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Professor da UnB é premiado por livro “Negro no mundo dos ricos” Professor da UnB é premiado por livro “Negro no mundo dos ricos”

Literatura

Professor da UnB é premiado por livro “Negro no mundo dos ricos”

Tese de doutorado em Sociologia do docente Emerson Ferreira Rocha faturou categoria Ciências Sociais Aplicadas em cerimônia da Associação Brasileira de Editoras Universitárias (ABEU)

Pedro Marra

Publicado

em

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Professor do Departamento de Sociologia (Sol) da UnB, Emerson Ferreira Rocha, 35 anos, ficou em primeiro lugar na categoria Ciências Sociais Aplicadas na premiação da Associação Brasileira de Editoras Universitárias (ABEU) com o livro “O Negro no mundo dos ricos: um estudo sobre a disparidade racial de riqueza com os dados do Censo 2010.

A obra, publicada pela Editora UnB (EDU), foi anunciada como vencedora da honraria no último dia 26 de novembro, e retrata que a desigualdade entre negros e brancos com a mesma formação profissional é maior entre os mais ricos.

O texto é resultado de tese de doutorado desenvolvida pelo professor na UnB, com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e na University of Illinois at Urbana Champaign, nos Estados Unidos, e suporte da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

“Um fato muito importante foi ter tido a oportunidade de realizar parte da pesquisa na University of Illinois. Isso porque o caso dos EUA foi sempre um contraponto muito importante para compreendermos a discriminação racial no Brasil. Com a oportunidade de publicar o livro pela editora UnB, submeti o texto original da tese a algumas reformulações visando um público mais amplo. Com isso, o texto continua técnico, mas com uma linguagem, assim espero, mais acessível”, opina Emerson.

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O livro mostra um estudo de natureza quantitativa que utiliza dados do censo demográfico de 2010. Segundo informações apresentadas pela pesquisa, no grupo dos 1% com maior renda no Brasil, somente 14% são negros (soma de pretos e pardos). O estudo de Emerson foi feito com o intuito de analisar por que e como isso acontece.

“Os negros, além de terem, em média, menos escolaridade do que a população branca, quando entram no curso superior, tendem a estar concentrados em áreas de formação vinculadas a menores salários. Vão estar menos na Medicina do que na Pedagogia, por exemplo. Isso é uma das coisas que explica a desigualdade na composição no grupo dos ricos”, analisa o pesquisador.

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“Escolhas são feitas em contexto”
Para ele, as chances de negros atingirem uma renda alta não dependem apenas de escolhas. “Quando olhamos do ponto de vista individual, sobretudo quando tivemos uma trajetória de sucesso, tendemos a sobre-estimar a relevância das nossas escolhas. Contudo, escolhas importam. A questão é que mesmo as escolhas são feitas em contexto. Quando escolhemos qual curso vamos fazer, em qual profissão vamos nos especializar, em qual cidade vamos morar etc., fazemos isso influenciados por toda uma teia de relações sociais em que estamos inseridos. Ter instituições que promovam redes de apoio constitui um passo decisivo para a elevação das condições econômicas da população negra”, pontua.

Na conclusão do doutor Emerson, a discriminação é outro ponto que influência na menor presença de pretos e pardos entre os 1% mais ricos. Pela ascensão social não diminuir os efeitos do preconceito racial no acesso à renda da população negra, ele destaca que quanto mais alto o estrato social, mais acentuada é a diferença salarial entre pessoas negras e brancas com a mesma formação.

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“O mesmo nível de educação superior não vale igualmente para negros e brancos, em termos de renda. O retorno financeiro sobre a qualificação profissional é maior para o branco do que para o negro. Em algumas áreas do conhecimento, essa diferença é um pouco menor, mas ela existe em todas as áreas”, comenta o professor.

Para o autor, a conclusão da tese desmente a ideia de que a discriminação racial se resolve conforme a população negra tem ascensão na sociedade. “O negro quando enriquece passa a ser uma espécie de corpo fora do lugar, a presença dele ali destoa de um certo padrão, onde os negros exercem posições sem prestígio e sem autoridade, ao contrário dos brancos”, afirma Emerson.

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Por esse fator de “corpo fora do lugar” que Emerson cita a complexidade para se ter acesso acesso aos meios adequados para se perseguir esse fim da riqueza. “A questão fundamental é a distribuição e o acesso aos meios adequados para se perseguir esse fim. Meu trabalho foca nisso. Em como esses meios adequados são distribuídos desigualmente entre negros e brancos. Mostro que, por um lado, boa parte dessa desigualdade tem a ver com diferenças de acesso à educação, mas que, por outro lado, existe discriminação no mercado de trabalho. Um mesmo diploma em Direito, por exemplo, não vale o mesmo, em média, para negros e brancos. As recompensas são diferenciadas e o critério socialmente operante é a ‘raça’”, esclarece o doutor em Sociologia.

Visibilidade

A tese virou livro após publicação em 2019 em edital que selecionou obras produzidas na universidade para serem lançadas pela Editora UnB. Para a diretora da EDU, Germana Henriques Pereira, é uma honra receber esta premiação.

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“Eu considero que é de extrema importância a iniciativa da ABEU de conceder os prêmios e, em seguida, é importante para a editora porque mostra como ela está operando e participando. Junto à nossa comunidade, também é muito importante o prêmio, porque chama a atenção para a importância e o trabalho que a editora faz.”

O autor da obra deixa uma mensagem para os negros que buscam diariamente ter ascensão social no Brasil. “O recado é o de que há vários obstáculos a serem enfrentados e que certo grau de solidariedade é uma condição necessária para esse enfrentamento. Solidariedade não é apenas uma virtude moral, é também um recurso estratégico”, conclui.




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