Amados e amadas , confesso que levantei do sofá e bati palma sozinha. Porque só Ivete Sangalo consegue fazer de uma fake news uma coreografia extra e de um ataque coordenado um quadro de show com aplauso garantido.
Tudo começou no começo de janeiro, naquela velha prática de recortar vídeo como quem escolhe o pior ângulo da rival no casamento do ex. Pegaram trechos de Ivete fazendo caretas no palco, aquelas expressões que todo artista faz cantando, dançando, respirando, vivendo. A internet resolveu vender isso como algo estranho, quase sobrenatural, e lá foram sites de entretenimento e perfis fofoqueiros engrossar o caldo.
Pronto. A “careta” virou manchete, comentário atravessado e combustível pra gente que vive de distorcer imagem alheia.
Essa história não caiu do céu. Ivete já vinha sendo perseguida por fake news em série. Teve vídeo político com áudio manipulado por inteligência artificial, fazendo parecer que ela atacava eleitores e defendia Lula de um jeito que nunca existiu. Teve boato baixo sobre drogas, desses que surgem em páginas travestidas de notícia. Teve insinuação maldosa, repetida até virar ruído.
E aí entra o detalhe que essa colunista ama. Ivete nunca entrou em modo nota oficial chorosa. Ela observa, anota mentalmente e espera o palco.
Em plena transmissão do Multishow, Ivete resolve brincar com o próprio veneno que jogaram nela. Surge a Vampirinha. Caretas exageradas, expressão levada ao limite, riso de quem sabe exatamente o que está fazendo. A cantora pega o meme, assume o personagem e transforma a tentativa de ridicularização em munição de deboche.
A indireta é direta. O recado vai com endereço certo para a bolha bolsonarista que surfou na distorção e espalhou o vídeo como se fosse prova de alguma coisa.
O que Ivete faz ali é aula prática de sobrevivência pop. Ela entende o jogo dos cortes virais, dos vídeos fora de contexto, da manchete maldosa. Em vez de correr atrás do estrago, ela expõe o absurdo diante da plateia, rindo, cantando, performando.
Eu chamo isso de contra ataque com salto alto. A fake news perde a graça. O público entende a jogada. A Vampirinha vira personagem querido. E quem tentou usar a cantora como piada acaba assistindo ao próprio constrangimento em rede nacional.
Ivete segue sendo Ivete. Cantora, personagem, dona do palco e autora da própria narrativa. E eu sigo aqui, fã enlouquecida, anotando tudo como quem assiste a novela boa, dessas que a vilã acha que ganhou e descobre tarde demais que a protagonista já tinha o capítulo inteiro planejado.