A saída da nutricionista Alessandra Favano da concentração palmeirense para economizar uma diária de hotel foi o último ponto de uma discordância que tende a crescer entre Luiz Felipe Scolari e a diretoria do Palmeiras. Desta vez, o treinador, que já falou “mil vezes” da necessidade de um camisa 9, nem precisou abrir a boca.
A delegação do Palmeiras chegou ao Pacaembu já com os assessores de imprensa avisando que o treinador não daria entrevista coletiva após o jogo contra o Santo André. A única oportunidade de ouvir Felipão foi quando ele entrou no campo, antes da partida. A cada pergunta sobre a nutricionista, o técnico devolvia com outra indagação: “Você que falar sobre o jogo?” Fez isso oito vezes.
Neste caso, não se posicionar publicamente foi a maneira mais clara de se mostrar descontente com o corte de gastos que a gestão do presidente Arnaldo Tirone, no cargo há menos de um mês, tenta impor. Não eram necessárias palavras. Bastava olhar para Scolari, que chegou a sair da concentração, para entender seu descontentamento.
Antes das eleições, o comandante, publicamente, não apoiou nenhum candidato, apesar de pessoas próximas a Paulo Nobre terem espalhado que Felipão pediu para o presidenciável se esforçar para ganhar as eleições e evitar uma drástica queda no orçamento para o futebol. Mas, nas entrevistas, o técnico sempre pediu união de todos os concorrentes em nome do clube.
Durante a gestão de Luiz Gonzaga Belluzzo, ele sempre lembrou que quem os responsáveis por seu retorno ao Palmeiras, em contrato acertado durante a Copa do Mundo de 2010, foram o ex-presidente e o ex-vice-presidente de futebol Gilberto Cipullo. A empatia do técnico com os antigos superiores era clara e irritava alguns dos então oposicionistas, hoje à frente do clube.
Mas a chapa vencedora do pleito sempre declarou, assim como as outras candidatas, que não mexeria na comissão técnica, ainda mais com um ídolo da torcida no comando. Scolari abriu o diálogo com a nova diretoria e tentou se adaptar ao que ele mesmo chamou de “novas ideias”. Em outras palavras, liberou a saída de atletas com salários altos, como Vitor, Tadeu, Lincoln e Maurício Ramos – os dois últimos seguem treinando no clube à espera de negociações.
Os problemas ficaram claros nas semanas seguintes à eleição. Chegaram aos ouvidos de Felipão comentários de conselheiros insatisfeitos com o alto salário que ele recebe. Defensor de gastos maiores com o futebol, o técnico contra-atacou tornando públicas suas exigências e disse ter repetido mil vezes a necessidade de um centroavante – sempre ouviu como resposta “não temos dinheiro”.
A ordem, porém, é eliminar o máximo possível e gastar apenas com o que é extremamente necessário. O treinador pediu um centroavante e ganhou Miguel, de 18 anos, da base palmeirense, exemplo da solução caseira e barata que seus superiores querem adotar para todos os problemas. O 9 só virá se a Traffic se mexer, o que já consideram improvável no clube, e boa parte de seu salário não sair dos cofres do Verdão.
Insatisfeito, Scolari, como sempre frisa, “se vira com o que tem”. E os líderes do elenco tentam, em suas entrevistas, afastar os jogadores da briga interna. “A gente não tem que se preocupar com isso. Nosso dever é treinar, jogar e tornar o Palmeiras grande, classificado pelo menos entre os oito no Paulista”, disse Danilo, um dos que Felipão teve de abrir mão – no segundo semestre, o zagueiro passará a defender a Udinese, da Itália.