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Economia circular contribui para inovação na indústria

Pesquisa da CNI mostra que 76,5% das indústrias desenvolvem alguma iniciativa de economia circular. Empresas como a ArcelorMittal investem em pesquisa e desenvolvimento para fabricar produtos reutilizáveis

Por Willian Matos 14/04/2021 12h24
Homem usando máscara de proteção trabalha numa usina siderúrgica. 2/3/2020. China Daily via REUTERS

O aço é dos materiais mais usados no mundo e está nos mais diversos lugares – edifícios, infraestrutura, carros e caminhões, equipamentos domésticos, embalagens, entre outros. O Brasil é o 9º maior produtor mundial de aço e, em 2019, foram produzidos 29 milhões de toneladas de aço no país, segundo dados do Instituto Aço Brasil. Isso gerou 18 milhões de toneladas de coprodutos e resíduos dos quais 94% foram reaproveitados no processo produtivo siderúrgico e de outros setores, como o cerâmico. 

O aço é um material nobre e tem índice de reciclagem elevado, em cerca de 85%. Mesmo com tantos atributos que favorecem esse material, o setor é incansável em buscar inovações e novos modelos de negócio que ajudem o aço a ser cada vez mais reutilizável, sem precisar passar diversas vezes pela reciclagem, como consumo de energia e outros insumos.  

O foco do setor está na economia circular, que associa desenvolvimento econômico ao melhor uso de recursos naturais por meio de novas oportunidades de negócios e da otimização na fabricação de produtos. A ideia é depender menos de matéria-prima virgem, priorizando insumos mais duráveis, recicláveis e renováveis. O conceito de economia circular surge como um contraponto ao modelo econômico linear – de extração de matéria-prima, transformação, uso e descarte de resíduos –, que está atingindo seu limite. 

Nos últimos 30 anos, apesar dos avanços tecnológicos e do aumento da produtividade dos processos industriais, que hoje extraem 40% mais valor econômico das matérias-primas, a demanda aumentou 150%. “Isso mostra que não é possível manter o modelo linear no longo prazo, mesmo com maior eficiência no uso de insumos”, avalia Davi Bomtempo, gerente-executivo de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Confederação Nacional da Indústria (CNI)

A nova tendência faz com que as empresas não apenas reduzam custos e perdas produtivas, mas criem novas fontes de receita. Por exemplo, ao comercializar resíduos úteis a outros processos produtivos. A economia circular também contribui para promover o desenvolvimento de novos elos na cadeia produtiva, por meio de práticas como otimização de processos, produto como serviço, compartilhamento, extensão da vida do produto, insumos circulares, recuperação de recursos e virtualização. 

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Modelo de negócios baseado em aluguel de estacas de aço em vez da tradicional venda 

Exemplo de que usou a economia circular para transformar o modelo de negócios é a da multinacional ArcelorMittal, presente em 60 países e com 17 mil trabalhadores no Brasil. Ela inova no modelo de negócios ao alugar estacas pranchas metálicas para atender obras de contenção temporária em substituição a estruturas de concreto, mais difíceis de ser removidas. “Estamos buscando desenvolver cada vez mais produtos de aço, em especial para o setor da construção, que possam ser reutilizadas em diversas obras sem passar novamente pelo processo produtivo”, explica o gerente-geral de Relações Institucionais e Sustentabilidade da ArcelorMittal Brasil, Guilherme Abreu. 

A empresa vende e reusa internamente em torno de 90% dos resíduos gerados na produção. Outra iniciativa são parcerias com indústrias automotiva e de equipamentos domésticos para intensificar a recuperação de produtos em fim de uso e aumentar o uso de sucata como matéria-prima.  

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Outra estratégia de economia circular da ArcelorMittal é o plantio de florestas de eucalipto renováveis. A empresa conta com 135 mil hectares de terra restaurada e usa a madeira do eucalipto plantado para produção de carvão vegetal que é usado como redutor nos altos-fornos da unidade de Juiz de Fora. O Carbono presente no carvão vegetal transforma-se em CO2 nos Altos-Fornos e em seguida é absorvido pelas florestas renováveis, retornando à sua forma original de Carbono, e assim garantindo a circularidade. 

Indústria brasileira defende transição gradual à economia circular 

Uma transição gradual para a economia circular é o ponto central das propostas da CNI ao comitê da norma de economia circular da Organização Internacional de Normalização (ISO, na sigla em inglês), formado por 70 países. A indústria brasileira quer que práticas como recuperação energética de resíduos e eliminação de desperdícios nos processos produtivos sejam considerados na norma internacional para o processo de transição para a economia circular. A previsão é que a norma técnica entre em vigor a partir de 2023. 

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Pesquisa feita pela CNI em 2019 mostra que 76,5% das indústrias desenvolvem alguma iniciativa de economia circular, embora a maior parte não saiba que as ações se enquadram nesse conceito. Entre as principais práticas estão a otimização de processos (56,5%), o uso de insumos circulares (37,1%) e a recuperação de recursos (24,1%). A pesquisa também mostrou que 88,2% dos entrevistados avaliaram a economia circular como importante ou muito importante para a indústria brasileira. E a questão transborda a busca por eficiência.  

Levantamento sobre o perfil dos consumidores brasileiros, também da CNI, mostra que 38% dos entrevistados sempre verificam ou verificam às vezes se os produtos foram produzidos de forma ambientalmente correta. A pesquisa revela que os brasileiros também têm mais consciência sobre o destino do lixo. O número de pessoas que separa o lixo para a reciclagem cresceu de 47%, em 2013, para 55% no ano passado. 

Brasil pode se tornar referência na economia circular 

Centros científicos de excelência, um mercado consumidor gigante e uma base industrial grande e diversificada tornam o Brasil atrativo para a economia circular, modelo que alia desenvolvimento econômico ao melhor uso de recursos naturais por meio de novas oportunidades de negócios e da otimização na fabricação de produtos. 

A multinacional Flex, do setor eletroeletrônico, vislumbrou esse potencial do país e, desde 2013, criou uma nova frente de negócios que existe só no Brasil, voltada à recuperação de resíduos eletrônicos de empresas para as quais fornece.  

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Em 2018, a fábrica de Sorocaba (SP) da Flex ganhou o certificado Zero Waste, por um processo de eliminação de 100% dos resíduos eletrônicos da HP, sua principal cliente. “Foi a primeira fábrica da empresa no mundo que ganhou esse certificado”, comemora Leandro Santos, vice-presidente de Operação da Flex no Brasil. A empresa se especializou na destinação dos mais diversos tipos de resíduos, de metais a papelões e até borracha.  

Santos conta que o tamanho continental do país, aliada à um grande mercado consumidor que atraiu uma diversidade industrial para cá, traz vantagens que permitem uma aprendizagem mais rápida do processo de logística reversa do que em outros países. “O Brasil pode ser líder na economia circular”, aposta Santos. 

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