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Como perdoar alguém pode fazer bem para o corpo e a mente

A psiquiatra Malu de Falco explica melhor que, perdoar alguém está associado a um movimento de autoconhecimento

A psiquiatra Malu de Falco explica melhor que, perdoar alguém está associado a um movimento de autoconhecimento Foto/Reprodução

“Perdoar é uma decisão que você toma todos os dias, por muito tempo, até que isso se desprenda a um processo em que você perdoe, de fato”, define a psiquiatra Malu de Falco. Muito mais do que aceitar um pedido de desculpas, perdoar alguém está associado a um movimento de autoconhecimento, onde é preciso refletir sobre o acontecimento, transformar a mágoa em compreensão e, muitas vezes, perdoar a si mesmo para poder seguir em frente.

Não, não é uma tarefa fácil e, para alguns, pode levar anos até que seja realizada. Mas, uma vez alcançado, o perdão pode transformar a sua vida – e sua saúde. Isso quem diz é a ciência. De acordo com o Journal of Health Psychology, o perdão é associado a vários resultados positivos na saúde mental, incluindo uma diminuição da ansiedade e depressão, além de uma melhora da saúde física em geral, com menores taxas de doenças cardiovasculares, redução da pressão sanguínea e avanço do sistema imunológico.

A psiquiatra explica que o estresse, o rancor e a angústia afetam negativamente nosso corpo, fazendo com que haja uma liberação de cortisol – e quando esse hormônio aumenta, o corpo entende que está prestes a sentir raiva. Isso faz com que aconteça um aumento dos hormônios do estresse, como a adrenalina e a noradrenalina, e consequentemente uma inflamação do corpo. “De repente vem a pressão arterial, a pessoa começa a sentir dores, a ter problemas de saúde”, explica Malu.

No caso da arquiteta Baby Abdalla, que aos 17 anos teve de lidar com a separação dos pais e a presença do novo namorado da mãe em casa, as mudanças foram perceptíveis também em seu comportamento. “Muitos amigos me chamavam de ‘esquentadinha’ porque o que eu estava sentindo afetava a minha forma de agir. Comecei a ser muito séria, muito seca. Mas não era pessoal, eu não atacava as pessoas porque elas mereciam, mas sim porque eu estava machucada”, conta. Somente aos 21 anos, depois de muita conversa, reflexão e algumas broncas de amigos, ela conseguiu perdoar a situação.

“Eu fui entendendo, aos poucos, que aquilo estava fazendo mal pra mim. Era eu que estava me isolando, me trancando no quarto”, conta. Aos poucos, ela foi se dando conta de que o problema estava afetando seu corpo, inclusive com dores na coluna. “Percebi que a minha mãe estava mais feliz. Demora para a gente entender que ninguém nasceu grudado e que é preciso fazer o que for necessário para ser feliz, mesmo que afete as pessoas ao redor.”

Hoje, Baby se sente mais leve em relação ao relacionamento da mãe, e leva o aprendizado desse tempo. “Não tem como eu contar a história da minha vida sem contar essa parte. Foi algo que realmente mudou muito a forma como eu sou. Comecei a observar mais, a julgar menos, a me autoanalisar”, diz.

Foto/Reprodução

Perdoar não é esquecer

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O perdão envolve reparação, por isso não é sinônimo de esquecer. Ele pode ser comparado a um ato de amor, pois diz muito mais a respeito de você do que do outro e exige uma transformação interna. Na verdade, é exatamente assim que o budismo vê essa questão.

“O budismo não fala em perdoar, porque isso é você se colocar numa posição acima do outro. ‘Eu perdoo você que errou’. Nós trabalhamos com compaixão. Então é falar: ‘eu ser humano, semelhante a você, que conheço dificuldades e problemas que nós possamos ter na vida, me reconheço em você e te compreendo. Eu posso não aceitar aquilo, mas eu não condeno a pessoa, eu condeno o ato”, explica Monja Coen.

Ela explica que para chegar a esse nível de compreensão é preciso conhecer profundamente a si mesmo. “Na hora em que você entra no processo de autoconhecimento, você pode fazer escolhas desse ser que não só você conhece, mas em que você está se transformando. O autoconhecimento não é dizer ‘eu sou assim’. Mas perceber que tem aspectos em mim que podem ser mudados, e eu vou trabalhar para mudar”, explica.

E se o autoconhecimento pede por uma intensa observação interna de ações – incluindo o arrependimento e a transformação – e dos sentimentos sentidos, somente podemos falar do autoperdão. Algo que, para os especialistas, é o primeiro passo do longo e complexo processo de perdoar. “Quando você decide perdoar o outro, algumas características sobre você vêm à tona. Uma questão de autoconhecimento, sobre até onde eu consigo ir pelo outro e de ter conhecimento dos próprios limites”, diz Malu.

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Acolher e entender

Isso exige de quem está perdoando um alto grau de empatia, porque é preciso se acolher e entender que se trata de um processo dolorido, que envolve raiva, dor e questionamentos. “É preciso também um entendimento de quais são as suas necessidades físicas e emocionais durante o processo”, explica a psiquiatra.

Quando quem está perdoando entende seus processos internos, fica mais fácil analisar a situação. O passo seguinte é refletir: será que um especialista vai ajudar a lidar com outros ressentimentos? “Parece muito simples sentir, mas na verdade é bem complexo. Saber que você está com raiva, entender porque algo a machucou, é essencial para permitir que esse processo aconteça. E quem consegue atingir esse nível de autoperdão tem mais facilidade de oferecer o perdão ao outro”, diz a psicóloga Camila Puertas.

“É fácil? Não, mas é um processo. Um processo possível. E é o autoconhecimento que nos liberta”, garante Monja Coen.

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Dicas que podem ajudar no processo de perdoar

Reflexão

Pode ser pela escrita, pela meditação, ou com conversas profundas. Criar um processo para entender os sentimentos as consequências dos atos dolorosos para a sua vida e para sua relação com a pessoa que pediu perdão são essenciais. “A gente acredita que o zazen, a prática da meditação sentada, dessa auto-observação, nos faz perceber quais são os mecanismos da mente humana e como podemos usar isso de forma mais adequada”, diz Monja Coen.

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Paciência

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O tempo é o melhor remédio. A compreensão da situação como um todo exige um olhar mais calmo, mas muitas vezes estamos no meio do furacão. Por isso, paciência e um pouco de distanciamento é ótimo. “Você sabe que perdoou uma situação quando olha para aquilo e não sente algo negativo. Evidente que não vai sumir de um dia para o outro, mas tende a diminuir”, diz a psicóloga Camila Puertas.

Arrependimento

Para quem machucou o outro, é importante levar em consideração que não adianta somente pedir perdão. O primeiro passo é o arrependimento e a percepção de que houve uma falha. Não se trata de dizer palavras bonitas e seguir em frente. Também é importante entender por que aquele ato foi cometido e o que você pode fazer para se redimir.

Compreensão

Nem sempre é fácil, mas ao decidir perdoar alguém, entender sua cultura, vivência e os motivos que o levaram a fazer algo que merece perdão podem ajudar. “Exigir uma mudança do outro é algo muito sério. Ao se relacionar, é preciso ter a compreensão com o outro”, indica a psiquiatra Malu de Falco.

Estadão Conteúdo.








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