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Economia

Escala 5×2 e jornada de 40 horas semanais podem acelerar a automação das empresas do varejo

A automação do varejo acelera por causa do aumento de custos com pessoal e as ferramentas de tecnologias estão ficando mais acessíveis

Redação Jornal de Brasília

19/10/2026 6h30

Foto: Governo do Espírito Santo/Divulgação

Foto: Governo do Espírito Santo/Divulgação

A produção de caixas de autoatendimento (self-checkout) na indústria Laurenti Elgin, em Diadema (SP), está a todo vapor. Dona de 85% do mercado de equipamentos de automação para supermercados, atacados e atacarejos, a empresa dobrou o ritmo de trabalho. Hoje fabrica, em média, 1,6 mil self-checkouts por mês. No ano passado, eram cerca de 800.

Com 3 mil pedidos em carteira, o prazo de entrega dos equipamentos também dobrou: era de 30 dias e agora está em dois meses. “O crescimento é muito grande, tanto que a gente mudou de fábrica”, conta o diretor comercial, Luis Fernando Laurenti.

Até o ano passado, a indústria ocupava uma área de 2 mil metros quadrados. A nova fábrica tem 8 mil metros quadrados, com 260 funcionários, dos quais 89 foram contratados neste ano.

O salto dado pela companhia nos últimos dois anos, que acaba de ser comprada por outra empresa brasileira, a Elgin, reflete a escassez de mão de obra enfrentada pelo varejo, segundo o diretor comercial. “A automação do varejo já vinha acontecendo porque não tinham pessoas interessadas (em trabalhar) nesse tipo de escala”, diz o executivo.

Com a aprovação pelo Senado da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que altera a escala de seis dias de trabalho e um de descanso (6×1) para cinco por dois (5×2) e a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais, sem redução de salário, a perspectiva, segundo Laurenti, é de que o ritmo acelerado da procura pelos equipamentos se mantenha.

A expectativa é de que a automação do varejo se acelere por causa do aumento de custos com pessoal, em um momento em que as ferramentas de tecnologias estão ficando mais acessíveis.

“A automação é sempre uma alternativa à busca pela produtividade”, afirma Eduardo Terra, cofundador do Instituto Retail Think Tank (IRTT). Ele lembra que, 10, 15 anos atrás, era mais difícil os varejistas investirem em automação porque a mão de obra era muito barata no País e a tecnologia, muito cara.

Nos últimos tempos, no entanto, essa conta tem mudado. Tem havido um barateamento da tecnologia e, agora, com a nova PEC de mudança de escala e jornada, o custo do trabalho encareceu. “A pauta da automação já vinha acontecendo, não pelo custo, mas pela dificuldade de se contratar gente. E agora vai acelerar”, prevê Terra.

Redução de custos com uso da automação

Ainda não existem dados comparativos de quanto o avanço do uso da automação no varejo pode compensar o aumento de custos trabalhistas por causa da mudança da escala para 5 x 2 e a redução da jornada para 40 horas semanais.

Mas uma conta rápida, considerando as despesas trabalhistas atuais, antes da mudança da escala e da jornada, dá uma ideia do corte de despesas.

Os cálculos de Laurenti, que além de fabricar também aluga o equipamento, mostram que a redução de custos com a substituição do caixa tradicional pelo self-checkout pode ser de quase 65% para o varejista.

Para chegar a esse número, o empresário considerou uma loja que troca quatro caixas tradicionais por quatro self-checkouts alugados. Considerando a despesa com folha de pagamento, incluindo encargos, o custo por funcionário é de R$ 4 mil. Como cada funcionário trabalha dois turnos no caixa, o custo total é de R$ 32 mil por mês para operar quatro caixas tradicionais.

Se os quatro caixas forem substituídos por quatro self-checkouts, o custo de mão de obra cai para R$ 8 mil, porque para cada quatro self-checkouts é necessário um fiscal trabalhando em dois turnos.

No caso de um equipamento alugado, o custo de locação de cada self-checkout é R$ 850 por mês, somando uma despesa de R$ 3.400 pelos quatro pontos de venda automatizados. Com isso, a despesa mensal por conta da automação – pessoal e equipamento alugado – totaliza R$ 11,4 mil, uma redução de 64,3% ou R$ 20,6 mil a menos em relação ao gasto com os caixas tradicionais. “É uma economia bem significativa”, diz Laurenti.

Caso o varejista opte pela compra, vai desembolsar R$ 20 mil por equipamento. Nesse exemplo, os quatro self-checkouts seriam pagos em quatro meses, só com a economia no gasto com funcionários.

A rede de supermercados Hirota, por exemplo, já vem investindo em self-checkouts para dar conta da escassez de mão de obra. Com 220 lojas, das quais 20 no modelo de supermercados, a varejista emprega 2,3 mil pessoas e tem um déficit de funcionários de 12%. “Já temos self-checkouts e não compramos mais por causa da escala”, afirma o diretor da varejista, Hélio Freddy.

