São Paulo, 15 – Após ensaiar uma queda expressiva pela manhã, o dólar ganhou força ao longo da tarde e encerrou a sessão desta segunda-feira, 15, em leve alta, na contramão do movimento predominante de baixa da moeda norte-americana no exterior. O dia foi marcado pela descompressão dos prêmios de risco geopolítico e pelo tombo das cotações do petróleo, na esteira do anúncio, no fim de semana, de um acordo provisório entre Estados Unidos e Irã, com previsão de reabertura total do Estreito de Ormuz.
Apesar do ambiente favorável para ativos de risco, o real teve o fôlego reduzido na segunda etapa dos negócios, em razão de ajustes intradia e de eventual fluxo de saída da bolsa doméstica
Investidores reduziram posições favoráveis à moeda brasileira montadas com base na tese de melhora dos termos de troca, dado que o Brasil é exportador líquido de petróleo. Não por acaso, outra moeda favorecida pela alta recente da commodity, o peso colombiano também apanhou nesta segunda, com perdas de quase 1%
Com a máxima de R$ 5,0743, em sintonia com a diminuição das perdas da moeda norte-americana lá fora, o dólar à vista fechou cotado a R$ 5,0668, em alta de 0,10%. Na semana passada, recuou 1,86%.
A divisa avança 0,47% no mês, após alta de 1,82% em maio. No ano, o dólar apresenta perda de 7,69% frente ao real, que exibe um dos melhores desempenhos entre as moedas mais líquidas.
O chefe de estratégia de mercados do banco ING, Chris Turner, mantém uma posição “neutra” em relação ao real. Em nota, ele observa que a moeda brasileira sofreu recentemente em meio a um estresse no mercado de juros local. “Além disso, Lula tomando a dianteira nas pesquisas eleitorais parece ter pesado sobre o real”, afirma.
Turner pontua, contudo, que é muito “caro” apostar contra a moeda brasileira, em razão dos juros locais ainda muito elevados Além disso, o status do Brasil como exportador de energia e a perspectiva de aumento do ingresso de divisas pelo setor agrícola, com o El Niño, devem dar sustentação ao real.
As cotações do petróleo encerraram o pregão regular em forte queda, com a perspectiva de reabertura do Estreito de Ormuz a partir da próxima sexta-feira, 19, quando deve ser formalizado o acordo de cessar-fogo por 60 dias entre Estados Unidos e Irã alcançado no fim de semana.
Apesar de analistas apontarem fragilidades no acordo, a cotação do Brent para agosto, referência de preços para a Petrobras, fechou em queda de 4,76%, a US$ 83,17 o barril. No ano, ainda sobem mais de 30%.
A economista Iana Ferrão, do BTG Pactual, observa que o real exibe, ao lado do peso colombiano, o melhor desempenho entre as moedas emergentes em 2026, o que pode ser explicado pelo fato de Brasil e Colômbia serem exportadores líquidos de energia. Ela pontua, contudo, que a volatilidade da moeda brasileira permanece elevada na comparação com seus pares, o que torna a taxa de câmbio mais sujeita a oscilações relevantes no curto prazo.
“A volatilidade corrente, porém, continua relativamente baixa quando comparada à própria história do real, o que ajuda a sustentar estratégias de carry, embora mantenha o risco de movimentos mais amplos em episódios de aversão ao risco”, afirma Ferrão, em relatório.
Referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY rondava os 99,700 pontos por volta das 17h, perto da máxima da sessão, após mínima aos 99,384 pontos pela manhã.
As taxas dos Treasuries de dois e dez anos recuaram, embora de forma modesta. É dado como certo que o Federal Reserve vai manter, na quarta-feira, 17, a taxa básica de juros norte-americana na faixa entre 3,50% e 3,75%. As atenções estão voltadas para o tom da decisão na primeira reunião de política monetária sob o comando de Kevin Warsh, indicado pelo presidente dos EUA, Donald Trump.
