Todos os precedentes indicam: estão iludidos todos aqueles que imaginam o presidente Lula sacrificando a imagem de seu governo – e da própria reeleição -, para garantir alento a um amigo alvejado no escândalo do banco Master.
Portanto, com base nos precedentes e em nossas fontes dentro do PT, é uma questão de tempo – e de jeito – o anúncio do desligamento do senador Jaques Wagner da liderança do governo dos Senado, numa versão inteligente para uma saída honrosa.
Em 2006, Lula não passou a mão na cabeça dos petistas que foram presos pela PF com quase dois milhões de reais em moeda corrente e dólares, para uma suposta compra de dossiê contra os tucanos. Em 25 de setembro de 2006, Lula concedeu entrevistas declarando publicamente que a ação havia sido orquestrada por um “bando de aloprados”, acionando um padrão estratégico que isolou politicamente os envolvidos, os rotulando como aloprado, para blindar o governo. Depois disso, veio o corte de cabeças de seu governo, numa profilaxia que garantiu a reeleição em segundo turno. A avaliação dos estrategistas era de que a simples associação do presidente à mala de dinheiro apreendida poderia contaminar toda a campanha da reeleição.
Neste episódio que ficou conhecido como o “caso dos aloprados do PT”, o então presidente nacional do PT e coordenador-geral da campanha de reeleição de Lula, Ricardo Berzoini, protagonizou o principal sacrifício político do momento. Após uma reunião de emergência com Lula no Palácio do Planalto, Berzoini foi destituído da coordenação da campanha de reeleição e, semanas depois, forçado a licenciar-se da presidência do partido. Para sinalizar seriedade e controle, Lula nomeou o assessor internacional Marco Aurélio Garcia para assumir o comando da campanha de forma imediata.
Para finalizar a estratégia de blindagem há 20 anos, Lula chancelou a passada de rodo no PT, que resultou na desfiliação e expulsão rápida dos agentes operacionais presos com dinheiro pela Polícia Federal, no Hotel Íbis em São Paulo.
Diferente dessa condução mais elástica nesse episódio que compromete o senador Jaques Wagner, a guilhotina petista trabalhou rápido para ceifar os aloprados. Sem que houvesse qualquer suspeitas envolvendo a compra de um apartamento, figuras como Freud Godoy, assessor especial de segurança pessoal de Lula, pediu demissão logo após ter seu nome citado no caso. Em menos de 10 dias Jorge Lorenzetti, conhecido como o “churrasqueiro de Lula”, foi afastado e desligou-se do partido. Hamilton Lacerda, então diretor de comunicação da campanha de Aloizio Mercadante ao governo de São Paulo, acusado de carregar o dinheiro, foi imediatamente exonerado e excluído da vida petista.
Neste momento, segundo mais de uma fonte, a pergunta que permeia as trocas de impressões dentro do governo gira em torno da precificação do custo político de manter Jaques Wagner numa função estratégica, comparado ao custo de substituí-lo. Esta, inclusive, foi a discussão palaciana no episódio que atropelou o então Ministro da Casa Civil, José Dirceu, no escândalo do Mensalão. Assim como no caso de Jaques Wagner, não havia qualquer prova ou inquérito aberto, mas ele pediu o boné. Da mesma forma, havia o ônus politico para a manutenção de um suspeito num cargo de representação do
Governo.
No fim das contas, o PT ganhou mais duas eleições presidenciais e Dirceu acabou condenado, sem que fosse apresentada qualquer prova material dos supostos ilícitos, numa decisão que se apoiava num principio jurídico alienígena, o fragilíssimo “domínio do fato.”
Em todos esses episódios, a questão principal deixou de ser a culpa ou inocência do personagem e passou a ser a capacidade de o governo sobreviver ao desgaste provocado pela permanência em cargos públicos.
Na mão contrária da escola lulista, durante meses, o então presidente Jair Bolsonaro resistiu às pressões para afastar Ricardo Salles, então ministro do Meio Ambiente. Ele acumulava ferimentos por críticas nacionais e internacionais. Tornou-se alvo de investigações e chegou a protagonizar a famosa fala sobre “passar a boiada” durante a pandemia. Mesmo assim, o presidente manteve sua defesa pública enquanto pôde. A narrativa oficial era de que o ministro continuava prestigiado e perseguido por adversários políticos.
Quando a Polícia Federal avançou nas investigações sobre suposto esquema de exportação ilegal de madeira e os custos políticos começaram a superar os benefícios de sua permanência, Salles deixou o cargo, em junho de 2021. A saída foi apresentada como decisão pessoal, mas foi interpretada em Brasília como uma tentativa de reduzir o desgaste do governo, quando o desgaste já tinha se cristalizado, fora da chamada bolha Bolsonarista.
PS: A qualquer momento, podemos ter um desfecho para a saia justa envolvendo a manutenção de Jaques Wagner na liderança do governo. E isto inclui o momento anterior à publicação deste conteúdo, nas versões on-line e no impresso do Jornal de Brasilia.