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NORDESTINOS CONTRA O REI

Nem só de Roberto Carlos viveu a MPB durante a décadas-1970

Por Gustavo Mariani 03/12/2023 10h19

Entre 1965 e 1968,  música popular brasileira-MPB foi dominada pelo iê-iê-iê dos ingleses The Beatles, deixando em situação difícil até nomes como Luís Gonzaga, o “Rei do Baião”, e Jackson do Pandeiro, só para citar dois. Mas mesma rapidez que fez  cantores e conjuntos de cabeludos proliferarem sumiu com eles.

Em 1969, enquanto Wanderléa, Renato e Seus Blue Faps, Leno e Lílian, Jerry Adriani, etc perdiam espaços, Erasmo Carlos ganhou novo fôlego “Sentado à beira do caminho”. No entanto, esperando por ele na curva, estava o Trio Nordestino, isto é Lindu |(líder), Cobrinha e Coroné. Os três estavam pelas noites cariocas, quando encontraram-se com o compositor (também nordestino) Antônio Barros, que prometeu-lhes uma  música para incomodar. Na época, era comum autor oferecer parceria a radialista, pra garantir a divulgação de sua composição.Mas nem seria preciso, pois a letra do Barros – parceirizada com o baiano Jota Luna – agradou tanto que, do Nordeste, espalhou-se pelo país e incendiou o Departamento Artístico de músicas regionais da gravadora CBS;

Por ali, enquanto o Roberto Carlos contava em ‘Detalhes” as dores de cotovelo da sua pós-Jovem Guarda,  com versos românticos para jovens adolescentes apaixonados –  “… na moldura não sou em que lhe sorri…” -, Antônio Barros lembrava-se de uma sertaneja nordestina da qual escutara reclamar  do filho: “Menino, onde tu tava; onde tava tu; eu procurava tu”. Achou engraçado o nó que a mulher dava no idioma e mandou ver “Morena diga onde tu tava/Onde tu tava/Onde trava tu…”, pra contagiar até o sofisticado público de boates paulistanas. Resultado: “Procurando tu” foi parar no topo das paradas de sucesso, deixando Roberto Carlos para trás, durante um bom tempos, até o Lindu sofrer um acidente automobilístico e o trio ter de parar  e esperar pela sua recuperação do seu líder, o que vários meses.

Para não perder o embalo no demorativo sucesso, outras gravadoras lançaram regravação – uma com o ator gaúcho Ângelo Antônio, que fazia sucesso com a novela global “Primeiro Amor” , já em 1972, e outra com Jackson do Pandeiro. Mas a brasa queimava mesmo era a voz do Lindu, principalmente, em Serra Pelada, o maior garimpado do planeta, no Pará.

Ali pelo primeiro semestre da década-1970, Roberto Carlos seguia sendo o maior vendedor da gravadora CBS,  com vertente totalmente romântica e contando, também, com estratégias de marketing como o lançamento do seu terceiro e último filme cinematográfico – A 300 KM por Hora – que lotou cinemas, além dos especiais de Natal, de grande repercussão e que viraram uma tradição da TV Globo, a partir de 1974. Mas música de 1973, como “Rotina, Proposta, O Moço Velho, Atitude, O Homem, Palavras” e sete versões regravadas, em 1974, não chegavam a comover. Com a brecha aberta, Antônio Barros voltou a atacar, com sucesso que chegou perto de “Procurando Tu”. Daquela vez, com “Os Três do Nordete” –  Erivan, o Mestre Zinho (vocalista); Zé Pacheco (sanfoneiro) e Parafuso (zabumbeiro) – arrasando com “È Proibido Cochilar”. Fizeram tanto sucesso pelo Norte/Nordeste e entre os nordestinos em São Paulo que chegaram a inaugurar algo hoje comum, antes impensável: cancelamento de rodada de futebol em estádio, para show do grupo. Por ali, ninguém queria ouvir Roberto Carlos nas rádios nordestinas ou nas paulistanas ouvidas por eles. Além de uma composição de Domiguinhos/Anastácia – “Eu só quero um xodó” -, na voz de Gilberto Gil, agradar muito mais, até a pretensa intelectualidade nacional – hoje, tem mais de 400 regravações.