De acordo com o executivo, a automação ajuda, mas não será a solução para o problema. A varejista pretende manter o quadro de funcionários, realocando horários e talvez fechando as lojas mais cedo aos domingos.

De toda forma, a rede está avaliando a possibilidade de usar robôs para tarefas mais pesadas, por exemplo, no abastecimento das lojas, como já ocorre em supermercados chineses, diz o executivo.

Horistas

Já para o presidente da Associação Paulista de Supermercados (Apas), Erlon Ortega, que também opera no dia a dia do setor com a sua rede de supermercados que tem self-checkouts e autoatendimento nas seções de carnes, frios e padaria, por exemplo, a tecnologia reduz muito pouco o uso da mão de obra.

“A tecnologia não tira a contratação da pessoa que vai produzir, da pessoa que vai atender; ela muda apenas de posição”, afirma o presidente da Apas. Ele explica, por exemplo, que na seção de autoatendimento de frios é preciso ter algum funcionário fatiando e embalando o produto.

O uso da tecnologia, na coleta de dados ou na inteligência artificial, por exemplo, deixa os setores mais produtivos e eficientes, com mais acertos. Porém, reduz muito pouco a necessidade de mão de obra nos supermercados, observa.

A saída para se adaptar às novas regras trabalhistas é, na sua opinião, a regulamentação da contratação de trabalhadores por hora, com todos os direitos garantidos na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). “Queremos uma opção de complemento de escala.”

O dado mais recente mostrava que há um déficit de 35 mil postos de trabalho não preenchidos nos supermercados do Estado de São Paulo. Ortega lembra que há 40 milhões de pessoas hoje na informalidade que querem ter flexibilidade e empreender. Com o regime de contratação por hora, ele acredita que seria possível atrair essa mão de obra para completar as escalas de acordo com a nova regra trabalhista.

Pelo fato de ser intensivo em mão de obra e vender produtos perecíveis, o setor de supermercados é um dos mais afetados pela mudança de escala e jornada de trabalho. Nos cálculos do presidente da Apas, as novas regras encarecem entre 15% e 20% a folha de pagamento.

Repasse de custos

Apesar de o aumento do uso da automação ser apontado como uma das alternativas para atenuar os impactos das novas regras trabalhistas para as empresas do varejo, o economista José Pastore, presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da Fecomércio-SP, pondera que, para muitas varejistas, essa pode ser uma alternativa viável e, para outras, talvez não.

Isso porque o uso de tecnologia depende do setor no qual a empresa está, observa o economista. Além disso, tecnologia requer investimentos em equipamentos, que dependem da taxa de juros, que hoje está em níveis elevados.

De toda forma, a saída mais provável a ser usada pelas varejistas, na opinião de Pastore, é repassar o aumento de custos trabalhistas para os preços, porque é a alternativa mais barata para as empresas. “Ela não precisa comprar nada, não precisa inventar nada. A empresa simplesmente aumenta preços e os trabalhadores vão pagar.”

Lyana Bittencourt, CEO do Grupo Bittencourt, consultoria voltada para varejo e franquias, acredita que, diante do cenário atual, a automação passa a ser uma necessidade das empresas do setor, não apenas um desejo.

“A automação é uma oportunidade de buscar alguma eficiência para minimizar o custo ampliado de folha de pagamento”, afirma. Mas a consultora pondera que os resultados serão medidos caso a caso. É que existem alguns negócios que dependem de pessoas para funcionar. “Por mais que automatize, não vai reduzir a necessidade do time em campo.”

A consultora destaca que a automação no varejo é mais aplicável nos supermercados e no segmento alimentar e de moda, com totens de atendimento, por exemplo.

O segmento do varejo que deve enfrentar mais desafios para se adaptar às novas regras trabalhistas é o de shopping centers, que têm horários de abertura das lojas regidos por contratos, ao contrário das lojas de rua, que têm mais autonomia no funcionamento.

Para Francisco Ritondaro, diretor da Gouvea Malls, o ponto chave para os shoppings é a abertura aos domingos, porque aos finais de semana recebem um grande fluxo de pessoas. E os efeitos não serão uniformes entre os varejistas.

“No varejo de alimentação, a automação deve resolver parte do problema e as lojas âncoras, com muitos funcionários, devem conseguir ajustar a escala”, diz o consultor.

No entanto, as lojas pequenas, também conhecidas como satélites, com dois ou três funcionários, se forem seguir a escala de acordo com as novas regras trabalhistas, podem ter um aumento de 25% de custo.

A saída para os lojistas de shoppings, observa o consultor, é negociar com a administração do empreendimento e fazer uma reengenharia das escalas.

“Precisa haver uma negociação, uma flexibilização, para que o segmento como um todo não quebre, porque hoje não está sendo possível repassar aumento de custos para preços”, diz Ritondaro.

Estadão Conteúdo

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