BRUNO MAGNO
BELÉM, PA (FOLHAPRESS)
Garrafas PET, embalagens e outros resíduos plásticos retirados de rios amazônicos ganharam um novo destino em Belém. O material se transformou em brita, utilizada na fabricação de componentes para a construção civil.
A tecnologia desenvolvida no Pará dialoga com um estudo publicado em 2025 na revista científica Ambio, que analisou a poluição plástica na amazônia e apontou a economia circular como uma das estratégias para enfrentá-la.
O método foi desenvolvido pela startup FlexStone em parceria com pesquisadores da UFPA (Universidade Federal do Pará) e usa o lixo plástico recolhido pelo projeto Promares.
Coordenador do projeto no estado, Neyson Mendonça, pesquisador do programa de pós-graduação em engenharia sanitária e ambiental da UFPA, afirma que o processo faz com que um passivo ambiental vire matéria-prima de alto valor agregado.
“A tecnologia gera novas oportunidades de trabalho e renda para cooperativas de reciclagem, promove inclusão social e contribui para uma cadeia produtiva mais sustentável na amazônia”, disse.
O projeto está em execução há pouco mais de oito meses. “A expectativa é que, com a consolidação das pesquisas, a evolução do marco regulatório e o fortalecimento das parcerias entre universidades, startups, cooperativas, empresas e órgãos públicos, essa tecnologia possa ser incorporada em larga escala na construção civil”, afirmou Mendonça.
Segundo o CEO da FlexStone, Rodrigo Hühn, o diferencial do processo é a capacidade de aproveitar praticamente qualquer tipo de plástico, sem separação por cor ou composição, e sem consumo de água.
“Transformamos um resíduo que iria parar em aterros ou se degradar em microplásticos em um agregado para a construção civil”, ressalta.
A brita ecológica já é utilizada em bancos de praça, floreiras e lixeiras instaladas em canais revitalizados pela prefeitura, como o canal da travessa Quintino Bocaiúva.
Entregue em março deste ano, a obra era uma das iniciativas associadas à COP30, cúpula das Nações Unidas sobre mudança climática, que aconteceu em novembro da capital paraense. Resíduos plásticos da conferência, aliás, estão entre os materiais usados na confecção da brita ecológica.
A expectativa, agora, é levar essa tecnologia para diferentes regiões da amazônia.
“A ideia é fazer a transformação desse material no próprio território”, disse Hühn. “Hoje temos uma linha de produção que processa, em média, cinco toneladas de plástico por mês.”
A tecnologia também deu origem a um protótipo de moradia sustentável no Parque de Ciência e Tecnologia Guamá. Construída com tijolos produzidos a partir da brita ecológica, a casa incorporou o equivalente a cerca de 300 mil garrafas PET.
“Outro diferencial é o conforto térmico proporcionado pelo material. A casa esquenta muito menos que uma construção convencional. É uma solução que nasce na amazônia”, afirma o CEO.
ALIANÇA CONTRA A POLUIÇÃO
Além da UFPA, o Promares reúne pesquisadores de outras 12 universidades brasileiras e da Universidade Técnica de Braunschweig, na Alemanha, responsável pela coordenação do projeto. Pará, Maranhão, Bahia e Rio de Janeiro foram definidos como áreas-piloto para o desenvolvimento e a validação de soluções que poderão ser adotadas em outras regiões do país.
Para a pesquisadora Christiane Pereira, coordenadora-geral do projeto, o principal diferencial da iniciativa é reunir universidades brasileiras e instituições internacionais para desenvolver soluções adaptadas à realidade amazônica.
“Isso permite desenvolver tecnologias para transformar o plástico em recurso secundário, fortalecer a economia circular e promover a inclusão produtiva de cooperativas, povos indígenas, ribeirinhos e outras comunidades, ao mesmo tempo em que gera informações para orientar políticas públicas de combate à poluição por plásticos”, afirmou.