estrangeiros” por ter apoio externo, aponta que tanto Putin quanto a avaliação de governo estão no pior momento desde as vésperas da invasão da Ucrânia.
O presidente é aprovado por 74%, o menor índice desde fevereiro de 2022, quando ele registrou 71%.
O mesmo ocorre com a aprovação do governo, em 52% como naquele momento.
Se parecem números excelentes para padrão ocidental, são quedas consideráveis ante o prestígio auferido por Putin com a guerra, que o fez flutuar constantemente entre 80% e 90% de aprovação. No esquema das coisas da política russa, com facções do governo se digladiando sob a supervisão imperial do presidente, a popularidade é um ativo central de legitimidade.