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De companheiros a familiares: qualquer um pode ser um agressor

48% das mulheres sofreram agressões de companheiros ou ex-parceiros. No caso dos homens, 40% dos agressores são de familiares

Por Geovanna Bispo 11/06/2021 2h45

O mais silencioso e menos abordado abuso, a violência psicológica pode se tratar de ameaças, intimidações, agressões verbais, constrangimentos, humilhações e manipulações. Segundo dados do do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) de 2017, últimos números disponíveis, houveram 78.052 casos de agressão psicológica em todo o país, sendo que mulheres foram vítimas em 81% dos casos.

A psicóloga e psicanalista Tamara Levy explica que a violência psicológica é a mais difícil de se identificar, já que, na maioria das vezes, os agressores são pessoas que têm algum tipo de relação afetiva, o que facilita o acesso ao campo psicológico da vítima. “É um ataque feito por palavras, que atrapalham o desenvolvimento psíquico da pessoa. São coisas que podem acontecer com todo mundo e em qualquer relação.”

Ainda de acordo com o Sinan, 48% das mulheres que procuraram auxílio em unidades de saúde devido à violência psicológica apontaram seus namorados, maridos ou ex-parceiros como os agressores. No caso dos homens, 40% dos autores são familiares, como pais, mães e irmãos.

As agressões e traumas deixados por uma violência psicológica não são visíveis. A vítima dessa agressão passa a viver com medo, tem a realidade distorcida, um constante sentimento de culpa, autoestima deteriorada, ansiedade e depressão. Segundo Tamara, a melhor forma de se identificar essa violência é observando seus sinais. 

“Observar a relação com o possível agressor te impossibilita reconhecer a violência. ‘ah, eu não faço determinada coisa porque fulano não vai gostar, porque fulano vai ficar chateado, aborrecido’. Isso, inclusive, é um sinal de perda de vivenciar a própria vida, perda da liberdade. É uma coisa que é importante ficar em alerta”, explica a psicóloga.

Mas o processo de libertação não é simples, já que, muitas vezes, a vítima acaba se tornando dependente emocional do agressor. “Fica muito difícil de você pensar ‘fulano diz que me ama, mas como uma pessoa que me ama é capaz de me machucar desta maneira?’ E a violência acontece muitas vezes de uma maneira muito sutil e vai tomando uma proporção muito maior de acordo com a instabilidade da vítima. Começa a ficar muito mais vulnerável e muito mais sujeita a esses ataques”, continua Tamara. 

“Da mesma forma que é muito difícil entender que uma pessoa que diz que te ama é capaz de agredir, é muito difícil também se desfazer daquilo porque muitas vezes aquela relação se construiu em um campo estruturador da vida, muitas vezes o agressor representa um lugar estruturante, é uma mãe, um marido, onde a vida se organiza em torno daquela pessoa”, conclui.

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