Os youtubers Jesse Ridgway e Ashley Ridgway relataram que vêm recebendo ameaças de morte e ataques nas redes sociais após revelarem que decidiram interromper a gravidez do primeiro filho. Segundo o casal, exames indicaram alta probabilidade de o bebê nascer com Síndrome de Down, e a decisão gerou forte repercussão.
Eu já estava na porta de um dos espaços do circuito em Recoleta, quase entrando no evento do BAFA, quando uma mulher da organização me entregou a credencial e disse, com um sorriso impecável, que eu poderia circular “com total liberdade”. Era uma frase bonita para uma noite de arte, moda e gastronomia. Mas, antes de atravessar a porta, li a história de Jesse e Ashley. E, por alguns segundos, toda a leveza do convite pareceu pequena demais. Tem pauta que derruba o verniz da festa antes mesmo da primeira taça.
Na quinta-feira, Jesse usou os stories do Instagram para falar sobre os ataques: “Nunca vi tanto ódio e tanta hostilidade direcionados a duas pessoas que estão sofrendo pela perda de um filho ainda não nascido”.

Segundo ele, as mensagens foram além de críticas. “Fomos chamados de ‘assassinos’, ‘pessoas malignas’, comparados a Hitler e recebemos ameaças de morte sem parar”, disse o youtuber.
O casal havia anunciado a decisão na quarta-feira, explicando que a interrupção da gravidez aconteceu depois de exames apontarem alta probabilidade de Síndrome de Down. Jesse afirmou que a escolha não foi feita “de forma leviana” e descreveu a situação como traumática para ele e a esposa.
No desabafo, ele também rebateu internautas que disseram que teriam mantido a gestação, colocado a criança para adoção ou adotado um bebê com a condição. “Isso é ótimo! Vocês podem fazer todas essas coisas. No entanto, muitas das pessoas que estão nos julgando nem sequer têm filhos, muito menos um filho com alguma condição, e provavelmente nunca farão aquilo que dizem que fariam”, afirmou.
Jesse também disse que suas palavras e intenções foram distorcidas em publicações nas redes. Segundo ele, até o cachorro da família, que enfrenta uma doença renal em estágio avançado, virou alvo de ataques.

O caso abriu uma discussão intensa, dolorosa e cheia de camadas. De um lado, há pessoas profundamente indignadas com a decisão do casal. De outro, há o relato de dois pais dizendo que enfrentaram uma escolha traumática, íntima e marcada por medo, luto e exposição pública.
No texto em que explicou o caso, Jesse afirmou que, depois de tornar a situação pública, percebeu que muitas pessoas não compreendem as implicações médicas da Síndrome de Down. Ele citou possíveis cardiopatias congênitas, problemas de audição, visão, desenvolvimento e outras condições associadas. A forma como ele descreveu a síndrome também provocou críticas, especialmente de famílias e pessoas com deficiência que consideraram a fala dura e estigmatizante.
Mesmo assim, ameaça de morte não é debate. Comparação com Hitler não é opinião. Ataque pessoal não é defesa da vida. É só brutalidade com sinal de internet.
Jesse disse que entende por que muitas pessoas não falam publicamente sobre experiências tão delicadas. “Existe um sofrimento real acontecendo, e ele muitas vezes é vivido em silêncio e com medo”, escreveu.
Antes de guardar o celular, li a última parte do desabafo. Ele disse que Ashley é “incrível” e que o casal pretende olhar para o futuro. Eu respirei fundo, ajeitei a credencial no pescoço e entrei no evento com outra cabeça. Recoleta estava iluminada, as vitrines estavam lindas e as pessoas falavam baixo diante das obras. Mas ali, no meio da beleza toda, fiquei pensando que a internet perdeu completamente o pudor de invadir luto alheio. Discordar é humano. Ameaçar quem já está sangrando por dentro é outra coisa. E essa, meu amor, não tem filtro que salve.