Francisco Dutra
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Quem dá conta de pagar uma empregada doméstica hoje em dia? Cada vez mais famílias brasilienses respondem não a essa pergunta. Por um lado, o salário-mínimo, a base de cálculo direta para os vencimentos de mensalistas e diaristas, saltou de aproximadamente R$ 370 para R$ 622, de 2002 para 2012. Por outro, a renda dos patrões das classes média e alta não cresceu com o mesmo vigor. E, para manter o orçamento, muitos começam a pensar duas vezes antes de contratar alguém para ajudar a arrumar a casa ou a cuidar dos filhos.
Para o diretor de Gestão da Companhia de Planejamento do DF (Codeplan), Julio Miragaya, essa disparidade de aumentos está pesando no mercado de empregadas domésticas. “Há três, quatro anos, uma família ganhava em média R$ 2,5 mil e pagava R$ 500 para uma empregada. Isso equivalia a 20% do orçamento. Hoje, as famílias passaram a ganhar R$ 4 mil, mas pagam R$ 1 mil para a empregada. O custo com a mensalista passou para 25%. E esses 5% a mais fazem muita di ferença”, comentou.
Ao contrário da posição de Miragaya, o supervisor do escritório regional do DF do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Clóvis Sherer, considera que atualmente ainda há espaço para o pagamento das empregadas no orçamento das famílias. Mas, para Sherer, é inegável a tendência para um futuro próximo de aumento dos salários de mensalistas e diaristas. E esses novos vencimentos poderão provocar mudanças sociais e econômicas dentro e fora dos lares.
Tempo integral
Segundo Sherer, um mercado com menos empregadas domésticas é propício para que a população exija mais escolas em tempo integral. Afinal sem a atenção de uma empregada, essa seria uma boa solução para manter os pequenos em segurança enquanto os pais estão no serviço. “Também será preciso repensar as divisões de trabalho entre maridos e mulheres. Na indústria, haverá a necessidade equipamentos domésticos para melhor fazer os afazeres domésticos sem empregadas. Como lavadoras de roupa, louça e secadoras”, completou.
Na análise de Sherer, além de salários mais altos, o emprego doméstico caminha para novos perfis, mais segmentados e qualificados. Ao mesmo passo que o emprego doméstico clássico tenderá a cair, quadros especializados como o de cuidador de enfermos e idosos deverão estar mais presentes no mercado. Nesse sentido, Sherer lembrou que a população brasileira está em franco processo de envelhecimento. O novo empregado doméstico cuidador terá de ter noções de medicamentos, compreender as bulas e instruções de médicos e enfermeiras.
Evolução
E para José Marcelo Pereira, 30 anos, esse futuro da profissão já virou realidade. De 2009 a 2011, ele trabalhou como cuidador de enfermos em residências. O serviço exigia dedicação e estudos. E para tanto, José buscou estudos no campo da saúde. “Tinha de passar aos médicos, cardiologistas, nutricionistas e psicólogos tudo que estava acontecendo com a pessoa”, pontuou. Mesmo com a especialização, o salário não era bom, de R$ 900 a R$ 1,8 mil.
Buscando melhores rendimentos ele olhou para outra necessidade dos lares: o cuidado com os estofados. Para “cuidar” melhor da esposa, Virlanda de Sousa Chaves Pereira, 24 anos, e da filha Monique de Sousa Pereira, três anos, ele decidou apostar no segmento. E hoje fatura R$ 3 mil por mês, atendendo a residências e até empresas. “O emprego doméstico deve ficar cada mais segmentado e vai ser preciso qualificação”, comentou.