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Polícia Civil mata mecânico e morador de rua em blitz na zona leste de São Paulo

O mecânico Guilherme Tibério Lima, 25 anos, havia ido buscar uma receita médica ao ser baleado e morto

Por FolhaPress 26/11/2021 1h16
Foto: Reprodução

Paulo Eduardo Dias
São Paulo, SP

A ação de policiais civis na tentativa de capturar suspeitos de terem roubado um outro policial terminou na morte de um mecânico e de um morador de rua, que nada tinham a ver com o crime anterior. As mortes ocorreram na madrugada desta quinta-feira (25), na região de Cidade A.E. Carvalho (zona leste da capital paulista). O mecânico Guilherme Tibério Lima, 25 anos, havia ido buscar uma receita médica ao ser baleado e morto.

Em nota, a SSP (Secretaria da Segurança Pública) disse que o “caso foi registrado pelo DHPP e é investigado pela Corregedoria da Polícia Civil, que atua para o devido esclarecimento dos fatos”. Segundo o boletim de ocorrência elaborado pelo DHHP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa), por volta das 2h policiais civis lotados no 24° DP (Água Rasa) montaram um bloqueio no cruzamento entre as ruas Subragi e Terra Brasileira, na tentativa de capturar os responsáveis por assaltar um policial que trabalha no 4° DP de Guarulhos (Grande SP).

Primeiro, segundo o documento policial, os agentes abordaram um motociclista. Enquanto verificavam sua documentação, um Honda Civic prata, que era dirigido pelo mecânico, passava pelo local. O jovem estava acompanhado de um estudante de 18 anos. Ambos aparecem no boletim de ocorrência como negros.

Ainda de acordo com o relato do chefe dos investigadores do 24° DP, responsável por narrar a versão dos policiais, eles teriam emitido o sinal de parada para o condutor, sem especificar quais os movimentos realizados. No entanto, conforme sustentado pelo policial, Lima teria acelerado e avançado com o veículo contra eles. Os policiais civis alegaram ter visto que o mecânico conduzia o automóvel com uma arma em uma das mãos. Foi nesse momento que os policiais atiraram em direção ao motorista, sob justificativa dada no DHPP de “salvaguardar suas vidas e repelir a injusta agressão que estavam sofrendo”.

Conforme a versão do chefe dos investigadores, ao menos quatro policiais lotados no 24° DP confirmaram ter atirado. A reportagem não localizou a defesa dos agentes. Ao ser atingido, Lima perdeu a direção do Honda e o veículo acabou por se chocar no muro de um condomínio residencial. Após o impacto, o passageiro disse que saiu do automóvel com os braços erguidos. Abordado pelos mesmos policiais, nada de irregular foi encontrado com ele, que foi atingido de raspão por um dos disparos e socorrido até a AMA Sé (região central de SP).

O mecânico, atingido por um único tiro na região dorsal direita, morreu no banco do motorista. Durante análise da área, os policiais notaram que os tiros acertaram um homem que estaria em situação de vulnerabilidade, “encontrado em local ermo e sem luminosidade”. Baleado na cabeça, ele foi socorrido ao hospital Santa Marcelina (zona leste), mas morreu. Familiares o identificaram posteriormente como sendo José Domingos dos Santos.

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Uma quarta pessoa também ficou ferida pelos disparos. Um ajudante de cozinha de 43 anos estava em um ponto de ônibus quando foi atingido no braço. Ele foi socorrido ao hospital Ermelino Matarazzo (zona leste), onde passou por cirurgia. Segundo o boletim de ocorrência, durante os trabalhos da perícia foi encontrada na mão de Guilherme uma pistola falsa.

Em depoimento, o passageiro sustentou que pediu uma carona para Lima, e que o jovem havia ido buscar uma receita médica. O passageiro afirmou, segundo o boletim de ocorrência, “que ao adentrar na rua Terra Brasileira avistou uma luz forte, que fechou os seus olhos. Segundo ele, o motorista acelerou, mas foi possível ver quando um homem que estava na via pulou para o lado para não ser atingido”. Logo na sequência, ele disse que ouviu os estampidos e se abaixou.

Questionado se havia visto alguma arma em posse do mecânico, o jovem alegou “não ter observado nada em posse de Lima”. À reportagem o advogado da família de Lima, o criminalista Adriano Dantas, disse que considera uma “ação desastrosa” a operação dos policiais civis, visto o número de mortos e feridos. Ele apontou que os agentes não usam nenhuma vestimenta característica de policiais e que as viaturas estavam escondidas em uma rua lateral.
Ele também confirmou que Lima havia ido buscar uma receita médica na casa do jovem que estava com ele e retornaria para o hospital, onde seus familiares o aguardavam.

“Creio que como não viu identificação nenhuma, eles estavam sem viatura, a viatura estava numa rua lateral escondida, ele imaginou que seriam ladrões, pegou e, acelerou”, disse o advogado. Dantas afirmou que vai pedir acompanhamento pela Corregedoria e do Ministério Público, para poder dar uma resposta para a família. O delegado Daurita Martins Donaire, que atua no 64° DP (Cidade A.E. Carvalho), determinou a apreensão das armas utilizadas pelos policiais, além de ter acionado a Corregedoria da Polícia Civil.

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