O pacote de R$ 133 bilhões de investimentos em logística, anunciado nesta quarta-feira pelo governo federal, só deve provocar impactos no crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) no médio prazo, na avaliação dos professores da Universidade de São Paulo (USP) Luciano Nakabashi e Alberto Borges Matias. Mais cético, Nakabashi, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP/USP), avalia que, “se o investimento de fato acontecer”, os reflexos serão sentidos no crescimento do País somente a partir de 2014. “É preciso saber ainda até que ponto o pacote consegue trazer capital privado, geralmente de grandes corporações, com condições que deem retorno e garantia às companhias e sem a ajuda do BNDES”, afirmou.
Nakabashi considera que o ponto positivo do pacote de investimentos em rodovias e ferrovias é a possível eliminação de grandes gargalos de logística do País, considerados os maiores entraves para a produtividade e a competitividade da indústria nacional. “Esse gargalo, resolvido, pode estimular o investimento do setor privado, principalmente de indústrias e de setores do agronegócio”, disse.
Para Nakabashi, outro fator positivo no médio prazo para os investimentos se consolidarem é que a criação de 150 mil empregos, estimados pelo governo na esteira do pacote, não será de imediato. “Estimular muito o emprego com medidas para o PIB no curto prazo afeta demanda e, como estamos já em pleno emprego, traz inflação. Por isso, as medidas acertam ao focar no aumento da oferta, com a melhoria da competitividade e efeitos no emprego no médio prazo”, observou.
Já Matias, coordenador do Instituto de Ensino e Pesquisa em Administração (Inepad), avalia que o pacote ajudará na recuperação do setor industrial, um dos que mais frearam o crescimento do PIB no primeiro semestre, e deve ampliar a participação de empresas estrangeiras nas obras de infraestrutura. “Para alguns setores com alto nível de investimento e tecnologia, como o de produção de vagões, por exemplo, a indústria nacional não está preparada, o que favorece a entrada de grandes companhias, notadamente asiáticas”, avaliou.
Ainda segundo Matias, mesmo com os esperados investimentos em infraestrutura, há “muito espaço” para o crescimento do PIB lastreado no crédito e no consumo. “O modelo econômico brasileiro centrado em expansão de consumo ainda continua forte, com um volume em 51% do PIB, ante uma média de 150% nos países desenvolvidos”, disse. No entanto, segundo ele, o crescimento deve ocorrer prioritariamente por meio do aumento do crédito às pessoas jurídicas. “Com a valorização do dólar e o aumento do crédito para as companhias, o setor industrial voltará a crescer”, disse.