Menu
Economia

Ibovespa sobe 1,06% e renova máximas históricas no pós-Copom e pós-Fed

Neste fechamento pós-Copom e pós-Fed, o Ibovespa mostrava alta de 1,06%, aos 130.842,09 pontos

Redação Jornal de Brasília

14/12/2023 18h47

Foto: Divulgação

Mesmo com o Copom em tom cauteloso – sem sinais de que acentuará no curto prazo o ritmo de cortes da Selic, apesar da perspectiva mais suave do Fed para a política monetária nos Estados Unidos -, o Ibovespa conseguiu renovar nesta quinta-feira marcas históricas tanto no intradia como para o fechamento da sessão.

Em boa parte da tarde, parecia que ficaria no quase, para o fechamento: se pela manhã o pico histórico intradia foi elevado aos 131.259,81 pontos, perfurando marca que prevalecia desde 7 de junho de 2021, o índice da B3 perdeu fôlego na etapa vespertina. Mas perto do apito final, voltou a ganhar embalo, em alta pouco além de 1%, que foi o suficiente para empurrar o Ibovespa também a patamar recorde de encerramento, acima dos 130 776,27 pontos que estava em vigor desde a mesma data acima, há pouco mais de dois anos e meio.

Neste fechamento pós-Copom e pós-Fed, o Ibovespa mostrava alta de 1,06%, aos 130.842,09 pontos, saindo de mínima na abertura aos 129.469,02, que já correspondia a um dos melhores níveis de que se têm registro na B3. Na semana, o índice acumula agora ganho de 2,95% e, no mês, de 2,76% – no ano, avança 19,24%.

Na véspera de vencimento de opções sobre ações, e vindo do vencimento de opções sobre o Ibovespa ontem, o giro financeiro foi a R$ 34,2 bilhões nesta quinta-feira, acima da média habitual do ano para uma sessão sem vencimentos.

Na visão de analistas, volume fortalecido combinado a marca recorde indica confiança dos investidores em um rali sustentável, mesmo com a cautela mostrada ontem pelo Copom com relação ao ritmo de redução da Selic nos meses à frente, mantido no atual meio ponto porcentual. E o comportamento do câmbio, com o dólar na mínima do dia a R$ 4,87, sugere ingresso de fluxo na Bolsa, em sessão na qual o Ibovespa andou bem à frente dos índices de Nova York – com renovação de recorde pelo Dow Jones, ontem e também hoje, no fechamento, embora de avanços limitados para os três índices de referência, na sessão. Aqui, o dólar à vista mostrava queda mais discreta no fim do dia, de 0,12%, a R$ 4,9151.

Movidas pelo apetite a risco, as ações de primeira linha operaram em direção única, positiva, com Petrobras (ON +2,33%, PN +2,17%) à frente do grupo, em dia de recuperação de 3% para as cotações do petróleo. Na ponta ganhadora do Ibovespa na sessão, destaque para Dexco (+4,79%), Prio (+4,54%), Lojas Renner (+4,30%) e MRV (+4,23%). No lado oposto, Grupo Casas Bahia (-5,66%), Natura (-5,22%), Petz (-4,98%), Magazine Luiza (-3,95%) e SLC Agrícola (-3,66%).

“Conforme o consenso, o Copom cortou ontem a Selic em meio ponto porcentual, que fecha assim o ano a 11,75%. Com relação aos próximos passos, foi mantido o plural, para próximas reuniões, do forward guidance de outros cortes de meio ponto porcentual. Se tirassem o plural, teria sido menos conservador. Mas vai começar o ano com dois cortes iguais, de meio ponto, o que não deixa de ser bom e evita solavancos. O viés é favorável a risco, com a percepção de que se terá Selic de um dígito no próximo ano”, diz Matheus Spiess, analista da Empiricus Research, que vê espaço para que prevaleça rali neste fim de ano.

“Até o Copom desta quarta-feira, parte do mercado estava acreditando em aceleração do ritmo de cortes da Selic, e não foi o que se indicou agora. Está contratada a manutenção do ritmo de redução nas próximas reuniões, mesmo com a melhora observada nos juros longos e da inflação no exterior. O cenário externo, embora tenha melhorado, ainda demanda cautela, mesmo com o tom mais suave, dovish, adotado pelo Fed”, diz Rachel de Sá, chefe de economia da Rico Investimentos, acrescentando que a comunicação após a decisão do Copom ainda não faz referência aos sinais emitidos pelo BC dos Estados Unidos, na tarde de ontem.