Para o diretor da Wagner Investimentos, José Faria Junior, é natural que a perspectiva de reabertura de Ormuz “traga uma onda de otimismo”, ao reduzir os argumentos para uma alta de juros pelo Fed e enfraquecer o DXY, o que beneficia ativos de risco. “Com essa redução do risco global, deveremos ter oportunidade para montar uma estratégia de compra de dólares para atravessar o período de volatilidade eleitoral”, afirma Junior.
Bolsa
O Ibovespa subiu mais de 1,8% na manhã desta segunda-feira, diante da euforia generalizada por risco com o acordo preliminar entre Estados Unidos e Irã. Contudo, na segunda etapa do pregão, o apetite maior do investidor estrangeiro por ações de tecnologia – ilustrado na alta superior a 3% do Nasdaq – tirou o fluxo da Bolsa brasileira, que já tinha performance limitada pela queda expressiva das ações relacionadas ao petróleo e com peso, ainda, de desconforto com a agenda fiscal em meio às eleições.
Após máxima aos 174.228,27 (+1,81%) pela manhã e mínima aos 170 351,05 (-0,46%) à tarde, o Ibovespa fechou em baixa de 0,42%, aos 170.415,13. Entre as blue chips, Petrobras cedeu 5,30% (ON) e 5,15% (PN), na mínima, e os grandes bancos tiveram queda inferior a 1%, enquanto Vale subiu 2,5%. O giro financeiro somou R$ 29,21 bilhões.
Os Estados Unidos já assinaram eletronicamente o acordo preliminar firmado com o Irã para suspender as hostilidades no Oriente Médio por 60 dias, informou um alto funcionário americano à agência Reuters. A expectativa é de que o Estreito de Ormuz tenha reabertura nesta sexta-feira, 19, o que respaldou a queda de 4,76% no preço do Brent, a US$ 83,17 por barril.
Para o economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, Bruno Perri, a assinatura do acordo é positiva para a economia brasileira no que tange a inflação e, na esteira, a política monetária. Contudo, ressalta que a euforia no Ibovespa pela manhã se perdeu ao longo do dia, visto que os investidores estrangeiros voltaram a dar mais ênfase a ações de tecnologia e Inteligência Artificial (IA) do que a países emergentes. “Vemos Petrobras caindo forte com petróleo, mas outros setores também passando a ceder”, comenta.
A saída de capital estrangeiro está forte principalmente pelo maior apetite com EUA e tecnologia, comenta o head de renda variável da Faz Capital, Alexandre Pletes. “SpaceX puxou muito fluxo no IPO na última semana, e isso traz reflexo para as Bolsa globais. Hoje, apesar da queda dos juros, a Petrobras corrige forte e os bancos não andaram.”
Na mesma linha, o especialista Pedro Henrique Carneiro Gonçalves, da Valor Investimentos, nota que o Brasil, por ser exportador relevante de petróleo, acaba sendo penalizado nos termos de troca com a queda da commodity. Como resultado, “impacta diretamente as empresas de grande peso no índice”, afirma, acrescentando que, apesar do otimismo inicial, o mercado ainda segue atento aos detalhes do acordo que só será formalmente assinado na sexta-feira.
Perri, da Forum Investimentos, destaca, ainda, a pesquisa BTG Pactual/Nexus como um ponto de atenção do mercado financeiro, com indicação de que a “política fiscal seguirá temerária, altamente inflacionária e que deve prejudicar a curva de juros à frente”. Hoje, contudo, a curva cedeu.
O levantamento a que o economista se refere mostrou que a aprovação do governo Lula superou a desaprovação pela primeira vez em quatro meses, e mostrou ainda que o petista venceria Flávio Bolsonaro (PL), Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão) em eventual segundo turno.
O economista sênior global da Oxford Economics, Felipe Camargo, afirmou em entrevista ao Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) que o quadro fiscal do Brasil não permite que o investidor estrangeiro faça um investimento estrutural de longo prazo no País.
