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Preço da cerveja sobe, mas reajuste é menor em bares e restaurantes

O país é o terceiro maior consumidor mundial do produto, só perde para China e dos Estados Unidos da América

Foto: Patrick Hertzog/AFP

Daniele Madureira
São Paulo, SP

A escalada inflacionária que se disseminou por produtos e serviços no Brasil nos últimos meses atingiu um item sensível na cesta de consumo: a cerveja. O país é o terceiro maior consumidor mundial do produto, depois da China e dos Estados Unidos.

Segundo dados da empresa de pesquisas Nielsen, obtidos pela Folha, o preço da bebida avançou 11,1% entre junho de 2021 e maio de 2022, período em que o consumo em volume cresceu 9,5%.

Na comparação com o ano anterior (junho de 2020 a maio de 2021), porém, houve alta de 11,2% no preço e queda de 8,2% no volume, o que demonstra uma freada no consumo por causa da inflação. O recuo ocorre em um momento de retomada do movimento em bares e restaurantes, com o avanço da vacinação contra a Covid-19 e o fim das restrições.

A conjuntura que envolve o aumento do preço dos insumos da cerveja (como cevada e malte, em razão da Guerra na Ucrânia), a alta do preço dos combustíveis (que encarece a logística) e a perda do poder de compra do brasileiro (cada vez mais pressionado pela inflação generalizada) levou a um pacto entre a indústria e os bares, principal canal de venda da bebida: o reajuste de preços para esses estabelecimentos deve ser menor que o reajuste praticado para os supermercados.

“Os preços vêm subindo paulatinamente por diferentes fatores nos últimos meses, e existe uma expectativa de novo aumento entre agosto e outubro”, diz Paulo Solmucci Júnior, presidente da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes).

“Mas negociamos com os grandes fabricantes um repasse menor aos bares e restaurantes, que enfrentam um momento delicado, apenas 40% deles estão tendo lucro depois da pandemia”, afirma Solmucci. “Há um compromisso das indústrias neste sentido.”

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O executivo destaca os últimos dados do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), referentes a maio, que apontam variação de 5,22% no preço da cerveja nos bares nos últimos 12 meses e de 9,38% nos domicílios.

Procuradas pela reportagem para falar sobre novos aumentos de preço nos produtos, as três grandes fabricantes do país -Ambev, Heineken e o grupo Petrópolis (dono da Itaipava)– não quiseram dar entrevistas.

Mas reportagem do jornal americano The Wall Street Journal, publicada no dia 16, revela que a AB Inbev, dona da Ambev, percebeu estar atrasada em relação aos aumentos de custos em certos mercados, como Brasil e Estados Unidos, em razão da inflação acelerada desde o início do ano, apesar das atualizações regulares de preços. O jornal ouviu o principal executivo de finanças da AB Inbev, Fernando Tennenbaum.

“É um círculo vicioso: à medida que o preço sobe, as pessoas compram menos”, diz Ciro Medeiros, gerente de atendimento de fabricantes de bebidas da Nielsen. “O auxílio emergencial, no primeiro ano da pandemia, ajudou o consumo, mas, com o aperto na renda das famílias, a tendência é que as vendas continuem em queda, com algum refresco no último bimestre, por causa da Copa do Mundo e das festas de fim de ano.”

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De acordo com Medeiros, diferentemente de outras categorias relacionadas à “indulgência” do consumidor –fora da cesta básica, como biscoitos e chocolates–, em que é possível oferecer o mesmo produto em embalagens menores para conter a alta de preço, a venda de cerveja não funciona com essa estratégia.

“Em vez disso, a indústria prefere trabalhar com embalagens retornáveis, de vidro”, diz o consultor. “É uma embalagem mais cara que a de alumínio, por exemplo, mas ela pode ser usada várias vezes.”

Em nota, a Ambev, que concentra pouco mais de 60% do mercado de cervejas do país, informou que a aposta nos retornáveis é o seu foco neste momento, pela sustentabilidade e pela redução de preço ao consumidor. Essa é a principal embalagem comercializada nos bares e restaurantes.

De acordo com Solmucci, da Abrasel, cerca de 60% da receita dos bares vem da cerveja, enquanto nos restaurantes essa fatia é de 20%.

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“Os bares não conseguem repassar o aumento cheio ao consumidor, daí a importância desse tipo de acordo com a indústria”, afirma.

Com alta no preço, bebida premium tende a estacionar

Já do ponto de vista dos fabricantes, os bares e restaurantes responderam por 59% das vendas em volume no ano passado, segundo dados da empresa de pesquisas Euromonitor. Neste ano, a fatia desses estabelecimentos deve encolher dois pontos percentuais, para 57%, enquanto os supermercados vão ficar com 43% das vendas em volume, informa a empresa de pesquisas.

“A tendência é que mais gente procure a cerveja nos supermercados, um canal que oferece preços mais baixos que o bar”, diz Rodrigo Mattos, analista da Euromonitor.

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Nesse sentido, a busca por uma cerveja premium, que compense a economia de trocar a mesa do bar pela sala de casa, deve sofrer impacto.

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“Vamos ver um aumento da venda de cervejas mainstream, de preço médio”, diz Mattos, destacando que esse movimento deve ser visto principalmente neste ano nos supermercados. A venda de premium, por sua vez, tende a estacionar.

O analista Marcelo Monteiro, da Lafis Consultoria, concorda. “Vamos ver uma troca das marcas premium pelas tradicionais de preço médio”, diz Monteiro. “Aquele consumidor que estava se acostumando a comprar as cervejas mais caras, para tomar em casa, tende a voltar para as mainstream”, diz.

De acordo com Monteiro, apesar de as perspectivas para o mercado de trabalho serem melhores no segundo semestre, a renda não cresce por causa da inflação de dois dígitos. “Em razão da Copa e das festas de fim de ano, a queda no consumo pode desacelerar, de 8% para 4% ou 5%”, afirma. “Mas os preços vão continuar subindo, em alta até maior, de 14%, porque não há fatores que barrem a atual escalada de preços.”








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