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Anulação de júri reaviva feridas da boate Kiss na cidade da tragédia

Witeck está entre os poucos vizinhos que ainda falam sobre o assunto. Passados mais de nove anos da tragédia, muitos já não abrem a porta

Por FolhaPress 04/08/2022 6h54
Foto: AFP

Marilice Daronco
Santa Maria, RS

Foi só a chuva dar uma trégua na manhã gelada de Santa Maria para um assunto tomar conta da cidade do interior do Rio Grande do Sul nesta quinta-feira (4). A anulação do júri do incêndio na boate Kiss, que matou 242 pessoas e deixou mais de 600 feridos em 2013, mexeu com os sentimentos dos moradores, mesmo daqueles que não estão diretamente envolvidos na tragédia.

Com lágrimas nos olhos, o professor do Colégio Politécnico da UFSM (Universidade Federal de Santa Maria) Leopoldo Witeck Neto, 63, que mora nas proximidades de onde ficava a boate, lamentou o que considerou uma “firula jurídica”.

Por 2 a 1, desembargadores da 1ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul decidiram anular nesta quarta (3) as condenações de quatro acusados pelo incêndio na Kiss. A lista inclui os então sócios da boate Elissandro Callegaro Spohr e Mauro Londero Hoffmann, o vocalista da banda Gurizada Fandangueira (que fazia o show na noite da tragédia) Marcelo de Jesus dos Santos, e Luciano Bonilha Leão, assistente da banda.

Pouco após a decisão do tribunal, os quatro foram soltos.

“Mexe com o sentimento das pessoas, que mais uma vez não veem essa maratona de sofrimento ser concluída. O que fica é uma sensação de impunidade muito forte. A cidade sofreu um colapso naquela época e nunca mais se recuperou”, diz o professor sobre a anulação.

Witeck está entre os poucos vizinhos do local que ainda concordam em falar sobre o assunto. Passados mais de nove anos da tragédia, muitos já não abrem a porta para a imprensa e defendem que é hora do tema ficar no passado.

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Além disso, muitos apartamentos dos arredores estão vazios, com placas de venda ou de aluguel.

A gerente de um estabelecimento comercial que fica na rua dos Andradas, a mesma onde ficava a boate, disse que perdeu amigos e conhecidos no incêndio. Hoje, para não pensar na tragédia, ela prefere evitar as notícias sobre o caso. Ela pediu para não ser identificada. .

Na fachada do prédio onde funcionava a boate foram feitas três pinturas. A obra foi encomendada pela Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria, que costuma realizar atos em frente ao local, e instalada pouco depois do júri de dezembro do ano passado, que condenou os quatro réus por homicídio com dolo eventual.

A instrutora de trânsito Josene Broll, 56, vê a pintura todos os dias. A autoescola em que ela trabalha fica exatamente ao lado do prédio em que funcionou a boate. O imóvel não foi demolido porque pode ser utilizado como prova no processo –existe um projeto para, no futuro, transformar o local em um memorial.

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“Cada vez mais a gente vê o tempo passando e a corda arrebentando do lado mais fraco, de quem só fazia bico na boate e não de quem autorizou que ela funcionasse do jeito que estava”, diz Broll. “Agora, com essa anulação, vai começar tudo de novo, não deixam essas almas descansarem”.

O assunto foi debatido inclusive em um dos pontos de encontros mais famosos da cidade, apelidado de “Boca Maldita”. Presente no loca, a publicitária Bruna Marodin Lemes, 27, diz que a anulação causou um novo processo de luto em Santa Maria.

“Isso traz à tona de novo o sofrimento e a sensação de que nada foi feito”, afirmou. “É muito triste para quem vive aqui, afinal a cidade nunca foi como era antes e a tragédia virou a referência da cidade onde quer que a gente vá”.

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