Menu
Brasil

Delator do PCC: começa júri de policiais acusados de matar Gritzbach no Aeroporto de Guarulhos

Investigado por lavar dinheiro para a facção, ele vinha colaborando com o Ministério Público do Estado em investigações

Lindauro Gomes

22/06/2026 5h44

pcc gritzbach

pcc gritzbach

Começa nesta segunda-feira, 22, o tribunal do júri dos três acusados pela execução de Antônio Vinícius Lopes Gritzbach, delator do Primeiro Comando da Capital (PCC) morto a tiros de fuzil aos 38 anos em novembro de 2024 no Aeroporto Internacional de Guarulhos, região metropolitana de São Paulo. Investigado por lavar dinheiro para a facção, ele vinha colaborando com o Ministério Público do Estado (MP-SP) em uma das principais investigações contra o crime organizado dos últimos anos.

Uma das maiores demonstrações recentes do poderio bélico do crime organizado, o ataque também resultou na morte do motorista de aplicativo Celso Araújo Sampaio de Novais, de 41 anos, alvejado nas costas dentro do terminal.

Três réus serão julgados por envolvimento direto no crime: o soldado Ruan Silva Rodrigues e o cabo Denis Antônio Martins, apontados como os atiradores, e o tenente Fernando Genauro da Silva, acusado de conduzir a dupla de carro até o aeroporto.

Presos preventivamente no Presídio Militar Romão Gomes, eles são acusados por dois homicídios consumados qualificados e por duas tentativas de homicídio também qualificadas – além das vítimas, ao menos outras duas pessoas saíram feridas do atentado. Ao todo, os PMs podem pegar um mínimo de 51 anos de cadeia pelo crime, sendo 21 anos somente pelo assassinato de Gritzbach.

Ao Estadão, o advogado Claudio Dalledone Júnior, que compõe a defesa dos réus, afirma que os três PMs negam envolvimento no caso. Segundo ele, as investigações não alcançam elementos de prova para incriminar os policiais, e a defesa pretende demonstrar isso em plenário. “É um julgamento que promete”, disse.

trio (7)
Os policiais Ruan Rodrigues (à esq.), Denis Martins (centro) e Fernando Genauro (à dir.) serão julgados pela execução do delator do PCC. Foto: Polícia Civil

O Fórum Criminal de Guarulhos deve contar com esquema especial de segurança nos próximos dias, com a suspensão de todas as outras audiências para restringir a circulação pelos corredores. A medida foi adotada diante da complexidade do caso.

Os jurados terão uma tarefa difícil. Para definir se os réus são culpados ou inocentes, eles terão de votar 90 quesitos para decidir sobre todas as circunstâncias do crime. A defesa dos réus tem uma única tese: a da negativa de autoria.

O julgamento deve se estender por uma semana, até a próxima sexta-feira, 26. A denúncia foi apresentada pelo MP-SP em março do ano passado. Conforme o Tribunal de Justiça do Estado (TJ-SP), além dos três réus, foram arroladas 21 testemunhas.

Somente da acusação, são nove e mais um perito. “Vamos mostrar vídeos, policiais vão ser ouvidos também”, disse ao Estadão o promotor de Justiça Rodrigo Merli, do Tribunal do Júri de Guarulhos. A promotora de Justiça Vania Caceres Stefanoni também estará à frente do caso.

A lista de testemunhas inclui a delegada Luciana Peixoto, que presidiu o inquérito do caso pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) da Polícia Civil. As provas levantadas incluem desde dados dos celulares dos acusados, com indicação de localização, até exames de DNA. Uma tatuagem no braço de Martins também foi importante na identificação daquele que foi o primeiro suspeito preso, em janeiro do ano passado.

Outros três denunciados seguem foragidos, incluindo um possível olheiro que estava no aeroporto no dia do crime – Kauê do Amaral Coelho – e dois nomes apontados como os mandantes da execução: Emílio Carlos Gongorra Castilho, conhecido como Cigarreira, e Diego dos Santos Amaral, o Didi, que é primo de Coelho. As defesas dos três não foram localizadas.

Segundo Merli, não há previsão de data para julgamento desses outros réus. Dois não foram sequer citados, enquanto um advogado recorreu em nome de Didi. “Quando julgar e o tribunal mantiver a pronúncia, há condição de marcar data”, afirmou o promotor, que não descarta a possibilidade de realização do julgamento até o ano que vem.

No fim do ano passado, outros 11 policiais militares foram condenados pela Justiça Militar por fazerem escolta ilegal do delator do PCC. Ao menos quatro agentes esperavam Gritzbach no aeroporto e arredores no dia do assassinato (leia mais abaixo).

Como irá funcionar o julgamento do delator

Sete jurados integram o júri – tanto a acusação quanto a defesa do réu têm o direito de recusar até três nomes de uma pré-seleção, sem necessidade de justificativa. Ao fim, os jurados devem responder individualmente por 30 quesitos para cada um dos réus.

Denis Antônio Martins e Ruan Silva Rodrigues são denunciados pelos homicídios consumados qualificados de Gritzbach e Novais, e também pelas tentativas de homicídio de Willian Souza Santos e Samara Lima de Oliveira, que sobreviveram após o ataque.

