Em meio a agências funerárias, as bandeiras tricolores tremulam e a mística da alma castelhana é novamente evocada. Cercada de caixões, coroas de flores e até moscas varejeiras coloradas ansiosas, a torcida gremista segue acreditando em um milagre nesta quarta-feira. Sem medo de assombração argentina, os tricolores já estão acostumados com o bairro de Azenha, que abriga o Estádio Olímpico e também muitos cemitérios e crematórios.
Na tarde que antecedeu a decisão da Copa Libertadores de 2007, no entanto, quem vestiu azul, preto e branco em Porto Alegre não demonstrou medo algum de morrer na praia, mesmo estando em plena “Rota Fúnebre de Porto Alegre”
Na Avenida Doutor Carlos Barbosa, uma das principais vias de acesso ao Estádio Olímpico, as floriculturas e agências funerárias da região convivem há anos com o templo do Imortal Tricolor, na capital gaúcha.
“Ao final de todos os jogos aqui no Olímpico sempre passa alguém fazendo piada aí na rua. Sempre tem um colorado gritando para a gente enterrar o Grêmio. Em dias de vitória, os gremistas nos pedem para enterrarmos o adversário”, revela Ricardo Carneiro, dono da Funerária Medianeira, uma das vizinhas do Estádio Olímpico.
Os principais cemitérios da cidade estão bem próximos do campo gremista: João XIII, Santa Casa, São Miguel e Almas, São João e Israelita. Crematórios como o Metropolitano e São João também ficam no bairro.
“Se eu pudesse deixava aquele caixão maior ali reservado para o tal do Imortal hoje à noite”, brinca um funcionário de uma das funerárias da região. Colorado, ele preferiu não se identificar. “Não coloca meu nome aí, não. Senão quem irá para o caixão depois do jogo sou eu”, divertiu-se.
Confiantes, os torcedores gremista garantem que o Grêmio continuará imortal depois da partida desta quarta-feira. Apesar das condições adversas, todos estão certos da conquista de sua terceira Copa Libertadores. Para isso, a equipe do técnico Mano Menezes precisa marcar ao menos três gols no Boca Juniors e não sofrer nenhum.
A confiança é tanta que um grupo de torcedores de Gravataí, a capital das praias, passou a tarde fazendo sua concentração para o jogo em frente à Funerária Santa Maria, empresa com 32 anos de tradição no ramo. Após viagem de uma hora, os fanáticos fizeram festa nas cercanias do Estádio Olímpico.
“Viemos em três carros e o Grêmio vai sair campeão. Faremos um gol no primeiro tempo e pelo menos mais dois no segundo”, disse Lucas Bolzan, torcedor de 21 anos. Experiente no ramo, Ricardo Carneiro, no entanto, não vê qualquer relação entre a proximidade da “Rota Fúnebre de Porto Alegre” e os feitos sobrenaturais realizados pelo Grêmio.
“O pessoal fala essas coisas porque não conhece o assunto. Uma funerária nem precisa ficar próxima dos cemitérios. Você ganha os clientes no corpo a corpo, faz um bom serviço e é indicado para outras pessoas. Eu só estou perto do Olímpico há vinte anos porque comprei a Funerária de outra pessoa e ela já estava localizada aqui”, explica.
Por volta da meia-noite, os funcionários de Ricardo, que fazem plantão 24 horas por dia, terão de ouvir mais uma vez as piadas de sempre. Resta saber quem verá seu sonho enterrado: o Grêmio ou o Boca.