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Dior relê o look flamenco com madonas e toureiros em passarela efusiva na Espanha

Desde a eclosão da pandemia, Maria Grazia Chiuri passou a buscar técnicas de costura e os trabalhos raros dos artesãos

Por FolhaPress 28/06/2022 10h38
Desde a eclosão da pandemia, Maria Grazia Chiuri passou a buscar técnicas de costura e os trabalhos raros dos artesãos Foto: Reprodução

O propósito de Maria Grazia Chiuri no comando da Dior não é só atualizar e dar relevância às criações do fundador da marca francesa. Desde a eclosão da pandemia, a estilista italiana passou a buscar, em diferentes partes do mundo, técnicas de costura e os trabalhos raros dos artesãos que sofreram o impacto da crise econômica.

Os desfiles de cruzeiro da grife, um tipo de coleção intermediária entre as linhas principais apresentadas nas semanas de moda, se tornaram plataformas para essa varredura da produção mundial, que, aplicada ao luxo desenhado por ela, ganham vida e holofotes suntuosos. A última coleção do gênero acabou de ser desfilada em Sevilha, na Espanha, a pouco menos de duas semanas, no dia de Corpus Christi.

Para a apresentação no meio da praça Mayor da cidade, ela levou dançarinas de flamenco e uma orquestra regida por Alberto Iglesias, parceiro do cineasta Pedro Almodóvar em seus filmes desde os anos 1990. As roupas fundiram os códigos de Dior aos trajes de matadores, madonas e nobres da história local, trazendo o trabalho de estrelas do artesanato espanhol.

A começar pelos xales de Manila, a indumentária simbólica do sul da Espanha que, importada da Ásia nas rotas comerciais que fizeram trocas culturais com o Ocidente, virou traço tão importante da região quanto a influência muçulmana em sua história. Chiuri escalou o ateliê de María José Sánchez Espinar, epítome dessa arte tecida, para realizar o trabalho minucioso nos xales.

A “bar jacket”, uma das peças do “new look”, foi revista sob a ótica das jaquetas dos toureiros. O ateliê de Jésus Rosado, que borda com linhas de ouro e prata, alinhavou os fios na peça que ganhou visual eclesiástico, ampliando o repertório imagético dessa peça fundamental da cultura de moda.

Foto: Reprodução

O detalhismo também chegou aos acessórios. Os bordados de couro da bolsa “Saddle”, que recebe esse nome pelo seu formato de sela, foram costurados por Javier Menacho Guisado, nome proeminente do artesanato em couro feito na Andaluzia.

Compõem a imagem final de força dessas amazonas os chapéus do britânico Stephen Jones, criador de peças confeccionadas pelo ateliê local Fernández y Roche, especializado nos sombreiros de feltro que permeiam a coleção.

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Moram nesses detalhes a saga empreendida por Chiuri para construir suas coleções, um tipo de estudo raríssimo para uma casa de moda sediada na França.

Como num instinto de sobrevivência para preservar os próprios ateliês e se vender como única palavra do luxo mundial, o país costuma olhar pouco ou quase nada para o trabalho precioso escondido fora de seus domínios.

Quando Chiuri decide quebrar esse nacionalismo -em seu dicionário de “cruise” já couberam o artesanato do Marrocos, os ateliês da Apúlia, na Itália, e o trabalho dos artesãos gregos-, ela aponta os dedos para o tradicionalismo francês sem que, para isso, precise preterir seus símbolos.

Foto: Reprodução

É que, mesmo exaltando o trabalho dos artistas “de fora”, suas roupas ainda são Diors puros. Sob a perspectiva macro, estão ali os comprimentos mídi, a alfaiataria, os looks de inspiração helênica, as formas das “jaquetas bar” e, no caso desse “cruise” 2023 espanhol, uma referência aos volumes ampliados do vestido “Bal a Seville”, criação de Christian Dior datada de 1956.

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Com esse novo desfile, transformado em festa flamenca, Chiuri prova mais uma vez ser uma esteta perspicaz, que não se contenta em recriar roupas conservadas nos arquivos da marca, mas dar a elas o papel de protagonistas na reorganização das rotas econômicas machucadas pela pandemia.








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