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Coluna Informação #070 – 1º de abril para lá de sem graça

No episódio da troca dos comandantes das Forças Armadas há uma grossa fumaça das táticas diversionistas que o presidente Jair Bolsonaro usa desde a sua campanha eleitoral

Por Rudolfo Lago 02/04/2021 5h00

No episódio da troca dos comandantes das Forças Armadas há uma grossa fumaça das táticas diversionistas que o presidente Jair Bolsonaro usa desde a sua campanha eleitoral. Aquilo que o professor Piero Leiner, da Universidade de São Carlos, chama de “estratégia militar dissonante”, trazida dos conceitos de “guerra híbrida”. Senão, vejamos.

Na segunda-feira (29), emparedado pelo Centrão, Bolsonaro não teve alternativa senão aceitar a demissão de Ernesto Araújo do Ministério das Relações Exteriores. Se somente retirasse Araújo, o presidente pareceria claramente enfraquecido e tutelado pelo grupo liderado pelo presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). O que faz, então, o presidente? Cria um movimento para tornar a demissão de Ernesto Araújo o episódio menor da trama. Faz uma série de outras mexidas, a mais importante delas na alta cúpula militar, jogando uma sombra preocupante na cabeça de todos às vésperas do 57º aniversário do golpe militar de 1964.

Do ponto de vista de diminuir o impacto da demissão de Araújo, o movimento de Bolsonaro deu certo. Mas se ele pretendia com isso dar uma demonstração de força, no sentido de explicitar seu comando e a submissão das Forças Armadas a ele, nesse sentido o movimento deu imensamente errado. Mais do que uma repetição do 31 de março de 57 anos, a troca dos comandantes militares acabou soando mais como uma brincadeira de 1º de abril. Mas uma pegadinha que soa sem graça para todos. Não apenas para os que temeram uma saída de força. Mas também para aqueles poucos que contavam com ela. Se a ideia de Bolsonaro era diminuir a impressão de fragilidade após a demissão de Araújo, ao final de tudo ele passa uma impressão ainda maior de fragilidade.

Capitão reformado que é, talvez falte a Bolsonaro os anos de academia que têm os generais para usar com competência os conceitos de guerra hídrida e tática diversionista. Ele os usa com tanta frequência que vai virando uma versão com faixa presidencial do personagem de Pedro e o Lobo, a historinha musical infantil criada pelo russo Prokofiev. Na historinha, em que cada personagem é um instrumento musical, Pedro brinca o tempo todo avisando a falsa presença de um lobo para caçoar dos caçadores. Quando o tal lobo afinal vem de verdade, os caçadores, cansados da brincadeira, não mais acreditam nele.

O episódio da troca dos comandantes parece soar como o fim da brincadeira para Bolsonaro. Ele ameaçou tanto chamar os “seus” militares, o “soldado e o sargento” na parábola usada por seu filho Eduardo Bolsonaro para intimidar o Supremo Tribunal Federal (STF) que, no episódio os militares trataram de deixar claro a Bolsonaro que eles não são “seus”.

Bolsonaro não conseguiu escolher os comandantes militares que gostaria. Não conseguiu evitar que a troca se desse respeitados os critérios da instituição. E ainda viu seguidas manifestações vindas das Forças Armadas no sentido de que não embarcarão em qualquer ensaio de aventura antidemocrática.

Ou seja, ao final de tudo, a ameaça de golpe antidemocrático fica parecendo mais uma manobra diversionista para deslocar a atenção da demissão de Araújo e de todos os demais problemas provocados pela covid-19, cujas mortes diárias já se aproximam de 4 mil, do que algo concretamente planejado para acontecer.

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O problema é que soa cada vez mais como piada repetida e sem graça. Se Bolsonaro respeita o seu papel dentro do arcabouço que lhe cabe como parte de uma democracia na qual ele comanda apenas um dos poderes, que comece a dar demonstrações de fato desse respeito. E pare de ficar fazendo ameaças tolas de um poder que vai ficando claro que ele não tem.

Porque se ele não respeita e fica a toda hora atiçando sua tropa mais raivosa para ultrapassar a linha vermelha do respeito às instituições, fica claro também que ele não tem assim tanta gente disposta a seguir com ele nessa aventura. Seguida a manifestação das Forças Armadas como instituição, o que parece sobrar de fato é um pífio exército de Brancaleone. Uma meia dúzia que como na clássica comédia de Mario Monicelli, de vez em quando sai às ruas cantando: “Bolso, Bolso, Bolso… Naro, Naro, Naro…”








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