Rogério Ceni parecia ter atingido o auge de sua carreira quando superou o recorde de gols de José Chilavert, em 2006. Porém, ultrapassar os números do paraguaio era apenas mais um passo do capitão do São Paulo, que entra agora para a história do futebol como o único goleiro a ter marcado 100 gols. O último, neste domingo, na vitória por 2 a 1 sobre o Corinthians, que também acabou com um tabu de quatro anos sem triunfos sobre o rival.
“É um objetivo alcançado na vida, uma coisa que muito camisa 10 não conseguiu. Eu venci um preconceito há 15 anos, é um ciclo que se completa”, vibrou o arqueiro, instantes após o apito final do clássico.
Considerado um mito pela torcida tricolor, Ceni nunca perde a sede por conquistas e tem mais uma data para anotar em seu calendário de glórias: 27 de março de 2011. Como se não fosse suficiente vestir a camisa da mesma equipe por mais de 20 anos, ter levantado a taça do Brasileirão por três edições seguidas e ter sido eleito o melhor jogador de um Mundial de Clubes, o capitão também faz questão de pulverizar todos os recordes possíveis para um goleiro-artilheiro, mas, pelo menos no discurso, sem exaltar em demasia o centésimo.
A marca história, porém, ainda gera controvérsia, pois, depois de seguir as orientações da Fifa por quatro anos, o São Paulo decidiu divergir da entidade e refazer as contas dos gols do jogador. Assim, dois tentos não reconhecidos pela Federação foram acrescentados às contas do Tricolor, possibilitando que o goleiro chegasse ao centésimo neste domingo.
O primeiro gol polêmico aconteceu em 1998, contra um combinado de Santos e Flamengo. Já o outro foi anotado em 2000, diante do Uralan Elista, da Rússia, na conquista do Torneio Constantino Cury. Portanto, como desconsidera estes dois tentos, a Fifa só reconhecerá o centésimo quando o arqueiro balançar as redes mais duas vezes.
O Tricolor vinha ignorando os tentos polêmicos desde que Rogério Ceni superou Chilavert como maior goleiro-artilheiro do mundo, em 20 de agosto de 2006. Naquele dia, diante do Cruzeiro, Ceni bateu falta e anotou seu 63º gol em partidas oficiais, ultrapassando o paraguaio. Para completar, o arqueiro deixou sua marca de novo no jogo, de pênalti, e foi coroado com o recorde reconhecido pela Fifa.
Só em 2011 o Tricolor resolveu refazer as contas e recolocar os outros dois gols. Alheio à polêmica, Rogério Ceni exibe um histórico de artilheiro que começou há 14 anos, quando o mundo já admirava a precisão de Chilavert. Enquanto o paraguaio balançava as redes, o goleiro são-paulino se aperfeiçoava desde seu início no Tricolor, sob a batuta de Telê Santana. Porém, o primeiro treinador a apostar na pontaria do atleta foi Muricy Ramalho.
“Na época, eu era muito atento aos treinos, e o São Paulo não fazia gols de falta. O único que treinava era o Rogério. Quando surgiu a oportunidade, dei essa chance a ele, porque era o único que batia”, recorda o treinador.
Auxiliar de Muricy naquela época e peça importante da comissão técnica do São Paulo até hoje, Milton Cruz atesta que Ceni nunca diminuiu seu ritmo de treinos, sempre obstinado em marcar cada vez mais.
“Ele chegava uma hora antes do treino, carregando o saco com as bolas. Depois, colocava uma camisa pendurada nas traves e ficava treinando, aprimorando. Quando marcou o primeiro gol, em Araras, ele não sabia nem como vibrar direito”, brinca o auxiliar.
“Com o Rogério, tudo é fruto dos treinamentos. Se ele não treinasse, não faria tantos gols. Hoje, não tem ninguém no Brasil que seja tão bom quanto ele batendo faltas, mas isso é resultado de muita dedicação”, completa Milton Cruz.
Desta forma, um novo ídolo começou a se construir para a torcida do São Paulo, no estádio Hermínio Ometto, em Araras. Aos três minutos do segundo tempo, falta para o Tricolor na meia-esquerda, e o goleiro caminhou até a bola. O arqueiro do União São João, Adinam, não conseguiu defender a batida baixa em seu canto esquerdo e foi apenas o primeiro de muitos vazados pelo são-paulino, no dia 15 de fevereiro de 1997. Tudo havia sido bem planejado por Ceni, que sempre seguiu sua própria cabeça no cotidiano no CT da Barra Funda.
“Esta parte é dele, porque, quando cheguei aqui, ele já batia muito bem. Eu só procuro auxiliar na parte técnica do goleiro. Em relação a bater na bola, ele que aperfeiçoa nos treinos”, explica Haroldo Lamounier, que é preparador de goleiros do São Paulo desde 2003.
Rogério Ceni chegou ao São Paulo em 7 de setembro de 1990 e, depois de dois treinos, acabou aprovado para defender as cores do clube. Mesmo se tornando um especialista nas cobranças de falta, o goleiro ainda não mostrava naquela época que se tornaria um inovador para a posição.
