Os impactos dos biocombustíveis sobre a produção e os preços dos alimentos provocaram hoje em Brasília divergências entre os países da América Latina e do Caribe nas reuniões preparatórias da XXX Conferência Regional da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).
O debate ocorreu durante reunião na qual foi apresentado um relatório elaborado pelo brasileiro Guilherme Schuetz, sickness membro do escritório regional da FAO.
O estudo admite que existem alguns riscos, mas sustenta que estes podem ser minimizados com tecnologia e compromissos ambientais, além de dizer que a produção de biocombustíveis pode representar a porta de saída da pobreza para muitos agricultores.
O representante do Brasil perante a FAO em Roma, José Antônio Marcondes, defendeu a produção de biocombustíveis e reconheceu que deve haver um “equilíbrio entre segurança alimentar, segurança energética e mudança climática”.
Sobre esse último aspecto, Marcondes explicou que o uso de etanol no Brasil evitou “a emissão de 675 mil toneladas de dióxido de carbono nas últimas três décadas” e destacou que o problema é a pobreza, e não o biocombustível.
Para o representante do Brasil, “a questão mais sensível para os mais pobres é o acesso aos alimentos”, apesar de a América Latina produzir em quantidade suficiente para todos os seus habitantes.
Na opinião de Marcondes, os biocombustíveis podem ser um incentivo para o desenvolvimento da pequena agricultura, gerando emprego e riqueza, e assim sendo uma arma contra a miséria.
O brasileiro também criticou os países ricos, mas por causa dos subsídios agrícolas que, para ele, “contribuem para disseminar a pobreza nos países em desenvolvimento”, e alertou que “a promessa dos biocombustíveis só será realizada em um mundo sem protecionismo”.
Bolívia, Cuba, Nicarágua e Venezuela, membros da Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba), promovida pelo Governo venezuelano, reafirmaram hoje suas críticas aos combustíveis de origem vegetal.
Para o vice-ministro de Desenvolvimento Rural da Venezuela, Gerardo Rojas, os biocombustíveis “podem ser uma alternativa energética, mas é necessário garantir os alimentos primeiro”.
Rojas afirmou que o desenvolvimento em massa de combustíveis de origem vegetal “pode gerar enormes distorções e desordens sociais como as vistas neste momento”, em alusão aos protestos ocorridos em cerca de 30 países pela alta dos preços dos alimentos.
Além disso, o vice-ministro venezuelano previu que essa escassez “pode se transformar em fator de risco para a estabilidade política” de muitos países latino-americanos, como ocorre atualmente no Haiti.
O delegado cubano, José Arsenio Quintero, apoiou essa opinião e sustentou que os países mais desenvolvidos “pretendem apresentar a bioenergia como um remédio para o subdesenvolvimento”, apesar de ser uma alternativa “eticamente inaceitável, que só servirá para esbanjar a produção de alimentos em combustíveis”.
O representante da Nicarágua, Benjamin Cunningham, se uniu às críticas e disse que a “maior prioridade” na América Latina deve ser a “segurança alimentar, pois de outro modo não será possível erradicar a fome da região”.
Segundo dados apresentados em Brasília, apesar de a América Latina e o Caribe serem as regiões que mais alimentos produzem no mundo, têm 52,4 milhões de pessoas passando fome, das quais nove milhões são crianças com menos de cinco anos.
Os debates técnicos da 30ª Conferência Regional da FAO terminam na terça-feira. A fase ministerial começa no dia seguinte e conclui na próxima sexta-feira, e deverá definir as ações que o organismo incentivará na América Latina e no Caribe até 2010.