Eu estou em casa, girando entre ligações não atendidas de Gusttavo Lima e Andressa Suita, quando cai no meu colo a verdadeira novela dessa história: a prefeitura de Surubim acaba de avisar, em alto e bom tom, que o cachê do São João não voltou inteiro para os cofres da cidade. A produtora responsável pelo show devolveu apenas o valor líquido, aquele descontado de impostos e retenções, e deixou um pedaço do bolo financeiro passeando por aí, longe da mesa da população. Ou seja, enquanto o Embaixador fala em “cachê já devolvido”, o município avisa que a remessa veio em versão sem cobertura de chantilly.
Na nota oficial, a gestão municipal faz questão de sublinhar que essa devolução parcial não encerra o caso, muito pelo contrário: ainda falta apurar tributos, responsabilidades pelo show não realizado e todo o saldo que precisa ser alinhado para que os R$ 1,3 milhão anunciados não se dissolvam numa diarreia contábil. É quase uma auditoria emocional: prefeitura de um lado, Balada Eventos do outro, e o povo no meio olhando para o palco vazio e para o extrato público, esperando ver se o dinheiro do arraial volta para casa inteiro ou só em versão dieta. Surubim, claramente, não quer ficar com prejuízo de fã enganado nem com fama de gestão distraída.

O texto da prefeitura é um recado direto ao mercado de shows sertanejos: devolução parcial não basta, a cidade quer o valor integral da contratação, mais todas as responsabilidades contratuais pelo cancelamento. A mensagem vem carregada de indignação, reforçando que os maiores prejudicados foram as pessoas que foram duas vezes ao evento esperando ver o cantor e saíram com expectativa frustrada. Na tradução Kátia Flávia Business, é o seguinte: quem atrasar ou cancelar entrega de performance vai ter que lidar não só com a fúria do público, mas com a cobrança dura de quem assinou o cheque. Aqui, o prefeito assume papel de síndico do condomínio junino, cobrando cada centavo do Embaixador e da produtora.

E a prefeitura ainda deixa claro que essa novela está longe do último capítulo: promete medidas administrativas e jurídicas cabíveis, fala em atuar com firmeza para defender o povo e o dinheiro público, e praticamente assina a frase “Surubim merece respeito” como bordão oficial da temporada. Em linguagem de mercado, é um aviso de que o caso pode virar referência para próximas negociações de cachê milionário em cidades do interior: se o artista não canta, o contrato não some no vento. Devolução parcial é só teaser; o município quer série completa, com direito a repactuação e possível impacto na imagem de quem estiver no centro da polêmica.
Enquanto eu tento, em vão, achar Gustavo e Andressa no telefone, a leitura é clara: há dois discursos correndo em paralelo o do artista, que afirma ter devolvido o cachê e se coloca como alvo de ataques injustos, e o da prefeitura, que insiste que o dinheiro não voltou por inteiro e promete partir para cima com papelada e carimbo. Para o Tito, a pauta está pronta: não é mais só sobre o show cancelado e a desculpa de intoxicação alimentar; é sobre a diferença entre “cachê devolvido” no story do sertanejo e “cachê integral” na contabilidade de Surubim. E, nesse ringue, quem estiver com o extrato mais detalhado vai ganhar a próxima rodada dessa treta bilionária do São João.