FOLHAPRESS
O dólar está em leve alta nesta terça-feira (30), com dados de emprego dos Estados Unidos em foco.
Mercado monitora relatórios de olho na trajetória dos juros norte-americanos. No Brasil, a formação da Ptax de fim de mês traz mais volatilidade ao câmbio.
Calculada pelo Banco Central com base nas cotações do mercado à vista, a Ptax é uma taxa que serve de referência para a liquidação de contratos futuros e é estabelecida no último dia útil do mês. Nas janelas de coleta, investidores tendem a direcioná-la a níveis mais convenientes às suas posições, sejam elas compradas (no sentido de alta das cotações) ou vendidas em dólar (no sentido de baixa), afetando as cotações.
Às 11h49, a moeda norte-americana subia 0,11%, cotada a R$ 5,178. Já a Bolsa tinha forte queda de 1,02%, a 171.422 pontos, afetada pela saída de recursos estrangeiros do país.
Dados de emprego dos Estados Unidos medidos pelo Jolts (pesquisa de vagas de emprego e rotatividade de trabalho) norteiam as decisões de investimento desta terça.
As vagas de emprego em aberto aumentaram em maio, enquanto as contratações permaneceram fracas, sugerindo que o mercado de trabalho permanece em um patamar estável apesar de três meses consecutivos de forte crescimento no número de vagas.
O aumento foi de 9 mil, chegando a 7,594 milhões no último dia de maio. O relatório oficial de emprego dos EUA para junho será divulgado na quinta-feira (2).
As divulgações ajudam a calibrar as expectativas para a trajetória dos juros dos Estados Unidos: o Fed (Federal Reserve, o banco central norte-americano) baliza as decisões de política monetária a partir de dados de emprego e de inflação. O objetivo é atingir a máxima empregabilidade e convergir o índice inflacionário de referência, o PCE, para a meta de 2% ao ano.
“Um mercado de trabalho aquecido incentiva que os preços ao consumidor fiquem mais altos, o que pode levar o Fed a manter os juros mais altos por mais tempo para controlar essa pressão”, afirma Ian Lopes, economista da Valor Investimentos.
O foco dos investidores voltou a ser a política monetária dos Estados Unidos após a última decisão do Fed, a primeira com Kevin Warsh à frente do banco central.
Ainda que os juros tenham sido mantidos na faixa de 3,5% e 3,75% ao ano, como amplamente esperado, o mercado interpretou a comunicação dos dirigentes e as expectativas deles para o próximo semestre como “hawkish”, isto é, agressiva no combate à inflação.
Segundo o “gráfico de pontos”, um repositório de expectativas dos diretores sobre a trajetória dos juros, 9 entre os 19 membros do Fomc (Comitê Federal de Mercado Aberto) agora preveem pelo menos uma alta de 0,25 ponto percentual na taxa neste ano -destes, 6 esperam ao menos duas elevações. Nenhum deles compartilhava dessa opinião há três meses, quando o BC dos EUA publicou suas últimas projeções.
Outros 9 não projetam nenhuma mudança ou corte, e Warsh se absteve de fazer projeções.
A declaração marca uma virada não apenas na liderança do banco, mas em uma perspectiva de política monetária que desde 2024 estava orientada para reduzir os custos de empréstimos das taxas elevadas usadas para ajudar a domar a inflação.
No comunicado sobre a decisão, o Fomc voltou a defender que pretende “garantir a estabilidade de preços” e “manter reservas amplas no sistema bancário”. O comitê alertou para o momento de “elevada incerteza” causada “em parte pelo conflito no Oriente Médio”.
“O mercado buscava sinais de uma postura mais favorável a cortes, mas Warsh estreou reforçando o compromisso com a inflação e com a credibilidade do Fed. No fim, mais do que a decisão em si, a mensagem mexeu com as expectativas para os próximos meses”, diz Cleiton Souza, sócio-fundador da Private Investimentos.
Agora, segundo dados da ferramenta CME Fed Watch, mais de 80% dos operadores esperam que o Fed suba a taxa de juros no encontro de setembro.
Juros mais altos nos Estados Unidos são uma má notícia para investimentos em todo o mundo. Quanto maior a taxa, pior para ativos emergentes, já que a renda fixa norte-americana é considerada um investimento praticamente livre de risco e, com os Fed Funds em alta, exibe retorno atrativo.
O dólar exibe alta globalmente, com o índice DXY, que o compara a uma cesta de seis moedas fortes, com ganhos de 0,1%, a 101,23 pontos.
De pano de fundo, o mercado ainda monitora o andamento das negociações entre Estados Unidos e Irã, que tentam sustentar uma trégua ainda frágil no Oriente Médio.
Equipes de negociação dos dois países deveriam chegar a Doha nesta semana, mas o Irã informou na segunda-feira que nenhuma reunião entre as partes havia sido agendada.
O final de semana foi marcado por ataques mútuos entre Teerã e Washington, apesar do memorando de entendimento assinado em 17 de junho. A escalada militar foi freada ainda no domingo, quando uma autoridade norte-americana afirmou que os dois países haviam concordado em suspender as hostilidades e retomar as negociações.
O petróleo Brent rondava a estabilidade nesta sessão, em leve ganho de 0,15%, a US$ 74 o barril.
No Brasil, a Ptax afeta o câmbio. Em função da disputa entre agentes financeiros para direcionar a taxa a níveis mais convenientes a suas posições, é comum haver maior volatilidade na primeira metade da sessão, em especial nos horários próximos às janelas de coleta de valores pelo BC, às 10h, 11h, 12h e 13h.
Na Bolsa, o Ibovespa segue sendo penalizado pela saída de estrangeiros do país. Dados da B3 registram um saldo negativo de R$ 8,75 bilhões no mês até o dia 26 (excluindo IPOs e follow-ons), embora, no ano, o resultado ainda esteja positivo em R$ 32,88 bilhões.
De acordo com estrategistas, a reversão no fluxo de estrangeiros desde meados de abril está relacionada a mudanças nas expectativas relacionadas a taxas de juros, bem como rotação de capital de volta para ações de tecnologia nos EUA e na Ásia.
A agenda do dia no Brasil ainda inclui dados mostrando que a dívida bruta do país como proporção do PIB fechou maio em 81,1%, contra 80,2% no mês anterior. Já a dívida líquida do setor público foi a 67,9%, de 67,2%.