A recente declaração de Paulo Figueiredo, durante uma transmissão na internet, afirmando que as mulheres brasileiras “votam muito mal”, recolocou em circulação um sobrenome que, décadas atrás, já havia se tornado sinônimo de incontinência verbal, no melhor estilo do FEBEAPÁ (Festival de Besteiras que Assola o País), editado pelo velho jornalista Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta.
A afirmação repercutiu imediatamente porque ocorreu quando ainda ecoavam as declarações de Michelle Bolsonaro sobre episódios de desrespeito e humilhação que teria sofrido nas mãos de Flávio Bolsonaro, no contexto da política interna do Partido Liberal.
Mas, neste caso, não caberia a Flávio Bolsonaro ou mesmo à direita brasileira pagar a fatura por essa manifestação desastrosa do influenciador.
Até porque esse besteirol de 2026 repete o avô do influenciador, o general João Baptista Figueiredo, que presidia a República do Brasil num festival de bobagens nos anos de 1980, funcionando como uma espécie de coveiro-bufa da ditadura militar que agonizava.
Se Paulo Figueiredo, no século XXI, abriu a controvérsia com carimbo de família ao desqualificar genericamente o voto das mulheres brasileiras, João Figueiredo construiu um verdadeiro repertório de declarações desastrosas, revelando o baixo padrão intelectual e mental do último ditador.
A mais famosa talvez tenha sido a frase segundo a qual o presidente-general admitia que preferia “o cheiro de cavalo ao cheiro de povo”.
O comentário demoliu, praticamente sozinho, a tentativa de transformá-lo no simpático “João do Povo”. O marketing presidencial preparava um líder popular, e a incontinência verbal produziu exatamente o oposto.
Depois veio a célebre promessa de que promoveria a abertura política, mas que “prenderia e arrebentaria” quem fosse contra ela.
Era um paradoxo completo, ao defender a democratização utilizando a linguagem típica do autoritarismo. A frase tornou-se um resumo involuntário das contradições daquele período.
Em outra ocasião, um menino teria perguntado ao presidente Figueiredo o que faria se tivesse de sustentar a família recebendo apenas um salário mínimo.
Em vez de apresentar uma resposta institucional, simpática, ou um gesto de empatia, João Figueiredo teria respondido que daria “um tiro na cuca”.
A declaração tornou-se uma das passagens mais lembradas daquela trajetória presidencial.
Como se não bastasse, reagindo às críticas por seu comportamento ríspido, João Figueiredo resolveu declarar que se “envaidecia de ser grosso”.
O que para qualquer assessor de comunicação seria um problema a ser administrado. Aliás, Deus sabe as provações enfrentadas pelo inesquecível e genial chefe da comunicação da Presidência da República da época, o publicitário Saìd Farah.
Também ficou marcado o episódio da chamada Novembrada, em Florianópolis, quando reagiu às manifestações de estudantes discutindo com manifestantes numa cena patética, incompatível com a liturgia presidencial.
Ao longo dos anos, circularam ainda outras frases atribuídas ao ex-presidente, de teor preconceituoso ou violento, envolvendo comentários supostos sobre baianas, pessoas negras e até propostas extremadas para o problema das favelas.
Embora algumas dessas atribuições permaneçam objeto de controvérsia quanto à formulação exata ou ao contexto em que teriam sido proferidas, todas passaram a integrar o imaginário político brasileiro como exemplos da imagem construída pelo descontrole verbal.
Portanto, se existe uma informação genética que faz passar o ímpeto do besteirol de pai para filho, Paulo Figueiredo pode ser um caso para estudo.
Seu comentário sobre o voto feminino não chama atenção apenas pelo conteúdo, mas porque reabre uma tradição familiar em que a principal adversária sempre foi e sempre teria sido a própria língua.
Se a comparação é justa ou não, o tempo dirá.
O fato é que o general João Figueiredo levou anos para construir seu FEBEAPÁ (Festival de Besteiras que Assola o País). E Paulo Figueiredo ainda está só no começo.
Mas ele é jovem e tem tempo de sobra para chegar ao patamar de seu avô.