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Moda e Beleza

Semana de moda cearense completa quase 30 anos e busca renovar tradição

Parte oficial do calendário que comemorou o tricentenário de Fortaleza, o DFB voltou às origens e reocupou a região da Praia de Iracema

Redação Jornal de Brasília

17/06/2026 13h34

dragao fashion brasil

Foto: Reprodução

FORTALEZA, CE (FOLHAPRESS)

Em um final de tarde deste final de semana, Lino Villaventura montou passarela na Ponte dos Ingleses, cartão postal do século 19 que avança sobre o mar de Fortaleza, para apresentar coleção iluminada no último dia de Dragão Fashion Brasil Festival, o DFB, deste ano.

Suas tradicionais nervuras remetiam a cristais de gelo e patchworks reproduziam ramificações de sistemas fractais. Desfilando pela primeira vez à luz do sol, o dramático estilista que é paraense de origem, mas cearense na carreira de mais de 50 anos mostrou faceta bem diferente do que acostumamos a ver nos desfiles durante o SPFW. E resumiu bem o que foi a temporada nordestina de moda, que propôs uma reflexão entre a cidade, a natureza e o material humano tão típicos do Ceará.

Parte oficial do calendário que comemorou o tricentenário de Fortaleza, o DFB voltou às origens e reocupou a região da Praia de Iracema. Foi ali que, em 1999, o produtor Cláudio Silveira decidiu que o Ceará tinha algo a dizer para além do que era exibido no eixo Rio-São Paulo.

Tocando uma semana de moda quase tão antiga quanto os eventos do Sudeste, Cláudio acompanhou os olhares que, nos últimos anos, se voltaram ao que é produzido no Nordeste. Mas gosta de manter a verve combativa do seu evento, no qual estilistas não-nordestinos são exceção.

“Hoje, a nossa luta é outra. Toda vez que a moda brasileira finge que só existem dois ou três sotaques, todos sofremos uma espécie de apagamento. Seguimos gritando por respeito pela moda autoral, pois é a partir dela que a indústria se renova”, diz.

Historicamente, Iracema concentra parte significativa da produção cultural fortalezense; e, entre a praia, os bares e os registros memoriais dos pescadores abolicionistas do século 19, tem tentando atrair novamente a parcela jovem da cidade, que está na lista de capitais criativas da Unesco desde 2019.

Por isso, os 40 desfiles da semana de moda local, todos gratuitamente abertos ao público, passaram a dialogar também com a história e arquitetura, a memória urbana do bairro —e não apenas com a estrutura técnica das arenas montadas ao lado do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.

A decisão de colocar a moda em contato físico com o território que a inspira teve consequências estéticas reais. Seja nos desfiles que ocuparam a rua dos Tabajaras, como de Silvânia de Deus, que mantém loja ali há 27 anos; ou no que comemorou a carreira de Jô de Paula, cofundadora da Catarina Mina e que também ajudou a desenhar coleção de roupas feita por artesãos ligados à Ceart (Central de Artesanato do Ceará), importantíssimo polo de fomento local.

Apesar dos nomes veteraníssimos, o DFB tem como um dos seus propósitos declarados funcionar como celeiro de novos talentos, o que lhe rende uma tensão estrutural. Quanto mais marcas estreantes e independentes são incorporadas ao calendário, maior o risco de diluição. O paradoxo é que, à medida que mais criadores passam a reivindicar os mesmos signos de identidade, arrisca-se transformar diversidade cultural em repetição visual.

A coerência temática, uma das forças do festival, arrisca também funcionar como câmara de eco. Boa parte dos desfiles giraram em torno dos mesmos eixos artesanato regional, materiais naturais, paletas de terra e bege, silhuetas fluidas ou volumosas, com enraizamento sertanejo ou litorâneo. Eixos que constituem uma gramática visual reconhecível e legítima, nada dispensável, que distingue a produção cearense e nordestina da moda de outros centros. O problema é quando a gramática se torna o ponto de chegada, e não o ponto de partida.

É aí que se sobressaem nomes como David Lee, um dos nomes mais reconhecidos da nova geração fortalezense, que operou com sofisticação ao traduzir o imaginário dos festejos sertanejos em peças que combinam bordados e crochês florais a modelagens descomplicadas e ao incluir, com crédito visível, o trabalho do artesão André Cardoso nas peças de couro com arabescos que pontuaram a coleção.

A jovem Patú, que surgiu em 2021 falando sobre a estética familiar do sertão cearense e seus tons de linho marrom, declaradamente quis perverter o que se poderia esperar do seu desfile de estreia, um dos melhores da temporada: homenageou o compositor Ednardo e reconstruiu o seu imaginário de moda com tecidos naturais, texturas fluidas feitas à mão e alfaiatarias amplas.

Outra estreante no DFB, a Studio Orla tornou-se hit local na sua primeira década de vida. Primariamente focada no público masculino, foi rapidamente adotada pelas mulheres o que se refletiu no desfile maduro, repleto de soluções contemporâneas nos usos de texturas e dos bordados manuais. Assim como Gabriela Fiuza, especializada em crochês feitos com fios de seda que resultam em construções elegantes e pouco triviais.

A iniciativa Mãos da Moda, parceria da plataforma Nordestesse com o Riachuelo Lab, na sua primeira edição, foi talvez o projeto mais estruturalmente interessante do festival. Oito criadores, seis da Bahia e duas da Paraíba, trabalharam durante seis meses com mais de 60 artesãos para criar coleções integradas.

O resultado, apresentado nos três últimos dias do festival, foi heterogêneo. Em alguns casos, como na parceria de Adriana Meira com a Associação de Mulheres Quilombolas Artesãs de Barra, Bananal e Riacho das Pedras, o diálogo entre design autoral e artesanato de crivo rústico produziu algo genuinamente novo. Em outros, o artesanal parece ter servido como ornamento sobre propostas já definidas.

A diferença entre esses dois modos de colaboração é a diferença entre troca e curadoria um problema que sempre ressurge quando a moda resolve adotar o handmade nacional, especialmente o da região Nordeste. Questão semelhante paira sobre o próprio DFB Festival, que beira os 30 anos.

O desafio agora não é apenas dar visibilidade à moda nordestina, mas como transformar um repertório cultural já consolidado em plataforma para experimentação, não apenas em selo de autenticidade. Os desfiles mais interessantes desta edição foram justamente aqueles que não tomaram o repertório regional como resposta pronta; em que artesãos e criadores produziram algo que nenhum dos dois faria sozinho. É aí que a moda e a tradição encontram a sua capacidade de renovação.

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