Na zona do euro e no Reino Unido, assim como no caso do Federal Reserve no dia anterior, as taxas de juros de referência foram mantidas em decisões de política monetária tomadas nesta quinta-feira, em linha com o esperado. Tanto o Banco Central Europeu (BCE) como o Banco da Inglaterra (BoE) deixaram claro, contudo, que o trabalho de combate à inflação não está completo, observa Gabriel Costa, analista da Toro Investimentos.

“Tivemos um prolongamento dos ganhos de ontem na sessão desta quinta-feira, mas com um pouco mais de cautela, no exterior, depois do entusiasmo que houve com o Fed. O tom das autoridades monetárias, na zona do euro e na Inglaterra, veio um pouco mais duro”, acrescenta.

Dólar

O real tentou sustentar o ritmo de valorização em relação ao dólar de ontem, ainda amparado pelos sinais dovish do Federal Reserve (Fed) e, agora, também pelo compromisso do Banco Central brasileiro de não acelerar o ritmo de corte dos juros. Mas acabou sucumbindo no final do pregão ao temor fiscal, enquanto o mercado acompanhava a análise do veto à desoneração da folha de pagamentos pelo Congresso.

O dólar fechou em queda de 0,12% em relação ao real, a R$ 4,9151 – quatro centavos acima da mínima do dia, de R$ 4,8757 (-0,92%), registrada no início da sessão. A moeda oscilou abaixo da linha de R$ 4,90 durante a manhã e parte da tarde, mas firmou-se acima desse nível depois das 15h30, quando o veto foi derrubado. Na máxima, próxima do fechamento, tocou R$ 4,9176 (-0,07%), quase zerando as perdas do dia.

A derrubada do veto era esperada, mas profissionais do mercado citam a reação do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, como ponto que elevou a tensão nos mercados. Em uma entrevista a jornalistas, ele disse que o projeto de desoneração é inconstitucional e indicou que pode recorrer à Justiça para derrubar a medida.

Enquanto Haddad falava, o dólar subiu às máximas da sessão, descolado do exterior, onde caía firmemente em relação aos pares desenvolvidos e a outras moedas emergentes. Aqui, os juros futuros zeraram as quedas ao longo da curva, também descolados dos rendimentos das Treasuries americanas, que caíram hoje até 9 pontos-base.

“Além de o Congresso aprovar a prorrogação da desoneração, Haddad prometeu brigar pela inconstitucionalidade da medida, o que é um sinal ruim para a articulação política em plena temporada de aprovação de pautas arrecadatórias”, afirma o economista-chefe da Nova Futura Investimentos, Nicolas Borsoi.

A equipe econômica tem apenas oito dias para aprovar as medidas ambicionadas para atingir o déficit primário zero em 2024, já que o Congresso entrará em recesso na sexta-feira da semana que vem, 22. Estão em discussão pautas essenciais para turbinar a arrecadação do ano que vem, como a medida provisória de subvenções ao ICMS, que será votada no plenário da Câmara após ter sido aprovada em comissão mista hoje.

O diretor de produtos de câmbio da Venice Investimentos, André Rolha, nota que a derrubada dos vetos à desoneração descolou o real dos pares. Antes do tema ter entrado em debate, a moeda brasileira ganhava mais espaço, amparada pelo aumento do apetite por risco e pela visão de um diferencial de juros ainda grande entre Brasil e Estados Unidos, diz o analista.

“A queda do dólar refletiu a euforia depois do Fed, que tirou a pressão da curva de juros americana e do dólar e acabou abrindo espaço para os investidores alocarem um pouco mais em emergentes ou recolocarem o que tinham tirado”, afirma Rolha. “Com o Brasil sem demonstrar aceleração dos cortes e o Fed falando em cortar, tem combustível para potencializar o real.”