Roberto Carlos havia emplacado grandes sucessos na década-1970, como “Além do Horizonte e Quando as crianças saírem de férias”, ente outras, mas lançamentos tipo “Você em minha vida; A menina e o poeta; Os seus botões; Dia-a-dia e Pelo avesso” não comoviam. Pelo Nordeste, abria caminho para Messias Holanda cantar  a maliciosa “Mariá” – “Eu preciso desta colcha/Abra a colcha/Bote a colcha pra lavar” – e passar seis meses em hotel de luxo da capital paulista, divulgando a música, de Elino Julião, que fez sucesso, também, com a brincadeira “Rabo do Jumento” – “Eu não quero pagamento, Nascimento/Eu quero é outro arbo do jumento” e  “Cofrinho do Amor’, este vendendo 700 mil discos, só menos do que Roberto Carlos, mas ete já em 1978, quando os maiore sucessos do “Rei” foram “Força Estranha; Música Save e  “Café da Manhã – faixas como “Todos os meus rumos; Fé; Mais uma vez; Vivendo por Viver, Tente esquecer e até Lady Laura (em homenagem a mãe) não fizeram ninguém “tirar o escorpião do bolso”. como brincava-se, na época, ao falar em grana.

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Mas fiquemos pela década-1970, ainda. Por 1975, quando Roberto Carlos cantou “ O quintal do vizinho; Amanheceu; Existe algo errado; Elas por elas; Desenhos na parede. Seu corpo” e versões de antigos sucessos “cucarachas”. “Além do Horizonte” emplacou, pois as regravação do seu maior sucesso – “Quero que vá tudo pro inferno” – foi completa bola fora. Quem bateu na rede foi o paraibano Genival Lacerda, com “Severina Xique-Xique”, que vendeu 250 mil compactos (vinil) simples; 350 mil duplos e 1,2 milhão  de LPs. História interessante,

Certo dia, o compositor paraibano João Gonçalves acompanhava o cantor cearense Messias Holanda em shows pelo interior da Bahia, quando engraçou-se pela garota Adelice. Agraciou-lhe com uma música, mas, com medo da esposa, mudou o título da peça para Severina Xique-Xique, homenageando, também, a cidade onde estava. Cantoria pronta, ofereceu-a a vários artistas famosos do Nordeste, entre eles Marinês, a “Raínha do Xaxado”, o sanfoneiro Zé Calixto  e o amigo Messias Holanda, mas ninguém a quis, pois o povo nordestino  não sabia o que era butique e entenderia “butico”, palavrão muito ofensivo, usado em “enfia o dedo no butico”. Mas Genival Lacerda topou e ainda ganhou parceria na música.

Gravada pelo selo Copacabana, o paraibano Lacerda teve de comparecer, em cinco domingos seguidos, para cantar “Severina Xique-Xique” no programa de Silvio Santos, o principal de auditório da TV brasileira, e viajou pelo país inteiro para dar conta de uma terrível agenda lotada de shows. Quanto ao João Gonçalves, resolveu ser cantor, aos 38 de idade, e só arrumou confusão. Em 1976, ele compôs “Pescaria em Boqueirão” e passou a ser perseguido pela censura e a polícia, por causa desses versos: “Ô lapa de minhoca/Eita que minhocão/Com uma minhoca dessas/Se pega até tubarão”.

Para a Ditadura dos generais-presidentes que mandavam no Brasil, desde 1964, dizendo-se “zelosos do moral e dos bons costumes da sociedade”, a lapa de minhoca seria o “mijador” do homem. Por conta daquilo, enquanto Roberto Carlos pouco aparecia pelo Nordeste, porque as suas musicas do período pouco davam liga, João Gonçalves vivia entrando e saíndo de delegacia de polícia. A censura lhe proibia de botar o gogó no microfone, mas a sua banda tocava e o povão cantava:”Ô lapa de minhoca/Eita que minhocão”. Ficou mais de um ano proibido de cantá-la por “provocar desconforto ao decoro público”. Os militares preferiam Roberto Carlos cantando “Ilega, imoral ou engorda”.

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