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Vendas do comércio recuam 0,1% em outubro e pioram cenário para economia

Outubro foi o terceiro mês seguido com variação negativa no varejo, embora o IBGE considere a taxa mais recente como relativa estabilidade

Por FolhaPress 08/12/2021 2h54
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Leonardo Vieceli

Em um cenário de pressão inflacionária, juros mais altos e renda fragilizada, o volume de vendas do comércio varejista do país recuou 0,1% em outubro, na comparação com setembro. O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou o dado nesta quarta-feira (8).

O desempenho ficou abaixo das expectativas do mercado. Analistas consultados pela agência Bloomberg esperavam alta de 0,7% nas vendas. Outubro foi o terceiro mês seguido com variação negativa no varejo, embora o IBGE considere a taxa mais recente como relativa estabilidade, já que ficou próxima de zero.

Segundo André Perfeito, economista-chefe da Necton Investimentos, o resultado reforça os sinais de perda de fôlego da atividade econômica. “O dado de outubro veio muito pior do que o esperado. Há, nitidamente, um cenário de fraqueza no comércio varejista”, afirma.

“Isso é resultado de um cenário perverso para a renda dos brasileiros. Temos inflação elevada e juros subindo”, completa. Frente a outubro de 2020, quando o comércio ensaiava reação após a chegada da pandemia, as vendas caíram 7,1%, indicou o IBGE. Nessa comparação, a estimativa de analistas era de uma retração menor, de 6,1%.

Com o desempenho de outubro, o comércio ficou 0,1% abaixo do patamar pré-pandemia. O IBGE considera fevereiro de 2020 como nível pré-crise. No acumulado deste ano, até outubro, o varejo ainda registrou avanço, estimado em 2,6%. Em período maior, de 12 meses, também houve crescimento de 2,6%. As duas taxas, contudo, já foram maiores ao longo de 2021.

Cristiano Santos, gerente da pesquisa do IBGE, associou a perda de fôlego aos efeitos da escalada da inflação, das restrições ao crédito e da renda do trabalho em declínio. “São os principais fatores”, disse.

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A inflação ganhou força no país com a pressão de itens como combustíveis e energia elétrica. No acumulado de 12 meses até outubro, o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) registrou alta de 10,67%. A marca de dois dígitos é a maior desde janeiro de 2016 (10,71%).

Para tentar conter a inflação, o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) deve aumentar novamente a taxa básica de juros, a Selic, nesta quarta-feira. Enquanto isso, a renda média do trabalho vem caindo no Brasil. O indicador atingiu o menor nível para o terceiro trimestre da série histórica do IBGE, iniciada em 2012, conforme dados divulgados no último dia 30.

O rendimento mais baixo reflete a volta de informais ao mercado de trabalho, com salários menores, e a inflação mais forte, segundo analistas. Na visão de Perfeito, o desempenho do comércio em outubro sinaliza que o quarto trimestre começou “mal”, e a perspectiva até o final de 2021 não é muito animadora.

Os últimos três meses do ano reúnem datas importantes para o comércio. Depois de iniciar o trimestre no vermelho, com o recuo em outubro, o varejo teve uma Black Friday morna em novembro, sem o registro de multidões em lojas, cenas que costumavam ocorrer em anos anteriores.

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Em dezembro, o setor vive a expectativa com o Natal, mas o contexto de dificuldades ameaça os negócios da data, pondera Perfeito. “Talvez o Natal seja fraco. A Black Friday já não teve dados tão bons”, diz.

Segundo o IBGE, cinco das oito atividades pesquisadas no comércio tiveram taxas negativas em outubro, frente a setembro. Houve recuos em livros, jornais, revistas e papelaria (-1,1%), móveis e eletrodomésticos (-0,5%), combustíveis e lubrificantes (-0,3%), hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo (-0,3%) e artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos, de perfumaria e cosméticos (-0,1%).

Três atividades apresentaram crescimento. Foram as seguintes: tecidos, vestuário e calçados (0,6%), outros artigos de uso pessoal e doméstico (1,4%) e equipamentos e material para escritório, informática e comunicação (5,6%).

Em relatório, a CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) atribuiu a retração do varejo em outubro aos efeitos da inflação. “O bônus representado pelo aumento na circulação de consumidores que permitiu a reação do setor após as duas ondas da pandemia se mostra próximo ao esgotamento”, afirmou a entidade.

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Diante desse quadro, a CNC reduziu de 3,6% para 3,1% a expectativa de alta no volume de vendas do comércio neste ano. Para 2022, a projeção é de avanço de 1,2%. Antes de revelar o resultado do comércio, o IBGE divulgou, na semana passada, os dados da produção industrial, que caiu 0,6% em outubro. Foi a quinta contração em sequência nas fábricas. O volume do setor de serviços, por sua vez, será conhecido na próxima semana.








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