O cenário-base da consultoria é de uma reeleição de Lula, o que no economista não considera muito positivo, dado que a manutenção do arcabouço atual prevê estabilização da dívida pública, na melhor das hipóteses, apenas depois de 2030.
Juros
Os juros futuros fecharam a segunda-feira, 15, em baixa, respondendo ao apetite ao risco ao risco no exterior, por sua vez, estimulado pelo acordo entre Estados Unidos e Irã. Ao encaminhar o conflito no Oriente Médio para uma solução, o acerto abriu espaço para o tombo de quase 5% nos preços do petróleo, reduzindo o desconforto com o cenário inflacionário e, com isso, elevando as chances de corte da Selic no Copom da quarta-feira, 17.
No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027, que capta as apostas para as reuniões do Copom em 2026, projetava 14,240%, de 14,351% no ajuste de sexta-feira. O DI para janeiro de 2028 tinha taxa de 14,355%, de 14,512% no ajuste anterior, e o DI para janeiro de 2029, taxa de 14,330% (14,449% na sexta-feira). Na ponta longa, a taxa do DI para janeiro de 2031 cedia de 14,329% para 14,240%.
No fechamento de sexta-feira, o mercado já trabalhava com a possibilidade de anúncio do acordo no fim de semana, o que acabou se concretizando. Ainda assim, houve espaço para as taxas continuarem cedendo, com mínimas ainda na primeira parte dos negócios, deixando a piora das medianas de IPCA na pesquisa Focus em segundo plano.
O barril do tipo Brent, referência para a Petrobras, caiu 4,76%, à US$ 83,17, dada a percepção de que o acordo preliminar, que segundo o governo americano, já foi assinando eletronicamente, tende a normalizar, ainda que gradualmente o fluxo no Estreito de Ormuz, por onde trafega cerca de 20% do petróleo negociado no mundo.
A pressão da commodity no preço de combustíveis tem sido o tormento dos cenários prospectivos para a inflação, e nesse sentido, o acordo pode contribuir para mais cortes da Selic e postergar uma alta de juros pelo Federal Reserve.
André Muller, economista-chefe da AZ Quest, afirma que o acordo “sem dúvida” contribui para a redução global dos prêmios de risco, embora o foco do mercado seja o Copom. O economista diz que os preços de mercado seguem apontando chance majoritária de queda de 25 pontos-base para quarta-feira, mas também mantêm indicação de aperto para o segundo semestre, classificada pelo economista “mais como prêmio de risco do que qualquer outra coisa”. Segundo Muller, a precificação no meio da tarde era de taxa a 14,54% no fim de 2026.
O economista-chefe da Lev Investimentos, Jason Vieira, disse que o fechamento da curva é realmente um ajuste “aos eventos no Oriente Médio, ainda que parte do mercado esperasse um dólar mais fraco, o que acabou não acontecendo”, mas não altera a expectativa para o Copom, que para ele “sempre” foi de corte de 25 pontos na Selic. “Uma vez concretizado, o acordo ajuda os vértices mais longos da curva”, afirma.
Em partes, afirma, o acordo deve ajudar o Copom a justificar uma nova redução da Selic em comparação a uma semana atrás. “Era mais complicado justificar o corte”, avalia o economista.
Para André Muller, o Copom deve reduzir a Selic para 14,25%, mas sem colocar forward guidance. “Me parece que vão ser conservadores nessa decisão de cortar, e sem dar indicação para o próximo passo. Nesse momento, não temos tanto espaço para redução adicional da Selic”, justifica. No Boletim Focus, as medianas de inflação e juros subiram, mas com impacto marginal na curva. “As inflações implícitas já estão precificando isso há algumas semanas”, explica.
A inflação suavizada de IPCA nos próximos 12 meses subiu de 4,04% para 4,11%. A de 2026 saltou de 5,11% para 5,30%, e a de 2027, de 4,03% para 4,10%, ambas ainda mais distantes do teto da meta de inflação de 4,5%. A estimativa para Selic no fim de 2026 avançou de 13,50% para 13,75%.
Estadão Conteúdo