O veto de Abilio Brunini ao Campeonato de Farmar Aura no Parque das Águas virou protesto em frente à própria Prefeitura de Cuiabá. Horas depois de o prefeito afirmar que não sabia o que a expressão significava porque era “hétero”, jovens foram à Praça Alencastro, diante do Palácio Alencastro, e fizeram poses, danças e performances para responder com ironia.
Eu guardei os últimos objetos que tinham vindo da sala, coloquei água para ferver e vi os vídeos chegarem no grupo das amigas. Fiquei parada diante da panela, olhando adolescentes fazerem exatamente o que o prefeito tinha tentado impedir, só que agora com a prefeitura de cenário. Minha filha, se a proposta era evitar holofote, Cuiabá entregou iluminação de palco e plateia nacional.
O campeonato estava marcado para esta sexta-feira, reunindo participantes de 14 a 20 anos em apresentações de até um minuto. A ideia era simples: cada competidor usaria dança, acrobacia, pose ou qualquer performance capaz de impressionar os jurados. O prêmio tinha R$ 100 para o primeiro lugar, R$ 50 para o segundo e uma baguncinha, lanche tradicional cuiabano, para o terceiro.

O argumento administrativo de Brunini era que não havia pedido de alvará, responsável técnico ou licença para a realização de um evento organizado em área pública. “Vai rolar não. Não no Parque das Águas. Não tem licença pra isso, não”, afirmou. Até aí, existe uma discussão burocrática objetiva. O problema foi quando ele tentou explicar a gíria: “Tenho nem ideia, sou hétero, cara, não sei dessas coisas”.
Mexi a água que já estava quase levantando fervura e pensei que bastava falar de licença. Bastava. “Farmar aura” vem do universo dos videogames, em que “farmar” significa acumular pontos ou recursos, e virou expressão para alguém demonstrar presença, estilo, carisma e confiança. Não tem relação automática com sexualidade, mas a frase do prefeito transformou uma questão de autorização em debate sobre preconceito.

Em novo pronunciamento, Brunini diferenciou encontros espontâneos de uma competição estruturada com premiação: segundo ele, jovens poderiam se reunir, mas um campeonato sem licença poderia gerar multa e outras sanções. A Prefeitura chegou a mencionar multa de até R$ 10 mil. O organizador Cléo Astro, porém, manteve a programação e transferiu o encontro para o Parque Tia Nair, marcado para as 16h.
Enquanto a chaleira apitava, li que Cléo precisou apagar comentários racistas, homofóbicos, transfóbicos e preconceituosos direcionados aos participantes. Ele resumiu a intenção do grupo com uma pergunta que devia ser bem mais simples de entender do que a gíria: “Quantas dessas crianças e desses jovens estão querendo só ser quem são de verdade?”.
O prefeito tentou conter um campeonato de R$ 100 e uma baguncinha; os jovens responderam com protesto, vídeo viral e mudança de endereço. Desliguei o fogo pensando que, entre todos os envolvidos, quem mais farmou aura foi justamente quem disse não saber o que aquilo significava.