ANDRÉ FLEURY MORAES
FOLHAPRESS
A investigação que levou a influenciadora Deolane Bezerra à prisão nesta quinta-feira (21) descobriu que ela chegou a abrir 35 empresas num endereço em Martinópolis, no interior de São Paulo, onde havia uma casa popular. A polícia não informou a quem pertencia a residência.
A sobreposição de empresas num mesmo local não é necessariamente ilícita, mas pode, muitas vezes, revelar indícios da prática criminosa.
Além das empresas em Martinópolis, a influenciadora também mantinha outros CNPJs em outros locais dois deles, por exemplo, em Santo Anastácio, também no interior, e outros em Ribeirão Preto.
“Esse é um problema muito grande. É a pejotização do crime organizado”, disse o promotor Lincoln Gakiya, do Ministério Público de São Paulo.
Para ele, o controle sobre a abertura de novas empresas deveria ser mais rigoroso um passo inicial estaria na implementação de uma pesquisa prévia sobre o endereço do estabelecimento em vias de ser registrado ou no cruzamento de dados para verificar outros CNPJs instalados no mesmo local.
A robusta quantidade de empresas fazia do esquema do PCC “um oceano de lavagem de dinheiro”, disseram investigadores à frente do caso durante conversa com jornalistas nesta quinta-feira.
O modus operandi da organização, segundo eles, era complexo e sofisticado. A série de transferências entre as empresas que integravam o grupo dificultou a obtenção de informações sobre a origem dos recursos.
A fama de Deolane era também uma barreira à descoberta da origem dos recursos porque, de acordo as investigações, os recursos do crime se confundiam com aqueles oriundos das atividades da profissional no ambiente digital, onde promove propagandas, por exemplo.
A influenciadora recebeu uma série de repasses de uma transportadora apontada como pivô do esquema de lavagem de dinheiro para o PCC. Não há registros de que ela tenha prestado serviço à empresa, apesar dos valores recebidos.
A polícia acredita que a relação entre ela e a transportadora é o pontapé inicial para aprofundar o elo entre Deolane e o crime organizado. Autoridades afirmam já ter detectado outras relações entre ela e a facção criminosa, mas não deu mais detalhes.
Segundo as investigações, Deolane era uma espécie de caixa para o PCC.
A defesa de Deolane afirmou que ainda não teve acesso aos autos, já que o processo corre em segredo de Justiça. Nas redes sociais, Deolane publicou uma carta em que diz ser vítima de perseguição e injustiça.
“Estou passando aqui para tranquilizá-los e afirmar mais uma vez que estou sofrendo uma grande injustiça. É notório o preconceito e a perseguição contra minha pessoa e minha família, mas isso tudo servirá para provar mais uma vez para todos vocês que não pratico e nunca pratiquei ‘crimes'”, diz influenciadora.
A investigação, segundo a Polícia Civil, foi iniciada em abril de 2023, para identificar e desarticular organização criminosa voltada à prática de jogos ilegais e lavagem de dinheiro.
Conforme o inquérito, a quadrilha usava várias empresas de eventos, publicidade, casas de câmbio, seguros e outras para lavagem de dinheiro feita por meio de depósitos e transações bancárias.
A operação, chamada Integration, cumpriu ao todo 19 mandados de prisão e 24 de busca de apreensão domiciliares, sequestro de bens, como carros de luxo, imóveis, aeronaves e embarcações e valores.
A polícia também conseguiu o bloqueio de ativos financeiros no valor de R$ 2,1 bilhões, retenção de passaporte, suspensão de porte de arma de fogo e cancelamento do registro de arma de fogo. Os mandados foram expedidos pelo Juízo da 12ª Vara Criminal da Comarca de Recife.
Além da capital pernambucana, os mandados foram cumpridos em Campina Grande (PB), Barueri (SP), Cascavel (PR), Curitiba e Goiânia.