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Coluna Informação #024 – A risca da porrada

Lá na época da quinta série, na pré-adolescência, era comum dois valentões da turma riscarem uma linha na areia. Cada um ficava de um lado da risca provocando e arengando o outro. “Duvido você passar dessa linha!”, provocavam

Por Rudolfo Lago 24/04/2020 5h00
Foto: Marcos Corrêa/ PR

Lá na época da quinta série, na pré-adolescência, era comum dois valentões da turma riscarem uma linha na areia. Cada um ficava de um lado da risca provocando e arengando o outro. “Duvido você passar dessa linha!”, provocavam. A bobajada consistia em instigar outro e fazer com que ele acabasse indo às vias de fato. Era a famosa risca da porrada.

É triste e até vexatório constatar que a disputa política brasileira anda acontecendo na base da risca da porrada. A ideia da risca da porrada foi usada por um dos políticos que desde o domingo (19) tem participado de reuniões para tentar entender o que pretende o presidente da República. Na verdade, Bolsonaro riscou a linha na areia já faz algum tempo. Talvez não muito tempo depois de ter tomado posse como presidente. Ele promove um teste constante dos limites da democracia. O tempo todo provoca as instituições e faz com que elas reajam.

Na semana passada, comentávamos aqui que, nessa linha, os principais líderes do Congresso e os ministros do Supremo Tribunal Federal já tinham estabelecido um acordo tácito no sentido de que reagiriam de pronto a qualquer tentativa de teste dos limites, especialmente neste momento da necessidade de se manterem as estratégias preconizadas pela Organização Mundial de Saúde para o combate ao novo coronavírus. Não foi por outra razão que, na semana passada, o STF decidiu por unanimidade que estados e municípios tinham autonomia para estabelecer suas estratégias de isolamento.

Ao perceber a existência desse acordo, e ao perceber o quanto esse acordo tolhia qualquer protagonismo da sua parte, Bolsonaro reagiu. Disse que estavam tentando um golpe contra ele. Sabiamente, nenhuma autoridade dos demais poderes caiu na provocação. Era a risca da porrada. O presidente, então, foi além. Resolveu participar, no domingo, do ato em frente ao Comando do Exército onde manifestantes pediam intervenção militar, volta do AI-5 e o fechamento do Congresso e do Supremo. Era um significativo passo no sentido de ultrapassar a risca da porrada.

As instituições reagiram de pronto. E Bolsonaro recuou. Mas, na verdade, ele esperava, é isso que se avaliou nessas reuniões que aconteceram desde domingo, que sua subida de tom provocasse reação igual do outro lado. E que o outro lado é que atravessasse agora a risca da porrada. Acelerando um processo de impeachment ou algum tipo de intervenção sobre ele. Nesse caso, se tivesse que ir às vias de fato, seria Bolsonaro aquele que poderia argumentar que estava somente se defendendo.

Aos poucos, desde a eleição, Bolsonaro parece deixar de lado a maioria mais moderada que optou por ele nas eleições. A parcela mais democrática, especialmente os que optaram por ela no segundo turno. E ficar mais apenas com a parcela mais radical e enlouquecida que tem saudade de um tempo que nunca houve. A ditadura militar que essa gente supõe, nunca existiu na forma como eles pintam. Um dos mitos cultivados por essa turma é o de que nos tempos da ditadura não havia corrupção. Foram noticiados diversos casos de corrupção durante o regime militar. E certamente só não se conhecem outros porque a imprensa à época vivia sob forte censura. Um dos casos mais notórios foi o caso Lutfalla, quando uma empresa têxtil da mulher de Paulo Maluf, Sylvia, recebeu vultosa quantia do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) quando já estava em processo de falência. As empreiteiras envolvidas no petrolão ,todas elas viveram seus melhores dias com as obras faraônicas desenvolvidas sem restrições pelos governantes de farda.

Bolsonaro parece certo de que essa parcela o seguirá sem contestações por qualquer caminho. Reagirá a processos de impeachment ou qualquer intervenção mais forte. É com essa gente que ele conta para um eventual contragolpe. Assim, nas conversas que aconteceram desde o domingo, o outro lado decidiu que em nenhuma hipótese ultrapassará a risca da porrada. Que continue sendo do presidente a iniciativa.

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