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Economia

Inflação de alimentos põe em xeque bondades eleitorais de Lula

Além do alto endividamento das famílias, boa parte da explicação, segundo especialistas, está nos preços dos alimentos

Redação Jornal de Brasília

02/05/2026 7h31

Foto: EBC

FERNANDO CANZIAN
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

Como incumbente visando ficar no cargo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) repete Jair Bolsonaro (PL) e Dilma Rousseff (PT) com pacotes de bondades aos eleitores. A cinco meses do primeiro turno, no entanto, o petista mantém 40% de avaliação ruim/péssimo pelo Datafolha e está empatado com Flávio Bolsonaro (PL) nas projeções de segundo turno.

Além do alto endividamento das famílias, boa parte da explicação, segundo especialistas, está nos preços dos alimentos que ofuscam tanto a recente recuperação da renda média quanto o desemprego em níveis historicamente baixos.

“Jair Bolsonaro perdeu a eleição pelo choque de preços dos alimentos no pós-pandemia. A popularidade de Joe Biden [nos EUA] também sofreu muito com isso. Para Lula, a agenda do custo de vida será decisiva”, afirma Christopher Garman, diretor-geral para as Américas do Eurasia Group.

Embora o Brasil tenha tido alguns meses de deflação nos preços de alimentos e bebidas no ano passado, eles voltaram a acelerar em 2026. “Para o brasileiro, segue a percepção de que tudo ficou mais caro e de que ele não avança na vida”, diz Garman.

Segundo o Datafolha, mesmo entre os mais pobres com renda familiar mensal até dois salários mínimos e que tendem a ser mais favoráveis a Lula a taxa de ruim/péssimo subiu de 24%, em dezembro de 2024, para 33%, em abril deste ano. No mesmo período, o percentual avançou de 22% para 27% no Nordeste, sua fortaleza eleitoral.

Pesquisa Genial/Quaest de abril mostrou que 72% acham que os preços dos alimentos subiram, ante 58% que disseram o mesmo em março. Os que afirmaram que seu poder de compra caiu em relação ao ano passado subiram de 64% em março para 71% em abril.

Apesar de dados positivos no emprego, a renda disponível das famílias após gastos com itens essenciais, impostos e pagamento de dívidas encontra-se no nível mais baixo desde 2011, segundo a Tendências Consultoria.

Há também um movimento de precarização do mercado de trabalho, em que o dinamismo na área formal e informal esconde a primazia na criação de vagas que pagam menos que a média salarial da economia.

Em fevereiro, a massa de renda disponível das famílias após gastos essenciais era de 21%, segundo a Tendências. No início de 2024, chegava a 23,6%. É uma deterioração expressiva em pouco tempo, diz Alessandra Ribeiro, sócia e diretora de macroeconomia da consultoria.

“A inflação de alimentos no domicílio aumentou 12% desde que Lula assumiu. Não à toa isso tem relação com sua popularidade”, diz Ribeiro. “A renda média subiu no período, mas alguns gastos específicos aumentaram mais.”

Na consultoria MB Agro, a projeção para a inflação de alimentos para este ano dobrou, de 2,5% para 5%, sobretudo por pressões nos preços de fertilizantes e outros insumos causadas pela guerra no Oriente Médio. Há também expectativa de impacto do El Niño no campo.

Relatório do Banco Mundial de abril também projeta inflação de alimentos três pontos percentuais maior para este ano e o próximo ante estimativa feita em janeiro.

Para André Braz, coordenador dos Índices de Preços da FGV-Ibre, o cenário otimista para a inflação geral e de alimentos fica cada vez mais distante. “Com o petróleo se sustentando acima de US$ 100 o barril, as pressões vão se acumulando.”

Num cenário mais pessimista, a inflação geral deste ano chegaria a 5,4% (o teto da meta é 4,5%), e a de alimentação no domicílio, 6,6%.

Braz lembra que em abril o preço médio das matérias-primas brutas no IGP-M da FGV acelerou 5,78%, ante 0,67% em março. “Isso ainda não chegou aos bens finais ou intermediários, mas chegará em caso de continuidade da guerra.”

Do ponto de vista macroeconômico, Lula mantém estratégia parecida com a de Dilma para tentar segurar preços, embora tenha sido atropelado pela guerra do Irã, que encareceu a cadeia do petróleo e os fertilizantes.

Com a taxa real de juros interna elevada (9,2% acima da inflação), o Brasil tem atraído dólares de investidores de fora, o que torna as importações mais baratas e ajuda a segurar preços de commodities.

Lula também está turbinando uma série de programas para aliviar o aperto orçamentário das famílias.

O presidente tomou medidas para desonerar o diesel, anunciou R$ 20 bilhões no Fundo Social para a habitação e promove um pacote visando diminuir o endividamento de famílias e empresas. Segundo levantamento da Folha de S.Paulo, o conjunto de ações pode injetar mais de R$ 100 bilhões na economia.

“O governo quer faturar a curto prazo, custe o que custar”, afirma Renato Fragelli, professor da Escola Brasileira de Economia e Finanças da FGV. “Gastos e juros elevados beneficiam triplamente os pobres.

Pelo bem-estar dos agraciados [por benesses eleitorais], pela valorização cambial que barateia bens e pelo fato de o baixo desemprego encarecer o preço do trabalho [porque gastos aumentam a atividade].”

Fragelli afirma que, em 2014, Dilma conquistou a reeleição com combinação semelhante de gastos e juros elevados. “A recessão que se seguiu foi a maior desde 1929, com a diferença de que a dívida bruta estava em 59% do PIB, muito abaixo dos 80% atuais”, diz.

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