ANDRÉ FLEURY MORAES
FOLHAPRESS
O juiz Antônio Carlos Costa Pessoa Martins, da 1ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores da Capital, condenou quatro pessoas acusadas de integrar um esquema de tráfico de armas e munições no entorno da antiga cracolândia, região central da cidade de São Paulo.
Entre os condenados estão um ex-agente da GCM (Guarda Civil Metropolitana) e um guarda-civil da ativa. Um terceiro membro da corporação, também denunciado, foi absolvido por falta de provas.
A sentença que saiu na quarta-feira (1º) vem no âmbito de uma ação penal oriunda da operação Salus et Dignitas, deflagrada em agosto de 2024 pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), do Ministério Público de São Paulo.
As investigações miraram na época um ecossistema de crimes na região central da capital sob controle territorial do PCC (Primeiro Comando da Capital).
As penas vão de 11 a 16 anos de prisão, além do pagamento de multa e da perda do cargo público.
A maior punição foi aplicada ao ex-GCM Rubens Alexandre Bezerra, condenado a 16 anos, cinco meses e cinco dias de prisão pelos crimes de tráfico de armas e organização criminosa armada. Ele foi demitido da GCM em 2019 em exoneração “a bem do serviço público”.
Segundo as investigações, Bezerra negociava armas curtas e longas, automáticas e semiautomáticas e fuzis de assalto. Detalhes do comércio clandestino foram encontrados quando da apreensão de seu aparelho celular, em 2023, durante uma operação sobre o comércio ilegal de peças automotivas.
Em áudios interceptados pelo Gaeco, o ex-GCM reclamava da baixa oferta de armas e relatava ter sido repreendido por colegas ao “pegar um cano” (arma) no ponto de entrega da campanha do desarmamento indício, para os promotores, de que o grupo desviava armamento recolhido nessas ações.
O advogado Valter Lins Iscol, que defende Bezerra, disse à Folha que a sentença “está dissociada do conjunto fático-probatório amealhado aos autos no andar da investigação” e que a denúncia se baseia “exclusivamente em prints de conversa de WhatsApp, sem laudo pericial ou qualquer documento idôneo que aponte a propriedade ou titularidade das linhas telefônicas”.
Ainda segundo o advogado, a defesa já prepara um recurso para o Tribunal de Justiça para reverter a condenação. “Nada de ilegal restou evidenciado durante a instrução de julgamento”, afirmou.
Guarda-civil da ativa, Elias Silvestre da Silva foi condenado a 11 anos e um mês de prisão pelos mesmos crimes. As investigações dizem que Silva foi braço direito de Bezerra no esquema entre 2019 e 2023 e desviava armas recebidas pela própria GCM durante campanhas de desarmamento.
A Folha de S.Paulo não conseguiu contato com o advogado Edivanio Gonçalves da Costa, que o representa no caso. O telefone registrado em seu cadastro da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) consta como incorreto.
A Secretaria Municipal de Segurança Urbana da gestão Ricardo Nunes (MDB) afirmou em nota que Elias é alvo de um processo administrativo prestes a ser concluído “com proposta de demissão em curso”.
A pasta declarou ainda que “não compactua com desvio de conduta por parte de seus agentes e adota todas as medidas cabíveis sempre que constatadas irregularidades”.
Também responde ao processo administrativo na GCM o guarda-civil Ednaldo de Almeida Passos, que foi absolvido por falta de provas.
A defesa dele, representada pelos advogados Leonardo Vicente dos Santos e José Weliton Setubal, disse em nota que “a trajetória funcional do sr. Ednaldo sempre foi pautada pela probidade, sem qualquer mácula disciplinar ao longo de mais de duas décadas de carreira”.
Outros dois condenados são Odair José Gonçalves, que segundo a acusação comprava armas de Bezerra, e Edno Sousa da Silva, com quem o ex-GCM negociava pistolas e fuzis. Eles receberam pena de 14 e 15 anos de prisão, respectivamente.
A advogada que representa Edno afirmou à reportagem que tomaria conhecimento da sentença antes de se pronunciar. A Folha de S.Paulo não localizou até a publicação deste texto a defesa de Odair, o mesmo que defende Elias.
Justiça de SP condena guardas-civis acusados de traficar armas na cracolândia
Penas vão de 11 a 16 anos de prisão, além do pagamento de multa e da perda do cargo público
Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil