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Além de roupa: Moda é social, ambiental e cultural

Conscientização acerca do consumo de roupas ganha espaço nos debates e na economia

Por Mayra Dias 14/09/2021 10h55

De uns anos para cá, pautas como sustentabilidade e meio ambiente estão cada vez mais frequentes. Diante dos últimos episódios ecossistêmicos, debates sobre o impacto da indústria e do consumo exagerado de bens chegaram até o mundo da moda. Dados trazidos pela pesquisa Possibilidades Para Moda Circular no Brasil – Padrões de Consumo, Uso e Descarte de Roupas, mostram que 97% das pessoas acreditam que o setor de vestuário está relacionado, e muito, com as alterações climáticas, assim como provoca impactos sobre o meio ambiente.

Essa maior percepção das pessoas quanto a relação da indústria da moda com as questões ambientais e climáticas, provada pelo levantamento feito pela mídia independente Modefica, a consultoria Regenerate Fashion e o Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (FGVces), é reflexo de uma busca maior por informação e a preocupação em ser responsável. “Diversas pesquisas mercadológicas mostram que os consumidores estão dispostos a pagar mais, se puderem, por marcas que estejam comprometidas com a sustentabilidade”, afirma a equipe do naoemoda, perfil no instagram engajado no tema. Isso porque, como eles ressaltam, uma marca perde público consumidor quando se envolve em polêmicas de cunho social ou ambiental.

De acordo com a mesma pesquisa, tal preocupação é o que influencia a decisão de 38,4% dos participantes questionados, que disseram estar dispostos a pagar até 30% a mais por produtos com responsabilidade socioambiental. “Com o crescimento do movimento Slow Fashion o despertar ecológico está mais presente nas pessoas, a moda sustentável tem ganhado forças”, acredita Elisa Amaral, publicitária e proprietária de um Brechó em Brasília.

Mercado de segunda mão

Com essa maior adesão da população ao consumo consciente, muitas estratégias e formas de tornar o meio um espaço mais sustentável têm surgido. Um exemplo disso é o expressivo aumento dos brechós, lojas destinadas à venda de peças usadas. Tal mercado, conforme um relatório de inteligência do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) já contemplava 10,8 mil micro e pequenas empresas em 2013. No ano de 2015, no entanto, esse número subiu para 13,2 mil, representando um crescimento equivalente a 22,2%.

Esse novo formato de empreender tem se tornado comum, inclusive, em Brasília. “Antigamente havia um tabu ao falar em brechós, que eram vistos apenas como ‘roupas velhas e fora de moda’. Hoje, esse conceito foi ressignificado, e as pessoas entenderam que peças usadas também podem ser grande tendência no universo da moda”, comenta Elisa.

Para a empresária de 24 anos, além de prolongar a vida útil das roupas, os brechós ajudam na redução da demanda de produção nas fábricas, diminuindo gastos com energia, água e na emissão de produtos químicos poluentes. “Tudo isso e ainda dar utilidade a peças que poderiam ser descartadas, mas estão ganhando novos ciclos, onde podem ser garimpadas, vendidas, doadas, consignadas e renovadas”, completou a jovem.

Criado em janeiro de 2020, o “O Brechó Delas” nasceu com o objetivo de colaborar na diminuição dos impactos negativos causados pela indústria da moda. “Além de vender roupas de segunda mão, usamos sacolas em papel kraft, as quais se decompõem mais rápido, e oferecemos descontos para as clientes que nos devolvem, podendo torná-las reutilizáveis também”, observa Beatriz Martins, que compõe o grupo de três brasilienses que administram a loja.

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Brechós, consumo de segunda-mão, troca de roupas e até mesmo o aluguel de peças são ações que, como pontua a equipe do naoemoda para o Jornal de Brasília, sempre existiram, mas o tabu que os cercavam os impediam de crescer.

“Eram vistas como escolhas feitas só por quem não tinha condições financeiras. Hoje, felizmente, há uma mudança nesse paradigma, mostrando que os brechós são uma boa opção para consumir roupas de qualidade, com um bom preço e sem estar estimulando grandes produções de novas roupas”, desenvolve o grupo formado pelo publicitário Gabriel Coutinho e a designer de moda e stylist Rafaella Parma.

Além desse modelo de garantir uma nova história para uma peça de roupa, outras técnicas sustentáveis têm caído no gosto popular. É o caso do upcycling, esquema que propõe o reaproveitamento de objetos de forma criativa e respeitosa. “É, basicamente, transformar peças de roupas em outras, muitas vezes com funções diferentes daquela original. Ela proporciona uma segunda vida às roupas, evitando que a mesma seja descartada”, esclarecem Rafa e Gabriel. No DF, o 261 Brechó é um dos inúmeros adeptos da ferramenta. “Já transformamos jaqueta em saia, calça em blusa.. É mágico ver quantas possibilidades existem em um único pedaço de tecido”, declara Nathália Dias, dona da loja que funciona em formato online.

A empresária compartilha que, as peças transformadas, são as que mais fazem sucesso entre as clientes. “As pessoas ficam maravilhadas quando descobrem que aquela peça, totalmente nova, que ela está adquirindo, era antes algo diferente. Essa é uma maneira orgânica de mostrar para as pessoas que há como ter coisas lindas e novas sem precisar ir ao shopping e pagar preços bem mais altos para ter uma jaqueta, por exemplo”, diz a designer de moda. Nathália acrescenta ainda que, um diferencial trazido pela técnica de reutilização é a possibilidade de ter algo único e exclusivo. “Só você terá aquela roupa. É algo seu, único. Isso torna aquela vestimenta ainda mais especial”, finalizou.

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Quais impactos são esses?

O Brasil é, hoje, o 5º maior produtor têxtil e o 4º maior confeccionista do mundo. Ainda segundo o material trazido pela plataforma de moda e comportamento transdisciplinar, Modefica, o país comporta cerca de 25,2 mil empresas no setor (IEMI, 2019), sendo a grande maioria, aproximadamente 96,8%, composto pelas micro e pequenas empresas (ABIT, 2017). O funcionamento destas, por sua vez, seguem um padrão: as fases de produção são divididas em corte, costura, lavagem do jeans e estampa.

É justamente esse modelo de trabalho que alimenta o chamado “Fast Fashion”, modelo de negócios que cria moda em uma velocidade extremamente rápida, visando massificar e popularizar diversas tendências que, geralmente, vêm das marcas de luxo. “Esse modelo acaba gerando muito lixo, por serem peças muito baratas e ‘temporárias'”, comenta a dupla do naoemoda, se referindo a qualidade inferior das peças que, devido a demanda, são produzidas com uma menor preocupação com a qualidade.

Devido a isso, a indústria de vestuário é uma grande consumidora de recursos naturais, e esse uso vai desde o consumo de água na hora de produzir novas roupas, o descarte destas, que acabam sendo incineradas ou indo para aterros, e a produção de matéria-prima, como o algodão, que utiliza enormes quantidades de pesticidas, altamente prejudicial ao solo e água. “O setor de moda é a segunda maior consumidora de água. E com a fast fashion, as peças são produzidas em um ritmo tão grande que são usados muito mais recursos naturais e insumos químicos para a fabricação das roupas”, expõe Gabrielle Vieira, gestora ambiental e terceira integrante do O Brechó Delas.

Consoante a isso, a empreendedora destaca ainda que o descarte da indústria, dado o ciclo de vida curto das coleções, é imenso e, anualmente, em torno de US$ 500 bilhões são perdidos com o descarte de roupas nos aterros. “Para se ter uma ideia, na criação de peças, 25% de tudo que é produzido vira lixo, isso sem falar no seu descarte, onde praticamente nada tem sido reaproveitado”, reforça a moradora de Taguatinga.

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É contra a disseminação do Fast Fashion, que surge, então, o famoso “Slow Fashion”. “Ao contrário dele, o slow fashion é algo muito mais lento, que preza por uma qualidade maior, uma rapidez menor e mais cuidados nos processos”, explica os administradores do perfil naoemoda. “Moda precisa ser sustentável. Isso é uma responsabilidade que marcas, designers e consumidores devem assumir em todos os seus processos e relacionamentos com ela”, defende os influenciadores.

Pequenas atitudes que ajudam

Para contribuir com a causa, não é necessário ter uma empresa grande ou trabalho no ramo da moda. Ações e escolhas do dia a dia podem influenciar, de modo considerável, a redução dos efeitos advindos dessa indústria. Como formas de engajar a causa, Gabriel e Rafaella citam a importância de se optar por peças de segunda mão, assim como produtos de materiais biodegradáveis. “Mas acima de tudo, acredito que a redução do consumo de moda é algo que muda muito a realidade, como pensar duas vezes antes de comprar de forma compulsória e desnecessária”, avalia a equipe.

Outra atitude que tem surgido com bastante frequência nos debates quando o assunto é “o que eu, consumidor, posso fazer?”, é a adoção do ‘Armário-Cápsula’, um mini guarda-roupas composto por aquelas peças que você mais gosta e que são versáteis, ou seja, fáceis de combinar com outras. “Quando se pretende montar um armário dentro desse conceito, aquele velho hábito que temos de ‘ah, vou guardar esse vestido porque talvez um dia eu use’, não tem vez. A ideia aqui, é você ter somente aquelas peças que você ama e que tem certeza que vai usar”, adverte Nathália Dias.

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A empresária reconhece que, no início, é difícil desapegar de certos itens mas, com o passar do tempo, a consciência de que outra pessoa poderia estar usando aquela peça enquanto você a mantém guardada toma de conta, e fica cada vez mais natural filtrar o que cabe ou não no seu armário. “Conforme começamos a desapegar, você percebe que alguns itens não fizeram falta e estavam ali apenas ocupando espaço. Sem contar que saber que, agora, aquela peça que você vendeu ou doou está fazendo parte da história de outra pessoa é muito inspirador”, manifesta a dona do 261. As vantagens dessa prática são inúmeras. “Menor necessidade de espaço, economia de dinheiro e menos lixo têxtil”, são alguns exemplos que a empreendedora cita.

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