Juros

Os juros futuros terminaram a sessão em baixa, mas bem longe das mínimas da manhã, quando a leitura de que Federal Reserve mostrou-se inclinado à possibilidade de iniciar um ciclo de redução de juros em 2024 estimulava o apetite pelo risco. A partir do meio da tarde, o fôlego se esvaiu e as taxas reduziram sensivelmente a queda. O rali deu lugar a uma realização de lucros, estimulada pelo exterior e pela derrubada do veto do presidente Lula à desoneração da folha de pagamento de 17 setores, pelo Congresso, que piora as condições fiscais para 2024.

O volume de contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) negociados na B3 foi robusto. O vencimento para janeiro de 2025 voltou a girar mais de 1 milhão de contratos e encerrou com taxa de 10,110%, de 10,162% ontem no ajuste. A do DI para janeiro de 2026 caiu de 9,73% para 9,71%. O DI para janeiro de 2027 terminou com taxa de 9,81% (9,84% ontem) e a do DI para janeiro de 2029, em 10,24%, de 10,30%.

Nas mínimas da manhã, as taxas chegaram a fechar 20 pontos-base, tendo já ontem recuado de forma expressiva. O mercado ainda repercutia a leitura dovish do Fed, que mudou a sinalização para a política monetária, não somente não mais ameaçando com novas altas de juros como também admitindo que a possibilidade de cortes entrou no radar. Os rendimentos das Treasuries longas voltaram a cair com força, com o yield da T-Note chegando a tocar mínima em 3,88%, mas no fim do dia voltava ao patamar de 3,92%.

Helena Veronese, economista-chefe da B.Side Investimentos, afirma que o impacto das indicações do Fed não deu espaço para qualquer reação do mercado ao Copom, que “foi até conservador” nas considerações a respeito do ambiente externo, embora tenha reconhecido que está menos adverso. Na sua visão, como a entrevista do presidente da instituição, Jerome Powell, na qual admitiu que houve discussões preliminares sobre a probabilidade de queda de juros entre os membros, terminou perto do fim da reunião do Copom, não houve tempo hábil para ajuste no comunicado. “O Fed mudando a mão abre espaço para o Copom ser menos conservador na ata, na qual poderá dar mais ênfase a essa melhora externa”, disse. A ata do Copom será divulgada na terça-feira, dia 19.

Outro estímulo à queima de prêmios pela manhã veio do dado fraco do setor de serviços. A queda nas vendas nos conceitos restrito (-0,3%) e ampliado (-0,4%) surpreendeu o mercado, cujo consenso era de altas de 0,3% e 0,2%. “Dentro da pesquisa, os setores mais afetados foram justamente aqueles mais sensíveis à renda e ao crédito, que devem perceber os efeitos do alívio na Selic somente no segundo trimestre de 2024”, afirmou Veronese.

Diante da indicação do Copom de mais dois cortes de 0,50 ponto na taxa básica, a aposta na ampliação do ritmo para 0,75 ponto no curto prazo praticamente saiu do radar, mas pela manhã a curva chegou a precificar nível terminal de 9%. À tarde, porém, com a piora dos ativos, a precificação voltou a ficar entre 9,25% e 9,50%.

O fôlego de baixa começou a arrefecer inicialmente por uma correção técnica vinda do exterior e depois ganhou corpo com as notícias fiscais, especialmente a derrubada do veto à desoneração da folha de pagamentos a 17 setores da economia até 2027, ainda que esperada pelo mercado. A Warren Rena diz que derrubada eleva a projeção de déficit primário de 2024, de 0,86% para 0,95% do PIB.

Para o estrategista-chefe da instituição, Sérgio Goldenstein, o mercado acabou reagindo ao acúmulo de notícias fiscais ruins nos últimos dias, que vinham passando batido. “E teve o comentário do Haddad dizendo que vai ser um problema fechar o Orçamento com a desoneração”, disse.

A prorrogação da desoneração no modelo atual, como quer o Congresso, custará mais de R$ 25 bilhões em 2024, uma renúncia que não está prevista no orçamento. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, indicou que o governo deverá acionar o Judiciário, o que pode prejudicar a articulação política num momento em que o Executivo depende muito do Congresso para aprovar a pauta fiscal.

Estadão Conteúdo

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado