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Brasil

Oito anos após lei pioneira, estados ainda enfrentam desafios de vacinar dentro da escola

As experiências mostram, porém, que legislações sozinhas não garantem melhores coberturas vacinais

Redação Jornal de Brasília

21/06/2026 10h45

7.7. vacinação. foto geovana albuquerque agência saúde

Foto: Arquivo/Agência Brasília

CLÁUDIA COLLUCCI
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – Pioneiro na criação de uma lei estadual, em 2018, que passou a exigir a apresentação da carteira de vacinação atualizada para matrícula e rematrícula de estudantes das redes pública e privada, o Paraná inspirou outros estados a seguirem o mesmo caminho. As experiências mostram, porém, que legislações sozinhas não garantem melhores coberturas vacinais.

Ao menos 16 estados possuem legislações ou diretrizes relacionadas à exigência da atualização vacinal no ambiente escolar. Em geral, a falta de vacinação não impede a matrícula ou a rematrícula, mas, nesses casos, o Conselho Tutelar e/ou o Ministério Público devem ser acionados.

Transformar a escola em uma aliada da imunização busca enfrentar uma barreira conhecida pelas equipes de saúde: crianças mais velhas e, principalmente, adolescentes estão menos presentes nas salas de vacina.

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar de 2024 mostram que pouco mais de 50% dos adolescentes tinham tido contato com algum serviço de saúde nos 12 meses anteriores ao estudo.
Mas colocar a estratégia em prática exige mais do que normas. “Mesmo tendo uma lei pioneira no país, houve muitas resistências. A parceria entre a Secretaria de Estado da Saúde e a Secretaria de Estado da Educação foi fundamental para superar esses obstáculos”, conta Virginia Dobrowski dos Santos, coordenadora estadual de imunização da Secretaria da Saúde do Paraná.

A experiência foi uma das premiadas em uma mostra realizada pelo Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde) na semana passada em Brasília.

Segundo Virginia, a construção dessa parceria exigiu diálogo constante para mostrar que a vacinação também é responsabilidade da comunidade escolar. “Não foi fácil chegar até aqui. Tivemos professores dizendo que não era competência deles trabalhar a questão da vacinação.”

Outro desafio é a autorização das famílias para a aplicação das doses no ambiente escolar. No Paraná, a vacinação depende de autorização escrita dos responsáveis, e algumas famílias ainda demonstram receio em relação a eventos adversos.

Para aumentar a confiança, alguns municípios passaram a permitir que pais acompanhem a vacinação nas escolas, especialmente de crianças menores, além de investir em comunicação positiva sobre os benefícios das vacinas.

Um desafio adicional é aprimorar o registro das doses aplicadas. O Paraná ainda enfrenta dificuldades porque parte dos municípios utiliza sistemas próprios de informação, o que pode atrasar ou dificultar a consolidação dos dados estaduais.

Para Ana Catarina de Mello Araújo, coordenadora-geral de Incorporação Científica e Imunizações do PNI (Programa Nacional de Imunizações), esse desafio não é exclusivo do Paraná. Segundo ela, a vacinação nas escolas sempre existiu no país, mas durante muito tempo não era identificada pelos sistemas oficiais.

A partir de 2024, o sistema de informação do Ministério da Saúde passou a registrar se a dose foi aplicada em rotina, em intensificação ou dentro do ambiente escolar. A mudança permitiu dimensionar uma prática que antes ficava invisível.

Segundo Ana Catarina, em 2025 mais de 4.000 municípios brasileiros registraram ações de vacinação nas escolas –o equivalente a mais de 80% dos municípios do país. “Agora temos um dado palpável de uma estratégia que sempre vinha sendo feita, mas que a gente não conseguia visualizar.” Para ela, a escola é especialmente importante para alcançar adolescentes.

No Paraná, o principal impacto apareceu justamente nessa faixa etária. A vacinação escolar contribuiu para ampliar a cobertura contra HPV e meningite, imunizantes historicamente mais difíceis de alcançar entre adolescentes. “Na adolescência, muitas vezes o jovem não procura mais a sala de vacina. Então precisamos fazer o resgate dessa população”, explica Virginia.

Em 2024, o Paraná alcançou as melhores coberturas vacinais da década, incluindo a maior cobertura contra HPV entre os estados brasileiros. Em 2025, atingiu a meta do Ministério da Saúde para meninos e meninas, com 91,5% e 98,9%, respectivamente.

A estratégia também ajudou na recuperação de vacinas da infância, como pentavalente e poliomielite, após a queda observada no país a partir de 2016 e agravada durante a pandemia de Covid-19. Ambas ficaram com cobertura acima de 93%. Para Virginia, a vacinação nas escolas foi um divisor de águas no processo de retomada.

Em relação à vacina contra o HPV, porém, foi preciso enfrentar barreiras culturais e de informação. Maria Goretti da Vila Lopes, diretora de Atenção e Vigilância em Saúde da Secretaria de Estado da Saúde do Paraná, lembra que houve resistência inicial de alguns pais, especialmente pela associação equivocada entre a vacina e o início da vida sexual dos adolescentes.

“Muitos pais pensavam que vacinar contra o HPV significava admitir que os filhos estavam iniciando a vida sexual. Era uma dificuldade maior em relação às meninas”, afirma. Com o tempo, segundo as gestoras, a comunicação mudou o foco para a prevenção do câncer.

“Precisamos mostrar que é uma vacina que previne câncer e que quanto mais cedo a criança for vacinada, maior será a proteção. Depois do início da atividade sexual, a capacidade de prevenção é menor”, diz. A vacina contra o HPV está disponível no SUS desde 2014 e passou a incluir os meninos a partir de 2017. A adesão desse público, porém, permaneceu menor.

No Espírito Santo, o enfrentamento desse problema começou em 2018, quando o estado começou a acompanhar mais sistematicamente esse indicador. Naquele ano, a cobertura era de 54% entre meninas e de 48% entre meninos.

A iniciativa, também premiada pelo Conass, envolveu uma parceria entre o Programa Estadual de Imunizações, a atenção primária, as secretarias de Educação e Saúde, os municípios, as escolas e a área de comunicação. Os resultados apareceram de forma progressiva.

Entre os meninos, grupo historicamente mais resistente à vacinação, a cobertura saltou de 48% em 2018 para quase 95% em 2025.

“A vacinação não é responsabilidade exclusiva da saúde. A escola amplia o acesso ao público-alvo, e a articulação intersetorial produz resultados sustentáveis”, diz Danielle Grillo Lyra, coordenadora de imunização do Espirito Santo.

Ana Catarina, do PNI, reforça que a articulação com a educação permanece como um dos principais desafios. A entrada das equipes de saúde nas escolas exige negociação sobre horários, logística e organização da rotina escolar. “Às vezes, o melhor tempo da escola não é o melhor tempo da equipe do município. Essas articulações têm um tempo para serem feitas”, afirma.

Para fortalecer a estratégia, o Ministério da Saúde passou a oferecer apoio financeiro aos municípios para ações de vacinação. Desde 2023 há repasses para custear iniciativas como vacinação nas escolas, campanhas e busca ativa. “É preciso pensar em hora extra do trabalhador, material e toda a estrutura necessária.”

A jornalista viajou a convite do Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde).

O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.

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