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Brasil

Brasileiros passam mais de 52 anos da vida conectados à internet, diz pesquisa

Redação Jornal de Brasília

01/07/2026 6h49

celular

Foto: Reprodução

Christian Policeno
Folhapress


Um total de 52 anos, nove meses e 16 dias, esse é o tempo que o brasileiro passa conectado à internet durante a vida. Considerando que a expectativa de vida média é de 76 anos no país, isso significa que ele fica 70% do tempo de sua existência conectado à rede.

As informações são de uma pesquisa realizada em abril deste ano pela NordVPN, aplicativo de privacidade e segurança digital. A empresa já havia realizado o mesmo levantamento em 2022, e o tempo médio dos brasileiros na internet era de 41 anos, três meses e 13 dias —ou seja, em quatro anos, o aumento de conexão foi de mais de 11 anos. Outro fator novo nessa equação é a inserção da IA (Inteligência Artificial) no cotidiano da população.

Das 116 horas semanais que o cidadão passa conectado à internet, aproximadamente 42 horas dessa atividade estão associadas ao consumo de entretenimento, aponta o estudo.

Além do tempo dedicado a chats de IA, 32% dos entrevistados afirmaram já considerar que essas ferramentas fazem parte de sua rotina, e 42% disseram que a tecnologia melhorou sua experiência online.

Gabriel Souza, 34, diz que as plataformas de IA têm ajudado a resolver tarefas do dia a dia, facilitado buscas em sites e auxiliado a acompanhar a evolução em sua rotina de atividades físicas. “Neste ano, fiz a declaração do Imposto de Renda com auxílio da IA, e ela foi me ajudando a tirar dúvidas, lançar gastos e categorizar as informações”, diz. Os robôs também se tornaram aliados nas atividades físicas, afirma, para calibrar treinos.

Diogo Cortiz, professor de IA na PUC-SP e doutor em antropologia digital pela Universidade Sorbonne, diz que a IA passou a integrar o entretenimento do brasileiro em razão da evolução de sua linguagem. Segundo ele, as pessoas conversam com a IA como se estivessem diante de uma pessoa, e com a possibilidade de interagir em português e de usar comandos de voz para falar e para ouvir a tecnologia tornam essa interação mais natural.

“Se a pessoa tem uma dúvida sobre algo, ela pode ir ao Google, mas a busca tende a ser mais demorada, já as pesquisas feitas com IA trazem a informação de forma resumida. Além disso, há um fator muito importante, que é o diálogo, a pessoa pode fazer uma pergunta adicional, e o que é uma dúvida simples se transforma em uma conversa”, diz Cortiz.

De acordo com o professor, isso muda radicalmente a forma como as pessoas buscam informação, produzem conteúdo e até resolvem problemas cotidianos. “Preciso pedir um aumento ao meu chefe, como faço essa primeira abordagem? Vamos para a tecnologia. Briguei com meu cônjuge, como conduzo essa situação agora? A IA também responde”, afirma.

Para Marijus Briedis, diretor de tecnologia da NordVPN, a abordagem sobre segurança precisa evoluir. O estudo mostra que 82% dos brasileiros já divulgaram seu nome completo online, 78% compartilharam sua data de nascimento e 63% forneceram seu endereço residencial a diferentes plataformas digitais.

“Proteger-se já não significa apenas criar senhas fortes, mas sim compreender como nossos dados são coletados, utilizados e processados pelos sistemas de IA com os quais interagimos todos os dias”, diz Briedis.

Segundo Cortiz, as redes sociais coletam informações por meio de sinais comportamentais —como curtidas em postagens sobre determinado assunto, vídeos compartilhados ou comentários— mas, no campo da IA, essas informações se tornam muito mais evidentes.

“Estamos falando de informações explícitas pois hoje posso dizer a tecnologia, por exemplo, que estou triste por tal motivo. Ou seja, estou compartilhando toda a minha intimidade, e a partir disso a IA consegue entender muito melhor meu perfil”, afirma Cortiz.

O docente diz que isso se torna uma verdadeira mina de ouro para as empresas coletarem dados.

De acordo com a pesquisa, 37% dos brasileiros entrevistados afirmam temer que seus dados pessoais já estejam disponíveis online sem que saibam. Além disso, 21% dizem já ter compartilhado informações pessoais online e se arrependido depois.

Andreia Schmidt, professora de psicologia da USP e conselheira da SBP (Sociedade Brasileira de Psicologia), afirma que a pandemia teve um efeito importante na forma como as pessoas passaram a confiar seus dados a ferramentas online e também no tempo que permanecem conectadas. Segundo a especialista, o conforto e a praticidade proporcionados pelo mundo digital fazem com que esse tempo de conexão seja cada vez maior.

“Essas ferramentas resolvem questionamentos em segundos e tarefas do cotidiano a partir de um único comando, algo impensável há poucos anos”, diz Schmidt.

A especialista pondera que o excesso de tempo online pode ser preocupante. “Os seres humanos evoluíram de forma a necessitar de contato social para desenvolver habilidades cruciais ao atendimento das demandas sociais. Em um mundo em que crianças e adultos passam horas diante de uma tela de celular ou de TV, o desenvolvimento dessas habilidades é muito prejudicado” afirma.

Schmidt diz que é necessário questionar como uma geração de crianças vai lidar com as demandas sociais do mundo não virtual, e como adultos que passam horas em frente a uma tela vão conseguir oferecer a elas o ambiente social necessário para desenvolver essas habilidades. Segundo a psicóloga, ainda não há respostas para essas perguntas, já que as mudanças estão em curso.

A especialista afirma que a questão central não está na quantidade de tempo que as pessoas passam com os chatbots, mas na qualidade. “Em um mundo em que as pessoas estão cada vez mais distantes umas das outras, afinal, passar mais de oito horas por dia diante de uma tela é um fator de afastamento social, a questão que se coloca é se esse contato com a tecnologia pode imitar relacionamentos humanos, ou se representa uma distração perigosa em relação a conexões genuínas”, afirma Schmidt.

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