Seriam eles os dois homens encapuzados que avançaram sobre Gritzbach naquela tarde de sexta, em cena que chocou o País. Imagens de câmeras de segurança mostram o terminal 2, um dos mais movimentados do País, tomado por correria com os disparos.

Além dos atiradores, Fernando Genauro da Silva é acusado, juntamente com Coelho, Castilho e Amaral, como coautor da empreitada criminosa. Conforme sentença de pronúncia, o tenente teria recebido a tarefa de conduzir um Volkswagen Gol preto até o local e propiciar a fuga aos atiradores após o crime.

Qual foi a motivação do crime

Assinada pelo juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo, da Vara do Júri de Guarulhos, a sentença de pronúncia aponta que Gritzbach, que atuava no ramo imobiliário, foi agregado por membros do PCC para atuar como gestor financeiro, adquirindo imóveis em nome de “laranjas” (terceiros normalmente sem rastros criminais) e investindo o dinheiro do tráfico de drogas em criptoativos.

Segundo as investigações, o problema começou quando membros da facção, os chamados “irmãos”, passaram a questionar a ausência de liquidez das criptomoedas e a desconfiar que Gritzbach desviava grande parte do dinheiro em proveito próprio.

Como mostrou o Estadão, Gritzbach teria contratado Noé Alves Schaum para matar Anselmo Bechelli Santa Fausta, o Cara Preta, e Antonio Corona Neto, o Sem Sangue, segurança do traficante. O crime aconteceu em 27 de dezembro de 2021.

Conforme as investigações, Schaum foi capturado pelo PCC em janeiro de 2022, julgado pelo “tribunal do crime” (espécie de Justiça paralela do crime organizado) e esquartejado. Apesar de poupado em um primeiro momento, Gritzbach também entrou na mira da facção, e buscou recursos para se proteger.

Gritzbach escapou da morte em duas ocasiões

Antes de ser executado em Guarulhos, Gritzbach havia escapado em duas outras oportunidades de ser morto pela facção. A primeira aconteceu em 18 de janeiro de 2022, quando Cigarreira o convocou para uma reunião, onde o empresário foi submetido a um tribunal do crime com a participação de Didi. Gritzbach escapou porque convenceu os bandidos de que poderia restituir o dinheiro que teria desviado do PCC.

A segunda vez foi quando, no dia 25 de dezembro de 2023, o empresário saiu ileso de um atentado quando um sniper disparou um tiro de fuzil que estilhaçou a janela de seu apartamento, no Jardim Anália Franco, na zona leste. Na época, Gritzbach tinha iniciado as tratativas para o acordo da sua delação.

O acordo de delação firmado por Gritzbach com o MP-SP foi homologado em abril de 2024, ocasião em que, além de admitir a lavagem de capitais, ele delatou fatos relacionados à corrupção envolvendo policiais civis e detalhes da atuação do PCC. Em reação, a facção pôs um prêmio de R$ 3 milhões pela sua cabeça.


Didi e Cigarreira estão entre os mencionados na delação, aponta a sentença de pronúncia. “Este último ostentando vínculos também com a organização criminosa que se autointitula ‘Comando Vermelho’, do Rio”, indica o documento. Os dois, então, teriam entrado em contato com Coelho, que acionou os braços do núcleo de execução do crime. O ataque ocorreu quando Gritzbach voltava com a namorada de Maceió. Ela não se feriu.

Justiça condenou 11 PMs por escolta ilegal

Em dezembro do ano passado, a Justiça Militar condenou 11 de 15 policiais militares acusados de prestar serviços de segurança particular para Gritzbach. Foi a primeira sentença relacionada ao caso, que também tem investigações que apuram o envolvimento de policiais civis com o delator, com o objetivo de livrá-lo das condenações pelas mortes de Cara Preta e Sem Sangue.

Na ocasião do assassinato, Gritzbach seria recebido no aeroporto pelo filho, de 11 anos, e por um grupo de quatro seguranças, composto por policiais militares que faziam a proteção do empresário. Com um alvo na testa, era preciso contar com um esquema robusto de segurança.

No caminho para o aeroporto, porém, um dos carros usados por eles teria apresentado uma falha mecânica enquanto estava estacionado em um posto de gasolina. Três dos seguranças, então, teriam ficado com o veículo, enquanto o quarto seguiu com o filho da vítima e outro adulto, tido como amigo do menino.

A falha no esquema de segurança levantou suspeitas imediatas, mas nunca houve comprovação de envolvimento direto dos PMs. Em vez disso, eles passaram a ser alvos de uma investigação da Corregedoria da corporação para apurar quais os motivos de estarem fazendo “bico” com segurança privada, sobretudo de alguém com envolvimento com o crime organizado. A prática é proibida pelo regulamento da Polícia Militar.

Ao todo, onze policiais militares, incluindo cabos, soldados e um 1º tenente, foram condenados por organização criminosa após inquérito aberto pela Corregedoria. Conforme a ata da audiência, as penas variam de 5 anos e três meses a 7 anos e cinco meses de reclusão, em regime inicial semiaberto. O espaço está aberto para manifestação das defesas dos agentes.

Estadão Conteúdo

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado