Cinquenta mil pessoas são esperadas para a quinta edição da Marcha da Consciência Negra, online que deverá sair às 15h do Museu de Arte de São Paulo (Masp), na Avenida Paulista, rumo à Praça Ramos de Azevedo, no centro da capital paulista. A expectativa é da historiadora e mestre em sociologia e política da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Gevanilda Santos, que faz parte da Coordenação Nacional de Entidades Negras (Conen).
Com o tema Os 120 Anos da Abolição da Escravatura Inacabada, a manifestação é um dos diversos atos programados para esta quinta-feira na cidade em defesa da promoção social da população afrodescendente e do fim do racismo no país. Hoje é feriado na capital paulista e em outras 21 cidades do estado, em homenagem a Zumbi dos Palmares, símbolo da luta dos afrodescendentes.
A historiadora poderou que, juridicamente, a abolição pressupõe o fim do trabalho escravo e a instituição do direito à cidadania e de acesso dos negros às melhores condições de desenvolvimento na sociedade, mas que, na realidade, “não é exatamente isso que ocorre porque o IDH [Índice de Desenvolvimento Humano] entre a população negra é duas vezes menor do que entre os não-negros”.
A especialista lembra que “ainda existem muitas desigualdades e falta de acesso [dos negros] aos melhores postos de trabalho, à edução e a outras formas de desenvolvimento”. Segundo ela, em todo o país existem hoje entre 2 mil e 4 mil pessoas vivendo em quilombolas com dificuldades de acesso aos meios para se atingir padrões ideais de desenvolvimento humano. Gevanilda reconhece, no entanto, que durante o governo anterior e na gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, as políticas públicas “diminuíram as diferenças entre negros e brancos, permitindo uma melhora no padrão de vida”.
De acordo com a historiadora, entre 2003 e 2004 a situação de miserabilidade entre os mais pobres caiu em quase 10%, tanto para negros quanto para brancos. Essa redução, destaca, contribuiu para tirar também os afrodescendentes dessa condição.
A historiadora disse ainda que tem a expectativa de ver inserido nos currículos de toda a rede de ensino fundamental e médio o ensino da história e cultura afro-brasileiras, como determina a Lei nº 10.639 de 2003. Segundo a especialista, “por falta de professores com formação específica”, nem todas as escolas cumprem a lei.
Ela critica a falta de reconhecimento de manifestações da cultura afro como a capoeira, “que não entra para a categoria esportiva legalmente constituída e nem participa das Olimpíadas”. A historiadora lembra que a capoeira surgiu como uma “manifestação de defesa”, por meio da qual a população escravizada contestava a opressão.
Gevanilda também chama a atenção para o preconceito que muitas pessoas ainda enfrentam para preservar a religião de matriz africana, como os seguidores da umbanda ou do candomblé. Segundo ela, por esse motivo, a Marcha da Consciência Negra também pretende ser um instrumento contra a “intolerância religiosa”.
Na capital paulista, os eventos comemorativos ao Dia da Consciência Negra ocorrem desde cedo. A programação inclui apresentação de congadas e de shows musicais, na Praça da Sé, e de documentários, no Masp. No mesmo local, também será realizada a primeira Bienal do Livro Afro.