O dia começa cedo e termina tarde na chácara onde vivem mais de 120 animais resgatados. Entre miados, latidos e pedidos constantes por atenção, a rotina é intensa — e, muitas vezes, solitária. À frente do abrigo 50 Tons de Gatos, em Ibiúna (SP), está Patrícia Rena, que há mais de uma década dedica a vida ao resgate e cuidado de animais abandonados.
“Desde criança eu sempre gostei de animais. Sempre cuidava dos bichinhos da rua”, conta.
A história do abrigo, no entanto, se mistura com uma trajetória pessoal marcada por violência, recomeços e resistência. Patrícia começou a resgatar animais em 2009, após deixar um relacionamento abusivo. “Foi uma história muito pesada e sofrida”, resume.
De volta a São Paulo, na casa da mãe, os primeiros resgates começaram com três gatos. Um deles estava prenhe. A partir dali, ela passou a cuidar, castrar e doar os animais. Com o tempo, o trabalho cresceu — e também os desafios.
No bairro do Butantã, Patrícia chegou a abrigar cerca de 200 gatos em uma casa adaptada. “Eu mandei telar tudo para não ter rota de fuga”, lembra. No local, as visitas eram permitidas e as adoções aconteciam com mais facilidade.


A realidade mudou quando o aluguel aumentou e ela precisou deixar o imóvel. A alternativa veio com uma chácara em Ibiúna, onde vive atualmente. O que parecia uma solução acabou trazendo novos obstáculos.
“Vim para cá com 50 gatos e seis cachorros. Hoje estou com 90 gatos e 36 cachorros”, conta.
O aumento no número de animais não aconteceu por acaso. Segundo ela, o abandono é frequente na região. “As pessoas jogam os gatos por cima do alambrado e amarram os cachorros nas árvores do lado de fora.”
Rotina intensa e custos altos
Manter o abrigo exige esforço físico, emocional e financeiro. Sem apoio do poder público ou de grandes organizações, Patrícia depende de doações e de trabalhos informais para sustentar os animais.
“É a única renda. Eu faço faxina em chácaras. Cada faxina eu cobro R$ 300, mas não é toda semana que tem”, explica.
Além disso, ela já tentou complementar a renda com vendas, mas precisou interromper as atividades por questões de saúde. Hoje, conta com a ajuda pontual de doadores.
“Um doa R$ 200 por mês, outro doa R$ 100, e os outros ajudam com o que podem”, diz.
Mesmo assim, as contas não fecham. O consumo diário ultrapassa 20 quilos de ração, somando gatos e cachorros. Em momentos mais críticos, Patrícia afirma que precisou recorrer a empréstimos para alimentar os animais.
“Já peguei dinheiro até com agiota para poder alimentar eles.”
Animais com necessidades especiais
Entre os resgatados, há também casos que exigem cuidados específicos. Três gatos precisam de ração especial para problemas renais, e um cachorro idoso, de 16 anos, vive com Alzheimer e artrite.
“Mas eles vivem todos juntos”, afirma.
Apesar das dificuldades, Patrícia garante que os animais recebem atenção e carinho. Muitos dormem dentro de casa, alguns até na cama com ela. “Eles não ficam para o lado de fora, principalmente à noite.”
Falta de apoio e dificuldade para adoção
Outro desafio é a ausência de políticas públicas na região. Segundo Patrícia, não há suporte efetivo para castração ou controle populacional de animais.
“Aqui na cidade a zoonose não ajuda em nada. Não tem castração. As ONGs grandes pegam todas as vagas”, critica.
Além disso, o perfil da população local dificulta a adoção. “Aqui é mais comum abandonar do que adotar.”
Como ajudar
Sem apoio fixo, o abrigo depende diretamente da solidariedade. As doações são usadas principalmente para compra de ração, medicamentos e cuidados veterinários.
Os interessados em ajudar podem entrar em contato pelo perfil no Instagram:
50 Tons de Gatos