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O grafiteiro das galáxias

Arte no distanciamento com Pedro Sangeon

Grace Perpétuo

Publicado

em

O grafiteiro das galáxias
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O grafiteiro brasiliense Pedro Sangeon — ou Gurulino, como muitos se referem a ele, na esteira do popularíssimo personagem que criou — é uma pessoa essencialmente consciente do que há de bom e de mau no mundo. “Estamos sendo sabotados profissionalmente e destruídos como cultura, diariamente, por políticos reacionários, dogmáticos, com viés fascista, enquanto cumprimos quarentena”, desabafa Pedro, antes de admitir, porém, que é preciso sempre “lembrar dos privilégios básicos que tenho — casa, comida e chuveiro quente, que a maioria da população não tem — e me sentir grato por isso”. Este é Pedro: questionador e grato; inquieto, criativo, zen, espiritual, sempre em busca de fazer de sua arte tão afetiva — que há anos estampa os muros de Brasília — uma forma de “ajudar a melhorar” o mundo. De certa forma, Gurulino traduz tudo isso: evoca paz em quem o contempla, mas sobretudo faz pensar, provocando o espectador com eterna doçura — um arauto da shantileza, como diz o artista. Basta dar uma volta por Brasília para atestar este fato.

Este é um momento diferente de tudo o que já vivemos coletivamente até agora. Como você está se sentindo?

Acredito que estou me sentindo como a maioria das pessoas que vivem parecido ou com as mesmas condições sociais: dias estáveis seguidos de dias de desânimo e desolação, seguidos de respiros de esperança e força criativa e volta pro começo.. e é claro, um cansaço generalizado, por seguirmos em pandemia sem data pra sair.. é um momento duro.

Ainda assim, relembrar diariamente em que país difícil e desigual vivemos; lembrar dos privilégios básicos que tenho — casa, comida e chuveiro quente, que a maioria da população não tem — e me sentir grato por isso. E, a partir daí, tentar ajudar a melhorar a situação com o meu trabalho de arte.

Nesse contexto, qual o seu maior desafio pessoal? A pandemia levou você a mudar alguma coisa essencial em si ou em sua arte?

O maior desafio é sem dúvida manter a cabeça no lugar e dosar a quantidade de informações — e desinformação — sobre a barbárie política atual em meio a uma pandemia sem vacina. A destruição de tantas conquistas sociais na arte, na educação, nas políticas públicas, no respeito à natureza; o combate ao racismo estrutural e às diferenças de classe — isso tudo em meio a uma pandemia mundial que nos impõe muitas restrições afetivas… com certeza, passar por isso com saúde mental é o maior desafio.

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Ilustração: Pedro Sangeon

Como está a sua rotina? Começou a fazer algo novo? Aprendeu alguma coisa diferente? O quê?

Meu foco principal é aprender a lidar com o q ue está acontecendo no momento: pandemia + governo com política anti-cultura . Estamos sendo sabotados profissionalmente e destruídos como cultura, diariamente, por políticos reacionários, dogmáticos, com viés fascista, enquanto cumprimos quarentena. O FAC está parado; a Biblioteca Nacional está parada. Nossos projetos já aprovados há muito tempo não recebem verba porque esses órgãos não funcionam e ninguém consegue trabalhar.

Um dia, no final de junho, seguindo à risca todo o protocolo da pandemia, saí para pintar um mural na rua, com o intuito de trazer um respiro de arte para a cidade, como faço há mais de sete anos — e como sou reconhecido pelas pessoas de Brasília. Fui abordado violentamente pela polícia. Não pude nem sequer dizer o meu nome. Fui agredido verbalmente e com truculência física. Não pude falar; pegaram meus documentos, tomaram meu celular; tiraram a identificação do uniforme. Fui levado para a delegacia, onde fui preso, algemado a uma barra de ferro, obrigado a ficar sem roupa e fazendo flexões enquanto eles riam. Fui xingado, ameaçado e humilhado por polícias pró-governo. Repetiam o tempo todo que, se eu fosse “bolsonaro”, o tratamento seria outro. Fiquei sem direito a usar máscara, sem celular, sem roupa, algemado, em uma cela trancada. Me chamaram repetidamente de “comunista vagabundo financiado por sindicatos de esquerda”.

Isso durou mais de quatro horas na cela, em uma delegacia do Paranoá, sem que nenhuma pessoa, amigos ou familiares soubessem do meu paradeiro.

O que aprendi com isso? Que precisamos ser fortes, falar sobre o que está acontecendo e deixar claro, para aqueles que escolheram o governo atual, o que vem acontecendo com os artistas da cidade — e que precisamos urgentemente nos manifestar, votar com mais clareza, consciência e bom senso.

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Passei por essa situação absurda no mesmo mês em que recebi oficialmente o reconhecimento do meu trabalho pela Secretaria de Cultura do DF com um prêmio de arte e cultura pelos meus serviços de grafitti para a cidade. O que me deixa atônito. Alguma coisa muito errada e sombria está acontecendo no coração das pessoas. Isso precisa mudar.

De volta à pandemia: como o distanciamento tem impactado o seu processo criativo e o seu trabalho? Está sendo profissionalmente desafiado?

Sim, está sendo muito desafiador. Tenho certa vantagem porque há anos venho construindo um braço de trabalho pela internet com o público — e em cinco anos consegui construir uma comunidade muito linda com meus seguidores. Somos muitos e tenho muito a agradecer ao apoio desses admiradores e fãs que estão me apoiando literalmente para que eu consiga me manter na ativa e desenhando para eles.

Criei uma campanha de apoio coletivo virtual e meus seguidores estão apoiando a partir de 1 real. Uma quantia insignificante mas que, pra mim, se conseguirmos somar muitos apoios, pode significar a continuidade da minha atividade artística no momento.

Ilustração: Pedro Sangeon

Você desenvolveu algum outro projeto alternativo?

Criei duas vias durante a pandemia. Uma campanha no Apoia.se (apoia.se/gurulino) por meio do qual recebo apoio — e temos planos de logo fazer um clubinho, com lives e materiais para os apoiadores. E criei uma promoção de quarentena que se chama Quarentena do fim do mundo: pinto aquarelas a partir dos posts do meu feed no Instagram à um preço reduzido super bacana. As pessoas estão adorando — e eu também.

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O que você acha que vai ficar — de bom e de ruim — quando este momento de pandemia passar?

É difícil dizer quando vivemos uma situação inédita e para a qual ainda não temos uma perspectiva concreta de desfecho.

Acho que as lições precisam ser tiradas agora. Precisamos atuar agora da maneira como gostaríamos de atuar no futuro.

Precisamos refletir e atuar agora — sobre o quanto a minha vida, minhas ações, meus preconceitos, meus medos e minha ignorância estão contribuindo para piorar ou melhorar não só a minha vida, mas ajudando para que os outros também possam melhorar a vida deles à maneira deles, sem destruir, prejudicar ou ofender o que é diferente.

Logo, ao final de tudo isso, veremos o quanto estamos melhores e mais capazes, fazendo e atuando de forma muito mais generosa e humana que antes. Assim pretendo caminhar.

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Ilustração: Pedro Sangeon

SERVIÇO
Pedro Sangeon e Gurulino
no site: gurulino.com.br
no Instagram: www.instagram.com/gurulino




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