Nascer com um dom especial é raro, mas nem sempre desperta tanta curiosidade como a do bebê Bryce Brites. Com apenas 20 meses de idade, o pequenino de cabelos louros e pernas espertas conseguiu atrair os olhares do mundo do futebol mostrando seu talento precoce.
Impressionado com a habilidade do garoto, o time Racing Boxberg, da Bélgica, anunciou em seu site oficial a contratação de Bryce por cinco temporadas. A certeza do talento do “atleta” veio após um teste simples e clássico: driblar cones estrategicamente posicionados.
“A forma como o Bryce finaliza a bola não se encontra em outras crianças de quatro ou cinco anos. O seu controle de bola é incrível para uma criança da sua idade”, elogiou Dany Vodnik, secretário do clube belgo.
Atual técnico do Brasiliense e experiente com categorias de base, Reinaldo Gueldini condena a atitude do clube belga. “A gente tem que respeitar as decisões alheias, mas acho que não se deve queimar etapas de uma criança. O imediatismo em alcançar resultados para ontem pode atrapalhar o desenvolvimento dela”, opina o comandante. “Quando o atleta mirim já está no juvenil, tudo bem. Mas criança? Ele é um bebê”, exclama.
Abismado com a notícia, Gueldini ainda procura possíveis justificativas para a contratação precoce de Bryce. “Às vezes o pai dele foi jogador e quis investir no filho cedo.”
Cotado para atuar no Sub-5 do Racing, Bryce será poupado até que tenha condições de disputar um campeonato. “Ele não jogará com os atletas de cinco e seis anos ainda. Precisamos nos manter cuidadosos”, garante Dany. Bryce ainda nem consegue falar a palavra “bola”, mas o futebol dele é tido como muito bom. Tanto que já treina com crianças maiores e tem na bolsa a carteirinha da Associação de Futebol da Bélgica.
“Crianças não precisam passar por isso”
Professor de futebol de salão de crianças de 4 a adolescentes de 17 anos, Márcio Pereira tem um elenco de mais de 400 alunos. Conhecedor do desenvolvimento necessário para garantir a evolução de todas as etapas que uma criança precisa para amadurecer, ele também discorda da atitude do clube belga.
“Não tem como saber se uma criança desta idade tem ou não talento para o futebol. Eles estão investindo a longo prazo por acreditarem que ela possa ser um talento precoce. Eu discordo. Crianças não precisam passar por isso. Elas têm que brincar.”
De acordo com ele, direcionar a criança para a prática do futebol profissional é errado. Por isso, incentiva a brincadeira entre os seus alunos, até que completem 13 anos.
“O meu aluno mais novo tem quatro anos. Tento desenvolver exercícios de mobilidade e coordenação motora, pois é o que uma criança precisa e é isto que vai fazer a diferença lá na frente, quando ele quiser se profissionalizar”, garante o profissional.