Claudia Raia abriu o coração ao relembrar os desafios enfrentados no início da carreira e revelou como precisou lidar com a objetificação feminina em uma época em que atrizes bonitas frequentemente eram reduzidas à aparência física. Em entrevista ao podcast VidaLonga, a artista afirmou que decidiu transformar o estigma de símbolo sexual em uma estratégia para permanecer relevante e ser reconhecida pelo talento.
Eu já estava naquela fase do dia em que a produtividade começa a negociar uma rendição silenciosa, quando me deparei com a manchete. E vou dizer uma coisa: poucas pessoas conseguem resumir décadas de carreira em uma frase tão direta quanto Claudia Raia. Quando ela disse que usou estrategicamente a própria bunda, não estava falando apenas de estética. Estava falando de sobrevivência profissional.

Durante a conversa, a atriz relembrou que, nos anos 1980, era frequentemente vista apenas como um símbolo sexual. Na televisão, era comum ouvir referências à sua aparência antes mesmo de qualquer comentário sobre seu trabalho.
“Eu era a gostosa, o sex symbol, a bunda”, afirmou.
Claudia também comentou sobre a genética da família e contou que a mãe, falecida aos 95 anos, manteve características físicas marcantes até o fim da vida. Entre risadas, destacou que ela e a irmã herdaram atributos semelhantes, mas reforçou que o físico também é resultado de muita disciplina.
“Não dá para você desdenhar da bunda, perde no banho”, brincou.
A atriz revelou que mantém uma rotina intensa de exercícios e destacou que a forma física exige dedicação constante.
“É uma bunda construída, ninguém me deu essa bunda”, afirmou.
Mas o aspecto mais interessante do relato foi a forma como ela decidiu reagir ao preconceito da época. Trabalhando no programa Viva o Gordo, de Jô Soares, Claudia percebeu que corria o risco de ter uma carreira limitada ao papel de mulher bonita.
“Poderia ter sido uma carreira apoiada em uma bunda? Poderia. Mas eu optei por não”, declarou.
Segundo a artista, existia uma mentalidade muito forte nos anos 1980 que associava beleza feminina à falta de talento. Mulheres consideradas símbolos sexuais precisavam provar constantemente que eram capazes de ir além da aparência.
“Bundas geralmente não têm talento, na cabeça das pessoas retrógradas dos anos 80”, disse.
Foi nesse contexto que Claudia decidiu desafiar as expectativas. Um dos momentos mais marcantes aconteceu durante sua participação na histórica TV Pirata, quando insistiu para interpretar Tonhão, um personagem masculino e caricato. O diretor Guel Arraes chegou a sugerir outros papéis, lembrando que ela era vista como símbolo sexual pelo público.
A atriz, no entanto, fez questão de seguir pelo caminho mais difícil. Queria justamente mostrar uma faceta que ninguém esperava ver.
A aposta deu certo. O personagem ajudou a consolidar sua versatilidade e abriu espaço para uma trajetória que atravessaria décadas na televisão, no teatro e na dança.
Hoje, com mais de quarenta anos de carreira, Claudia Raia olha para trás sem ressentimento e com uma leitura bastante clara do período que viveu. Ela reconhece que usou a imagem que a televisão explorava, mas não permitiu que aquilo definisse quem ela era.

“Usei estrategicamente a minha bunda. Mas, depois, ela virou apenas um acessório”, resumiu.
E talvez esteja justamente aí a grande virada da história. Enquanto muita gente tentava reduzir Claudia Raia a uma característica física, ela transformou essa mesma característica em ponto de partida para construir uma das carreiras mais longevas e respeitadas da televisão brasileira. O corpo abriu portas. O talento garantiu que elas permanecessem abertas.