“Ainda não dava para ver (que batia bem na bola), porque eu observava mais o posicionamento e o treino específico. Mas ele evoluiu, não é mais aquele Rogério. Ele tinha que ser lapidado e o mérito foi também dos treinadores dele na base”, recorda Gilberto Geraldo de Moraes, que era o treinador de goleiros do Tricolor naquela época e foi o responsável por aprová-lo no teste. Hoje, ele trabalha na parte administrativa do clube.
Apesar de ter sido proibido de exercer sua especialidade durante o curto período de Mário Sérgio no São Paulo (em 1999), Rogério Ceni contou com o aval de todos os outros treinadores que passaram pelo clube desde que balançou as redes pela primeira vez.
E a confiança foi além dos muros do Morumbi. Ícone dos goleiros nas décadas de 1970 e 1980, Emerson Leão viu em Rogério Ceni a evolução da posição, que teve de se adaptar à proibição de segurar a bola com as mãos depois de um recuo de sua equipe. Por isso, o treinador deu liberdade ao goleiro até na seleção brasileira, mas o capitão são-paulino não marcou quando cobrou falta diante da Colômbia, em 2000.
“Ele tinha liberdade. A posição de goleiro deixou de ser limitada simplesmente como receptador de bola e passou a ter uma função muito mais abrangente, como organizador de time e defesa, com reposição de bola. O goleiro começou a se dedicar a melhorar a qualidade técnica com os pés. Através disso, surgiu o Rogério, treinando faltas e sendo merecedor da confiança dos treinadores, porque seu custo-benefício é muito alto”, avalia.
Leão, que foi técnico de Rogério também no São Paulo, em 2005, admite que era inimaginável antigamente um goleiro deixar sua área para se aventurar como goleador.
“Essas coisas acontecem por treinamento, dedicação, sacrifício e alta dose de ousadia e irresponsabilidade. Mas é uma irresponsabilidade controlada, porque ele tem muita qualidade. É fruto da modernização do futebol. Alguns aproveitam, outros não. O Rogério é a excelência em aproveitamento. Fica agora o desafio aos atacantes também”, ri o ex-goleiro.
O aviso de Leão tem motivos para ser dado. Afinal, em 2005, ano em que passaram pelo Tricolor atacantes renomados, Rogério Ceni foi o artilheiro do clube, com 21 gols, inclusive anotando na semifinal do Mundial de Clubes, contra o Al-Ittihad. Antes disso, o goleiro já havia provado sua importância para o time durante a conquista da Copa Libertadores, quando fez gols nas oitavas de final (diante do Palmeiras), quartas (duas vezes contra o Tigres-MEX) e semifinais (River Plate-ARG).
Mesmo assim, ainda ficou uma pitada de frustração no duelo contra o clube mexicano, já que o goleiro marcou dois gols de falta e ainda teve a oportunidade de fazer o terceiro em cobrança de pênalti, mas chutou por cima do travessão.
“Ele fez muitos gols importantes para o São Paulo e torci bastante para fazer o terceiro contra o Tigres. Seria a primeira vez dele com três gols em um jogo, mas acabou não saindo”, recorda Milton Cruz.
Superada a momentânea decepção, os números que construiu no torneio continental de 2005 foram importantes para Ceni atingir outro recorde alguns anos depois. No dia 25 de fevereiro de 2010, em duelo contra o Once Caldas-COL, em Manizales, o capitão tricolor marcou seu 11º gol em Libertadores, tornando-se o maior artilheiro da história do São Paulo na competição, superando Muller, Palhinha e Pedro Rocha, que contabilizam dez vezes cada um.
Na longa carreira do jogador, algumas ‘vítimas’ também são bem conhecidas. O cruzeirense Fábio é o goleiro que mais vezes foi vazado pelo são-paulino: seis gols (cinco pelo Cruzeiro e um pelo Vasco).
Porém, dentre os clubes, o que mais sofre nos pés do capitão é o Palmeiras, que levou sete gols do atleta: quatro com Marcos, dois com Sérgio e um com Diego Cavalieri. Apesar do índice, a rivalidade não atrapalha o bom relacionamento do pentacampeão Marcos com seu segundo reserva da Copa de 2002.
“É uma marca impressionante (100 gols). O Rogério merece porque é um dos melhores batedores de falta que eu já vi e treinou muito para isso. Ah, e é bom que ele se lembre que eu tenho participação neste feito aí. Se não fossem os três gols que eu sofri, ele não estaria comemorando”, brinca o camisa 12 palmeirense.
Ou seja, vários clubes e jogadores passaram pela trajetória de Rogério Ceni nestes 100 gols. O Internacional, por exemplo, levou o milésimo gol do São Paulo no Brasileirão, em 2000, justamente em cobrança de falta do goleiro-artilheiro.
Agora, ao levar mais uma vez gol do rival, o Corinthians também faz parte da história do ídolo tricolor, que atingiu em Barueri mais uma impressionante marca, que não deve ser a última de sua carreira.