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Jogador do Cruzeiro já foi sacoleiro, escolheu defender a Itália e quer investir em café

O jogador Rômulo atuou em diferentes atividades. Já foi sacoleiro, quer investir no ramo do café e já defendeu a seleção da Itália

Foto: Gustavo Aleixo/Cruzeiro

Se você quiser saber qual o melhor tipo de perfume para presentear alguém especial, ou precisar de dicas para incrementar edições de vídeos, o lateral Rômulo, de 35 anos, pode te auxiliar. Segundo atleta com maior número de jogos do elenco atual do Cruzeiro, ele traz no seu currículo passagens inusitadas que marcaram sua trajetória no futebol. Em 2009, na Chapecoense, ele dividia a rotina de treinos com viagens de até nove horas para comprar e revender produtos do Paraguai. Quer mais? Alavancou a própria carreira ao editar vídeos com seus gols e melhores momentos e ainda tem no currículo convocações para seleção italiana. Por fim, ainda virou parceiro de um ex-ídolo corintiano nos tempos de Juventus: o argentino Carlitos Tevez.

Resiliência, dedicação e criatividade marcam a trajetória desse gaúcho nascido em Pelotas e que saiu de casa para jogar bola aos 13 anos. “Eu era de origem muito pobre. Às vezes chegava a faltar o básico para nossa família. Saí de casa muito cedo casa em busca do meu objetivo.”

Para compensar o baixo salário, o então jovem atleta teve a ideia de aproveitar a proximidade de Chapecó com o Paraguai para acrescentar a atividade de sacoleiro à de atleta de futebol. “As viagens duravam até nove horas e eram feitas em vans clandestinas. Reuníamos de dez a doze pessoas, rachávamos a gasolina e o dinheiro do motorista. Os bancos eram pequenos e não conseguíamos dormir direito.”

Se o desgaste por ficar horas na estrada era um empecilho, o lucro, segundo o atleta, compensava a empreitada. “Chegava a ganhar quatro vezes mais comparando com o meu salário de atleta. E quem comprava os produtos eram os próprios companheiros de time”.

Mas se a profissão de sacoleiro foi um caminho para ganhar dinheiro, o gosto pela tecnologia mudou os rumos da sua vida. Numa dessas idas ao país vizinho, ele adquiriu um computador e uma placa de vídeo. Pegou seus gols, lances e melhores momentos e, por meio de uma edição caprichada, jogou o produto final em um site onde jogadores, empresários e treinadores faziam uma conexão.

“Um ex-preparador físico me indicou a plataforma. Um empresário da Suíça viu, entrou em contato com um colega brasileiro e fui para o Santo André. O time paulista estava na Série A e fiz um ótimo contrato.”

Na equipe do grande ABC, Rômulo ganhou ainda mais destaque. Ajudou o time na campanha do vice estadual em que perdeu a final para o Santos de Neymar, Ganso e Robinho. E mais: enfrentou o agora chefe Ronaldo Nazário, à época no Corinthians. “Olha, você não imagina a minha satisfação. Jogamos contra duas vezes, não lembro quanto foi o placar, mas me recordo que fui pedir a camisa do Ronaldo ao final da partida e não consegui.”

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Destaque da posição do Campeonato Brasileiro de 2009, o ex-sacoleiro e expert em tecnologia daria ares internacionais à sua carreira em 2011. Longe do seu país, com uma cultura diferente para entender e tendo ainda o idioma italiano para dominar, Rômulo centrou foco em se firmar no futebol europeu.

“Me adaptei às rotinas de pré e pós-jogo, estudei muito para aprender o italiano e me comunicar bem. Enquanto muitos atletas ficavam no vídeo-game, eu estava me dedicando e passei a me relacionar com nomes como Pirlo, Buffon, Pogbá. Jogadores que eu só via pela TV.”

Amizade com Carlito Tevez

Das várias estrelas com as quais conviveu, Carlitos Tevez foi um dos atletas mais próximos. De temperamento arredio dos tempos de Corinthians, o argentino se mostrou completamente mudado em sua passagem pela Juventus de Turim. “O Tevez era muito jovem quando atuou em São Paulo e a badalação em cima dele contribuiu para isso. Mas na Itália foi diferente. Era um cara de grupo, simpático, gostava de aconselhar os mais jovens. Na Juventus, o seu comprometimento era exemplar.”

A aproximação era tanta que, por meio de um papo informal, Rômulo quase conseguiu o levou novamente ao Corinthians. “Ele disse que queria mudar de ares e voltar a jogar perto de casa (Argentina). Falei com o meu empresário sobre o interesse do Tevez em deixar a Itália. Surgiu o interesse do Corinthians após conversa com meu agente e o movimento de retorno dele ao Brasil começou a crescer.”

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A volta acabou não acontecendo. O atribulado calendário brasileiro e a repercussão de um retorno ao gigante paulista desestimularam o astro argentino. “Tevez adora o Corinthians, mas não queria se expor à rotina de jogar a cada três dias. Fora as viagens e concentrações. Seria muito desgastante. Ele optou pela China, mas a escolha aconteceu por causa do salário fantástico e também porque os jogos em menor número. Além do mais, ele ainda levou toda a família.”

Convocação para a Azurra

Nas dez temporadas que passou na Itália, Fiorentina, Hellas Verona, Juventus, Genoa, Lazio e Brescia contaram com o futebol aplicado deste gaúcho nascido em Pelotas.

Lateral de origem, ele ganhou também a função de polivalente por jogar no setor de meio-campo. Para se dar bem diante de uma escola tão exigente quanto à italiana, Rômulo virou um “fominha” de treinos. “Treinava muito. Durante quatro anos fui eleito o melhor condicionamento físico das Séries A e B. Coloquei para mim, que na parte física, teria que ser melhor do que todos.”

A recompensa veio em forma de convocação para a seleção italiana. Ele estava jogando no Hellas Verona quando, num encontro com o técnico Cesare Maldini, acabou pego de surpresa. “Ele quis saber do meu interesse em defender a Itália. Falei que seria motivo de orgulho. Ao ouvir minha resposta, ele cravou a minha convocação. Olha, chorei muito quando vi meu nome na lista.”

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A alegria de ser chamado, no entanto, sofreu um baque. Às vésperas da disputa da Copa de 2014, Rômulo acabou cortado por causa de uma pubalgia. Antes disso, ele ficou apenas no banco em um amistoso diante da Irlanda.

Dos campos para o ramo do café

Aos 35 anos e sem data prevista para encerrar carreira, Rômulo faz planos. O espírito empreendedor que o transformou em sacoleiro no início da carreira volta a falar mais alto. Apreciador de café, o jogador pretende investir no ramo ainda este ano.

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“Lá o café é muito superior ao do Brasil, embora a maioria dos grãos sejam brasileiros. Eles fazem um blend (mistura planejada de grãos) muito legal, curvas de torra da mais alta qualidade. Então o café sai com uma textura e aroma fora de série”, falou o jogador cruzeirense em um discurso de especialista no assunto.

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Ele pretende entrar no mercado com um produto ainda este ano. “Vamos lançar uma bebida energética à base de café. Vai ser uma revolução. Vamos lançar ainda uma linha de cafés especiais, café em grãos, café moído. Estamos com tudo pronto. Temos identidade visual, planejamento estratégico de marketing de produtos. Enfim, tudo muito bem encaminhado.”

Por: Estadão Conteúdo








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